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Pornô chique
Sexo cada
vez mais explícito invade
anúncios de marcas famosas na
França e rende até autocrítica

Thaís
Oyama, de Paris
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As
propagandas que "não exploram corpo de mulher" (acima)
e as que exploram: apelo erótico para vender tudo, de perfumes
a chocolates |
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Tudo começou
com a Dior: por certa e líquida influência de seu estilista,
o iconoclasta profissional John Galliano, no ano passado a grife cobriu
os cartazes de rua de Paris com "mecânicas" seminuas, sujas de graxa,
em insinuante, digamos, interação com peças de caminhão.
Pronto estava aberto um filão publicitário que todas
as grandes marcas francesas se apressaram em explorar. Propaganda de moda
(e de leite, de chocolate, o que for) que se preze hoje na França
tem de misturar glamour, nudez e um toque de perversão. A novidade
é o toque de perversão. Na França, como no Brasil,
o uso do apelo erótico na publicidade tem uma longa história.
O que chama a atenção na onda atual é o clima pornô-chique,
em que a sutileza dá lugar a cenas cada vez mais explícitas.
Exemplos em cartaz: a boca cheia de dedos do anúncio da Gucci,
o agarra-agarra da Dolce & Gabbana, a barra do chocolate Magnum desafiadoramente
enfiada na calcinha da modelo e até um alvo de celeuma internacional,
o anúncio do perfume Opium, de Saint Laurent, no qual a modelo
inglesa Sophie Dahl veste apenas um colar de brilhantes e aquele inconfundível
olhar vocês-sabem-do-quê. A disseminação da
publicidade de alta voltagem sexual criou uma tensão inevitável
entre duas tendências arraigadamente francesas: a tradição
de liberalismo e tolerância consagrada em séculos de história
e o movimento feminista, que lá ainda sobrevive em sua forma original.
"Esse tipo de publicidade, além de degradar a imagem da mulher,
é de um machismo arcaico", detona a escritora Florence Montreynaud,
presidente da organização não-governamental La Meute
(A Matilha).
Como não
poderia deixar de ser num país onde tudo vira debate intelectual,
a discussão já rendeu bate-boca na TV, livros, passeatas
e uma dezena de cartazes pichados nas ruas. O primeiro-ministro Lionel
Jospin, instado a tomar posição na polêmica, recentemente
divulgou documento em que, fiel ao currículo de esquerda, afirma
ser, sim, "contrário a todos os anúncios que degradam e
humilham as mulheres". Eleições à vista, achou melhor
parar por aí não quer arranhar o antipuritanismo
de que os franceses gostam de se vangloriar, especialmente em contraposição
ao que imaginam ser os pudicos americanos. O país que deu ao mundo
o marquês de Sade, o cancã e o biquíni orgulha-se
de não corar sob nenhuma circunstância e, num ambiente assim,
as feministas podem até fazer barulho, mas são as primeiras
a reconhecer que é uma batalha perdida. "Os franceses detestam
ser identificados com qualquer coisa que possa parecer reacionária",
admite Florence.
Assim, o
anúncio com Sophie Dahl sobrevive ileso, embora tenha entrado na
lista negra da vizinha Inglaterra. Lá, ele chegou a cobrir parede
inteira do metrô londrino, mas foi banido depois que os serviços
de proteção ao consumidor receberam cerca de 1.000
telefonemas de cidadãos indignados com a alvíssima e provocante
nudez da ruiva. "Aqui, atendemos três até agora", gaba-se
Joseph Besnainou, diretor-geral do Departamento de Verificação
de Publicidade, o organismo de auto-regulamentação da publicidade
francesa. O apelo a um recurso tão irresistível quanto o
erotismo explícito, porém, traz em si a própria semente
da destruição: todo mundo sabe quando um anúncio
ultrapassa os limites. Exemplo recente foi o da marca La City, que pôs
uma mulher nua para vender um agasalho. "Estou com desejo de um pulôver",
diz a modelo, enquanto engatinha lascivamente na direção
de um carneiro no pasto. O disparate foi tanto que uma campanha feminista
conseguiu retirar o cartaz das ruas.
O problema
é que, como se sabe desde sempre, sexo vende. Em um momento de
queda no consumo de artigos de luxo, a Dior acaba de comemorar um aumento
de 35% nas vendas. Yves Saint Laurent e Guerlain exibem números
parecidos para suas fragrâncias. "Quanto mais os produtos se sofisticam,
menos eles têm a possibilidade de se vender pela sua função
real. O que os publicitários fazem é agregar a eles um valor
imaginário, como a possibilidade de atingir o êxtase ou a
ascensão social", analisa o sociólogo Michael Lowy, presidente
do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França e
membro da ONG significativamente batizada de Resistência à
Agressão Publicitária. Na briga, o golpe mais recente veio
sob a forma de uma verdadeira contrapropaganda: uma série de anúncios
da cadeia de calçados Eram, intitulada "Nenhum corpo de mulher
é explorado neste anúncio", que acaba de ganhar o prêmio
Publicidade do Ano. Um cartaz premiado anuncia um moderníssimo
par de botas pretas e quem as calça é um avestruz.
Em outro, é um homem nu quem posa de sapatos de salto alto. Os
criadores juraram que não se trata de provocação
e conclamaram as feministas a rir junto com eles, numa espécie
de autocrítica coletiva. Florence faz jus à fama da espécie:
"Obviamente, não temos o mesmo senso de humor".
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