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Chávez
enfrenta a
contra-revolução
A população
da Venezuela reage ao coronel que agora quer governar por decretos
Fotos AP
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A
manifestação montada a favor de Chávez e seu encontro com Fidel
Castro: empresários, sindicalistas e estudantes preferiram a greve
geral
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A Venezuela,
a quarta maior economia da América Latina, parou na semana passada.
Ruas e avenidas ficaram vazias, shoppings, bancos, supermercados e escolas
fecharam. Uma greve de doze horas organizada por um grupo que incluiu
de empresários a sindicalistas e de estudantes a latifundiários
demonstrou quanto aumentou a reação ao cada vez mais autoritário
governo do presidente Hugo Chávez. A oposição exige
que Chávez reveja várias leis de um pacotão de 49
medidas recém-decretadas, entre elas algumas que restringem a propriedade
de terras e dificultam novos investimentos no setor petrolífero.
Apesar do sucesso da paralisação, o governo não se
moveu um milímetro.
Diante do
histórico de agressões e ameaças do presidente ao
que ele chama de "elite de canalhas corruptos", acredita-se que o regime
vai isolar-se ainda mais. O ponto mais polêmico do pacote
é o que inicia uma reforma agrária às pressas. A
partir de 18 de dezembro, todos os proprietários rurais do país
têm de demonstrar a titularidade de suas terras e provar que são
produtivas. Em tese, as áreas improdutivas deveriam ser expropriadas.
Os fazendeiros temem que, na prática, o confisco se transforme
em represálias políticas ou extorsão pura e simples.
Outra medida que impulsionou fortemente a reação foi a que
alterou as regras da exploração, do refino e da distribuição
de petróleo. Antes, não havia restrição à
constituição de novas empresas e os royalties pagos pelas
companhias estrangeiras instaladas na Venezuela eram de 16%. Agora, novas
empresas têm de ser sócias minoritárias
do governo, e os royalties subiram para 30%.
"As medidas
são estatistas, intervencionistas e carregadas de elementos ideológicos",
reclama Pedro Carmona, diretor da associação empresarial
Fedecámaras. "Queremos que o governo aprenda a ouvir a sociedade."
O coronel Chávez agiu como se a manifestação tivesse
fracassado. "Tremam, oligarcas!", gritou o presidente em uma manifestação,
no mesmo dia do protesto. Só o ouviram 2.500
pessoas, a maior parte delas levada ao local em ônibus do governo.
A popularidade de Chávez, que era de 80% dois anos atrás,
mal chega a 40%. Também pegaram muito mal entre os venezuelanos
os últimos ataques do coronel aos Estados Unidos. Entre derramados
elogios a ditadores como Saddam Hussein e Fidel Castro, ele afirmou na
TV que "os Estados Unidos estão combatendo terror com mais terror".
O governo americano já afirmou que deixaria a Venezuela de fora
de pactos comerciais com os países andinos. Apesar do discurso
exaltado de Chávez, o país vende quase 60% de sua produção
aos americanos.
A radicalização
é clara. Os opositores preparam novas paralisações
e já há expectativa de que o presidente venha a ser derrubado.
Chávez, por sua vez, pode levar o país à exceção
e virar ditador de fato. "O sucesso da greve significa uma de duas possibilidades:
é o início do fim de Chávez ou é a deixa para
o começo de uma ditadura", diz o venezuelano Moisés Naím,
editor da revista americana Foreign Policy e ex-diretor executivo
do Banco Mundial. Depois de quarenta anos de governos democráticos,
mas ineficientes e corruptos, a sociedade venezuelana elegeu com gosto
o coronel que tinha tentado um golpe de Estado em 1992. Do alto de sua
popularidade, ele convocou cinco plebiscitos e venceu todos. O
sistema judiciário e eleitoral, as eleições sindicais
e o Congresso ficaram em suas mãos. Agora, com a popularidade em
queda, Chávez prefere governar por decreto a tentar a sorte no
Congresso ou em novas consultas populares.
Apesar dos
altos preços do petróleo durante a primeira fase de seu
mandato, que permitiram um crescimento de mais de 3% no produto interno
bruto no ano passado, Chávez não conseguiu transformar esse
dinheiro novo em mais prosperidade para o país nem em diversificação
da economia. São considerados pobres 80% dos venezuelanos. O desemprego
atinge quase 15% da população e o petróleo representa
80% das exportações. O clima de instabilidade impede que
cheguem novos investimentos estrangeiros ao país. Apesar do regime
militarizado há gente fardada em vários ministérios
e na direção de escolas e estatais , a violência
em Caracas só aumentou. Hoje ela é a capital mais violenta
das Américas, com índices de homicídio superiores
até aos de Bogotá, São Paulo e Rio de Janeiro. O
coronel mantém a pose de valentão, mas a oposição
mostra que já não se assusta com isso.

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