Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
Geral Publicidade
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Brasil
Geral
 

Sexo dá o tom dos anúncios franceses
Celebridades ganham para aparecer em festas
Mulheres no canteiro de obras de Tucuruí
O tombamento de tradições populares
A pulseira das patricinhas
Os piratas atacam nos mares do Sul
Hotéis usam a cheia para atrair turistas ao Pantanal
Novas drogas para a esquizofrenia
Volkswagen inaugura fábrica de carros de luxo
Educação: A avaliação melhora o ensino
Fofocas e politicagens na vida de Virgílio Távora
O governador planta o filho na oposição
A fé que move o brasileiro

Economia e Negócios
Internacional
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
VEJA on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Pornô chique

Sexo cada vez mais explícito invade
anúncios de marcas famosas na
França e rende até autocrítica

Thaís Oyama, de Paris

As propagandas que "não exploram corpo de mulher" (acima) e as que exploram: apelo erótico para vender tudo, de perfumes a chocolates

Tudo começou com a Dior: por certa e líquida influência de seu estilista, o iconoclasta profissional John Galliano, no ano passado a grife cobriu os cartazes de rua de Paris com "mecânicas" seminuas, sujas de graxa, em insinuante, digamos, interação com peças de caminhão. Pronto – estava aberto um filão publicitário que todas as grandes marcas francesas se apressaram em explorar. Propaganda de moda (e de leite, de chocolate, o que for) que se preze hoje na França tem de misturar glamour, nudez e um toque de perversão. A novidade é o toque de perversão. Na França, como no Brasil, o uso do apelo erótico na publicidade tem uma longa história. O que chama a atenção na onda atual é o clima pornô-chique, em que a sutileza dá lugar a cenas cada vez mais explícitas. Exemplos em cartaz: a boca cheia de dedos do anúncio da Gucci, o agarra-agarra da Dolce & Gabbana, a barra do chocolate Magnum desafiadoramente enfiada na calcinha da modelo e até um alvo de celeuma internacional, o anúncio do perfume Opium, de Saint Laurent, no qual a modelo inglesa Sophie Dahl veste apenas um colar de brilhantes e aquele inconfundível olhar vocês-sabem-do-quê. A disseminação da publicidade de alta voltagem sexual criou uma tensão inevitável entre duas tendências arraigadamente francesas: a tradição de liberalismo e tolerância consagrada em séculos de história e o movimento feminista, que lá ainda sobrevive em sua forma original. "Esse tipo de publicidade, além de degradar a imagem da mulher, é de um machismo arcaico", detona a escritora Florence Montreynaud, presidente da organização não-governamental La Meute (A Matilha).

Como não poderia deixar de ser num país onde tudo vira debate intelectual, a discussão já rendeu bate-boca na TV, livros, passeatas e uma dezena de cartazes pichados nas ruas. O primeiro-ministro Lionel Jospin, instado a tomar posição na polêmica, recentemente divulgou documento em que, fiel ao currículo de esquerda, afirma ser, sim, "contrário a todos os anúncios que degradam e humilham as mulheres". Eleições à vista, achou melhor parar por aí – não quer arranhar o antipuritanismo de que os franceses gostam de se vangloriar, especialmente em contraposição ao que imaginam ser os pudicos americanos. O país que deu ao mundo o marquês de Sade, o cancã e o biquíni orgulha-se de não corar sob nenhuma circunstância e, num ambiente assim, as feministas podem até fazer barulho, mas são as primeiras a reconhecer que é uma batalha perdida. "Os franceses detestam ser identificados com qualquer coisa que possa parecer reacionária", admite Florence.

Assim, o anúncio com Sophie Dahl sobrevive ileso, embora tenha entrado na lista negra da vizinha Inglaterra. Lá, ele chegou a cobrir parede inteira do metrô londrino, mas foi banido depois que os serviços de proteção ao consumidor receberam cerca de 1.000 telefonemas de cidadãos indignados com a alvíssima e provocante nudez da ruiva. "Aqui, atendemos três até agora", gaba-se Joseph Besnainou, diretor-geral do Departamento de Verificação de Publicidade, o organismo de auto-regulamentação da publicidade francesa. O apelo a um recurso tão irresistível quanto o erotismo explícito, porém, traz em si a própria semente da destruição: todo mundo sabe quando um anúncio ultrapassa os limites. Exemplo recente foi o da marca La City, que pôs uma mulher nua para vender um agasalho. "Estou com desejo de um pulôver", diz a modelo, enquanto engatinha lascivamente na direção de um carneiro no pasto. O disparate foi tanto que uma campanha feminista conseguiu retirar o cartaz das ruas.

O problema é que, como se sabe desde sempre, sexo vende. Em um momento de queda no consumo de artigos de luxo, a Dior acaba de comemorar um aumento de 35% nas vendas. Yves Saint Laurent e Guerlain exibem números parecidos para suas fragrâncias. "Quanto mais os produtos se sofisticam, menos eles têm a possibilidade de se vender pela sua função real. O que os publicitários fazem é agregar a eles um valor imaginário, como a possibilidade de atingir o êxtase ou a ascensão social", analisa o sociólogo Michael Lowy, presidente do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França e membro da ONG significativamente batizada de Resistência à Agressão Publicitária. Na briga, o golpe mais recente veio sob a forma de uma verdadeira contrapropaganda: uma série de anúncios da cadeia de calçados Eram, intitulada "Nenhum corpo de mulher é explorado neste anúncio", que acaba de ganhar o prêmio Publicidade do Ano. Um cartaz premiado anuncia um moderníssimo par de botas pretas – e quem as calça é um avestruz. Em outro, é um homem nu quem posa de sapatos de salto alto. Os criadores juraram que não se trata de provocação e conclamaram as feministas a rir junto com eles, numa espécie de autocrítica coletiva. Florence faz jus à fama da espécie: "Obviamente, não temos o mesmo senso de humor".

   
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS