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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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...e acordo para o mal

Em tempo recorde, apenas seis minutos,
a bancada de Alagoas despacha
170 milhões para obras micadas

Alexandre Oltramari

Montagem sobre fotos de Ricardo Stuckert/Sergio Dutti/Orlando Brito/Ana Araujo

Renan, Augusto Farias, Suruagy, Teotonio Vilela e Heloísa Helena: uma reunião sem gravadores

O deputado Augusto Farias, irmão de PC Farias, estava lá. O ex-collorido Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado, também estava lá. O deputado Divaldo Suruagy, ex-governador enrolado no escândalo dos precatórios, idem. Teotonio Vilela, dono de uma fundação que desviou dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), também compareceu. Até a combativa senadora Heloísa Helena, do PT, apareceu por lá e deu seu aval. A reunião, à qual todos estiveram presentes, aconteceu no fim de outubro e destinava-se a escolher as obras que a bancada de Alagoas pretendia privilegiar no Orçamento da União, um procedimento que todas as bancadas estaduais adotam e, em princípio, não tem nada de irregular. Ocorre que, em apenas seis minutos, os parlamentares de Alagoas decidiram o destino de 500 milhões de reais – e resolveram despachar 170 milhões, um recorde nacional, a obras eivadas de maracutaias, segundo uma lista pública do Tribunal de Contas da União (TCU).

Em geral, os parlamentares têm o mau hábito de ignorar a lista de obras consideradas irregulares e acabam por contemplá-las com rios de dinheiro. Na melhor das hipóteses, pode-se considerar que se trata de uma distração. Entre as 27 bancadas estaduais no Congresso Nacional, nada menos que dezessete propuseram que o governo mandasse verbas para obras com problemas, somando um total de 1,4 bilhão de reais, o que forçará o Tesouro Nacional a vetá-las. Mas a bancada de Alagoas reúne algumas peculiaridades, além de ter sido a campeã em volume de verbas. Ao contrário do habitual em qualquer reunião no Congresso, em que os microfones nas mesas servem para registrar os diálogos, o encontro dos alagoanos não foi gravado. A proibição partiu do coordenador da bancada, Luiz Dantas, do PTB. É uma atitude tão incomum que o operador de áudio da Câmara, ao ser dispensado de fazer seu serviço, pediu ao deputado que colocasse sua ordem por escrito e assinasse. Dantas fazia tanta questão do sigilo que topou o constrangimento.

"Votei nas emendas que considerei mais importantes. Se as minhas não foram escolhidas, que culpa eu tenho disso?", explica Heloísa Helena. Quem está muito incomodado com o episódio é o deputado João Caldas, o recordista em troca de partidos no Congresso. Ele está exigindo a anulação das emendas da bancada, sob a alegação de que houve irregularidades, mas seu verdadeiro motivo é outro: suas emendas foram liminarmente preteridas na reunião – o que pode ter salvado mais alguns caraminguás do sumidouro. Das seis emendas que somam 170 milhões de reais para obras micadas, duas têm endereço conhecido. Somam 60 milhões de reais e foram destinadas a construções da empreiteira Gautama, de propriedade de Zuleido Veras. É um velho conhecido de Renan Calheiros. Há meses, quando fazia um discurso da tribuna do Senado, Antonio Carlos Magalhães rejeitou um aparte de Renan, com uma intervenção criptográfica: "Vossa Excelência sabe quem é Zuleido, não sabe?" Renan Calheiros encerrou o aparte e sentou-se. Parecia ter-se encabulado com a referência feita por ACM.

 


 
 
   
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