Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
Especial

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Especial
  O Talibã se rende em Kandahar
Oriente Médio enfrenta nova escalada do terror
Até quando Arafat vai agüentar?
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
VEJA on-line
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Digite uma ou mais palavras:

Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Reportagens de capa 2000 | 2001
Entrevistas
2000 | 2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Bin Laden confessa

AP

SEM SUBTERFÚGIOS
Laden com o xeque saudita: admissão de culpa e deboche das vítimas

"Calculamos previamente o número de mortes entre os inimigos com base na posição da torre. Três ou quatro andares seriam atingidos. Eu era o mais otimista de todos. Em razão de minha experiência nessa área, achava que o fogo da gasolina do avião iria derreter a estrutura de ferro do edifício, fazendo com que apenas a parte onde o avião bateu e os andares acima caíssem"

"Os irmãos que conduziram a operação sabiam apenas que tinham uma missão de martírio. Nós pedimos a cada um deles para ir aos Estados Unidos, mas eles não sabiam nada sobre o plano, nem mesmo uma pista. Mas foram treinados e nós só revelamos a operação para eles quando estavam lá, pouco antes de embarcarem nos aviões"

O mundo conheceu a violência do fanatismo islâmico com a transmissão ao vivo dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos. Na semana passada, graças a um vídeo amador, conheceu também o escárnio, a ironia e a perversidade do líder mais feroz entre os terroristas. O que se vê é Osama bin Laden relaxado, numa conversa franca com um visitante saudita. O terrorista se apresenta tão à vontade que, mesmo sabendo que o encontro está sendo gravado, assume sem subterfúgios sua responsabilidade nos atentados. Cercado de amigos barbudos, Laden debocha dos civis americanos e até de seus amigos extremistas mortos no ataque. Animado com a lembrança da matança, ainda recita versos. Também se mostra iludido quanto à verdadeira conseqüência da violência para o mundo dos fanáticos. "Nossos irmãos ficaram eufóricos", diz na fita. Seu discurso ajuda a compreender o que pretendia com o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono. A intenção era humilhar os Estados Unidos e mobilizar os muçulmanos numa guerra santa contra o Ocidente. Em nenhum momento o terrorista saudita dá indícios de temor diante da represália americana.

No vídeo, Laden ignora a câmara o tempo todo. De casaco militar e turbante branco, permanece de lado, sentado sobre almofadas e de frente para o anfitrião, um clérigo saudita identificado depois como xeque Al-Ghamdi. O xeque conta em primeira mão a reação entusiasmada dos fiéis nas mesquitas sauditas causada pelos atentados de 11 de setembro. Alterna elogios ao "grande trabalho" de Laden com louvações a Alá. Há cinqüenta delas em 39 minutos de conversa gravada. A cada louvação do anfitrião, Laden abaixa a cabeça e sorri modestamente. Por fim, anima-se. Estimulado pelo xeque, desanda a revelar, rindo, que calculara com antecedência o número de vítimas no World Trade Center. Com uma das mãos, simula um prédio. Com a outra, o avião indo de encontro à primeira. E admite: não esperava que as torres fossem desabar. Acreditava, com base em sua formação de engenheiro, que apenas três ou quatro andares seriam destruídos com a explosão do combustível após o impacto. "Eu era o mais otimista de todos", gaba-se, em tom de confidência, orgulhoso com a dimensão da tragédia.

 
Reuters
CAÇADA NAS MONTANHAS
Milícia anti-Talibã vasculha Tora Bora: de olho na recompensa milionária por Laden

O terrorista dificilmente faria confissão melhor num interrogatório diante de agentes americanos. Laden revela que sabia a data dos ataques com cinco dias de antecedência. Por isso, conforme conta, naquele 11 de setembro ligou o rádio e ficou esperando pacientemente as notícias. Depois da informação sobre o primeiro choque em Nova York, manteve-se vidrado no noticiário, junto com um grupo de colegas fanáticos. "Disse a eles para que fossem pacientes", recorda, irônico, dando a entender que sabia o que iria acontecer em seguida. Em outro trecho, revela que os seqüestradores só souberam detalhes do que deveriam fazer pouco antes de embarcar nos aviões. "Os que foram treinados para pilotar não conheciam os demais seqüestradores", explica. "E cada grupo não sabia da existência de outro", complementa.

 

Reuters

PERTO DO FIM
Marines nos arredores de Kandahar, que já foi a capital do Talibã: cerco aos fugitivos da Al Qaeda

As revelações de Laden, por ter sido feitas numa gravação amadora de vídeo, não valem como prova num tribunal. Nem precisariam. As imagens confirmaram aquilo que apenas os muçulmanos fundamentalistas insistiam em negar: Osama bin Laden foi o cérebro da maior matança da história recente americana. Não se sabe se ele sobreviverá aos bombardeios no Afeganistão para ser julgado, como querem os Estados Unidos. Mas sua confissão já está escrita – ou melhor, gravada. A fita de vídeo foi divulgada pelo Pentágono depois de dois dias de suspense. O governo americano cercou-se de cuidados para evitar qualquer falha no que previa ser sua maior arma na guerra de propaganda contra os fundamentalistas islâmicos. Contratou quatro tradutores para que a versão para o inglês dos diálogos em árabe não desse margem a interpretações dúbias nem a reclamações de países islâmicos.

A preocupação fazia sentido. A fita é de péssima qualidade. Vários trechos são inaudíveis e a confusa seqüência de imagens testemunha a cada minuto o amadorismo do cinegrafista. O registro do encontro de Laden com o xeque saudita começa no meio da gravação. Como a fita termina quando a conversa estava na parte mais animada, o operador a rebobinou até o início para prosseguir com a gravação. O tempo restaerif" size="2"> A preocupação fazia sentido. A fita é de péssima qualidade. Vários trechos são inaudíveis e a confusa seqüência de imagens testemunha a cada minuto o amadorismo do cinegrafista. O registro do encontro de Laden com o xeque saudita começa no meio da gravação. Como a fita termina quando a conversa estava na parte mais animada, o operador a rebobinou até o início para prosseguir com a gravação. O tempo restante exibe um registro feito anteriormente, em outubro, de restos de um helicóptero americano abatido no deserto afegão.

As autoridades americanas também tinham dúvida quanto à oportunidade da divulgação. O vídeo foi feito quando o Talibã ainda governava o país – embora, coincidentemente, naquela noite a milícia fundamentalista acabasse perdendo o controle da primeira grande cidade afegã, Mazar-e-Sharif. Por isso, houve hesitação quanto a mostrar em rede nas TVs dos EUA um Laden com expressão vitoriosa justamente na semana em que ele estava encurralado nas montanhas do sudeste afegão. Havia, ainda, o cuidado com os sentimentos dos familiares das vítimas dos atentados. Quem perdeu um parente se sente ofendido em ver Laden zombar da tragédia.

Acabou prevalecendo a idéia de que seria muito maior o impacto das confissões do terrorista. E a reação no mundo islâmico foi tão polêmica quanto a fita. O líder de um partido fundamentalista na Indonésia, Mohamed Rizieq, disse que o vídeo poderia ter sido forjado e não tinha sido examinado por pessoas isentas ao conflito. Muitos afirmaram o mesmo em outros países. Um porta-voz do Pentágono reagiu, com ironia, lembrando que também há quem não acredite que o homem já tenha pisado na Lua. Os fundamentalistas ignoraram a confissão de Laden simplesmente porque apoiaram e até comemoraram os atentados como o primeiro passo para a restauração de um grande califado, como Laden sempre apregoou.

Outros se apegaram à recusa do governo americano em informar como a fita foi obtida para diminuir sua importância. O Pentágono disse apenas que ela foi encontrada numa casa na cidade de Jalalabad, perto da região montanhosa onde Laden está entrincheirado. Em algumas passagens do vídeo, fica claro que ele e seus amigos se iludiram com o próprio fanatismo religioso. O terrorista saudita fala com empolgação de notícias segundo as quais, na Holanda, o número de pessoas convertidas ao islamismo após os atentados teria sido maior que "nos últimos onze anos somados". Nos Estados Unidos, afirma o terrorista ao visitante, o interesse pelo islamismo também cresceu. "Esse evento fez com que as pessoas pensassem sobre o verdadeiro Islã", diz.

A derrocada rápida do Talibã e o cerco de milícias afegãs às montanhas onde Laden e seus seguidores da Al Qaeda se refugiaram mostraram que esse apoio ao "verdadeiro Islã" é uma quimera. Durante toda a semana, os bombardeios americanos castigaram Tora Bora. Até mesmo as corta-margaridas – as bombas convencionais mais devastadoras do arsenal dos Estados Unidos, capazes de arrasar tudo num raio de 500 metros – foram utilizadas. Enquanto isso, duas milícias da etnia patane decidiram encarar os quase 5.000 metros de altitude onde Tora Bora está situada para caçar o terrorista saudita e botar a mão nos 25 milhões de dólares de recompensa. Por duas vezes, os milicianos tentaram negociar a rendição dos guerrilheiros da Al Qaeda. Primeiro, ofereceram anistia – exceto a Laden e aos demais dirigentes da rede terrorista. Como não havia garantia americana de que a proposta seria honrada, os guerrilheiros permaneceram entrincheirados. Os bombardeios prosseguiram e, na quarta-feira, houve nova proposta: anistia, mas com a entrega de Osama bin Laden. Nova recusa. Ao terrorista saudita só restavam duas alternativas: a morte ou a rendição.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS