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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Chávez enfrenta a
contra-revolução

A população da Venezuela reage ao coronel que agora quer governar por decretos

Fotos AP

A manifestação montada a favor de Chávez e seu encontro com Fidel Castro: empresários, sindicalistas e estudantes preferiram a greve geral

A Venezuela, a quarta maior economia da América Latina, parou na semana passada. Ruas e avenidas ficaram vazias, shoppings, bancos, supermercados e escolas fecharam. Uma greve de doze horas organizada por um grupo que incluiu de empresários a sindicalistas e de estudantes a latifundiários demonstrou quanto aumentou a reação ao cada vez mais autoritário governo do presidente Hugo Chávez. A oposição exige que Chávez reveja várias leis de um pacotão de 49 medidas recém-decretadas, entre elas algumas que restringem a propriedade de terras e dificultam novos investimentos no setor petrolífero. Apesar do sucesso da paralisação, o governo não se moveu um milímetro.

Diante do histórico de agressões e ameaças do presidente ao que ele chama de "elite de canalhas corruptos", acredita-se que o regime vai isolar-se ainda mais. O ponto mais polêmico do pacote é o que inicia uma reforma agrária às pressas. A partir de 18 de dezembro, todos os proprietários rurais do país têm de demonstrar a titularidade de suas terras e provar que são produtivas. Em tese, as áreas improdutivas deveriam ser expropriadas. Os fazendeiros temem que, na prática, o confisco se transforme em represálias políticas ou extorsão pura e simples. Outra medida que impulsionou fortemente a reação foi a que alterou as regras da exploração, do refino e da distribuição de petróleo. Antes, não havia restrição à constituição de novas empresas e os royalties pagos pelas companhias estrangeiras instaladas na Venezuela eram de 16%. Agora, novas empresas têm de ser sócias – minoritárias – do governo, e os royalties subiram para 30%.

"As medidas são estatistas, intervencionistas e carregadas de elementos ideológicos", reclama Pedro Carmona, diretor da associação empresarial Fedecámaras. "Queremos que o governo aprenda a ouvir a sociedade." O coronel Chávez agiu como se a manifestação tivesse fracassado. "Tremam, oligarcas!", gritou o presidente em uma manifestação, no mesmo dia do protesto. Só o ouviram 2.500 pessoas, a maior parte delas levada ao local em ônibus do governo. A popularidade de Chávez, que era de 80% dois anos atrás, mal chega a 40%. Também pegaram muito mal entre os venezuelanos os últimos ataques do coronel aos Estados Unidos. Entre derramados elogios a ditadores como Saddam Hussein e Fidel Castro, ele afirmou na TV que "os Estados Unidos estão combatendo terror com mais terror". O governo americano já afirmou que deixaria a Venezuela de fora de pactos comerciais com os países andinos. Apesar do discurso exaltado de Chávez, o país vende quase 60% de sua produção aos americanos.

A radicalização é clara. Os opositores preparam novas paralisações e já há expectativa de que o presidente venha a ser derrubado. Chávez, por sua vez, pode levar o país à exceção e virar ditador de fato. "O sucesso da greve significa uma de duas possibilidades: é o início do fim de Chávez ou é a deixa para o começo de uma ditadura", diz o venezuelano Moisés Naím, editor da revista americana Foreign Policy e ex-diretor executivo do Banco Mundial. Depois de quarenta anos de governos democráticos, mas ineficientes e corruptos, a sociedade venezuelana elegeu com gosto o coronel que tinha tentado um golpe de Estado em 1992. Do alto de sua popularidade, ele convocou cinco plebiscitos – e venceu todos. O sistema judiciário e eleitoral, as eleições sindicais e o Congresso ficaram em suas mãos. Agora, com a popularidade em queda, Chávez prefere governar por decreto a tentar a sorte no Congresso ou em novas consultas populares.

Apesar dos altos preços do petróleo durante a primeira fase de seu mandato, que permitiram um crescimento de mais de 3% no produto interno bruto no ano passado, Chávez não conseguiu transformar esse dinheiro novo em mais prosperidade para o país nem em diversificação da economia. São considerados pobres 80% dos venezuelanos. O desemprego atinge quase 15% da população e o petróleo representa 80% das exportações. O clima de instabilidade impede que cheguem novos investimentos estrangeiros ao país. Apesar do regime militarizado – há gente fardada em vários ministérios e na direção de escolas e estatais –, a violência em Caracas só aumentou. Hoje ela é a capital mais violenta das Américas, com índices de homicídio superiores até aos de Bogotá, São Paulo e Rio de Janeiro. O coronel mantém a pose de valentão, mas a oposição mostra que já não se assusta com isso.

 
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