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Acordo para o bem...
Em tempo
recorde, os parlamentares
chegam a um consenso para elevar o
salário mínimo a 200 reais

Malu Gaspar
Na
semana passada, os líderes da base governista no Congresso passaram
uma rasteira no governo e anunciaram um acordo no qual ninguém
apostava um níquel: decidiram cortar 1,5 bilhão de reais
das emendas que eles próprios fizeram ao Orçamento da União
para garantir que o salário mínimo chegue a 200 reais. Na
proposta orçamentária feita pelo governo, previa-se que
o salário mínimo, a ser pago a partir do ano que vem, subiria
de 180 para 189 reais. Do brasileiro mais endinheirado ao mais miserável,
ninguém discute que o salário mínimo está
longe de ser satisfatório, mesmo cotado em 200 reais. Estima-se
que, para atender às necessidades de uma família de quatro
membros, o mínimo deveria andar na casa dos 1.000
reais. O que chama a atenção, no entanto, é o sinal
de maturidade dado pela Câmara dos Deputados: em menos de uma semana,
sem as disputas nem as demagogias ocorridas no ano passado, fechou-se
um acordo que beneficiará cerca de 45 milhões de brasileiros
que recebem até dois mínimos, faixa em que o aumento terá
mais repercussão.
Diante da
resistência do governo a aplicar um reajuste mais substancial, e
considerando que o calendário informa que 2002 é ano eleitoral,
os deputados foram de uma agilidade incomum. Na terça-feira pela
manhã, o presidente da Câmara, Aécio Neves, reuniu-se
por mais de duas horas com o relator do Orçamento, Sampaio Dória
(PSDB-SP), de onde saiu a idéia de cortar nas emendas. Em seguida,
Aécio expôs a idéia ao presidente Fernando Henrique,
que a aceitou, acreditando que não daria certo. "Nem nós
tínhamos certeza de que os líderes concordariam", afirma
Dória. À tarde, os líderes dos partidos governistas
PSDB, PMDB, PFL e PPB reuniram-se para ouvir formalmente
a proposta, que já conheciam em linhas gerais. Em apenas quarenta
minutos a reunião estava encerrada. Em tempos de responsabilidade
fiscal, concluíram que era preciso sacrificar 1,5 bilhão
de reais das emendas para levar o mínimo a 200 reais. Cortaram
20% nas emendas, cujo total é de 7,7 bilhões de reais.
O corte
nas emendas do Congresso não é um corte na carne, como os
políticos gostam de dizer. Os parlamentares sabem que suas emendas
nunca são integralmente liberadas pelo governo. Pragmáticos,
decidiram que é melhor tentar faturar aumentando o mínimo
que ficar esperando, muitas vezes em vão, pela liberação
das emendas. Mesmo assim, ajudarão a melhorar a vida de milhões
de brasileiros. Resolveram um problema imediato, mas, é bom lembrar,
deixaram intocada uma questão de fundo. O salário mínimo,
no Brasil, é peculiar. Funciona como mecanismo de proteção
dos mais pobres, mas também como indexador dos proventos pagos
pela Previdência e dos vencimentos do funcionalismo público
em Estados e municípios. Por isso, qualquer variação
em seu valor tem repercussão fiscal no caixa da Previdência,
de alguns Estados e de grande parte das prefeituras. Para que o mínimo
seja apenas o que deveria ser, ou seja, um dique de proteção
dos pobres, ele precisa deixar de ser um indexador. Essa discussão,
no entanto, os parlamentares preferiram jogar para as calendas gregas.
Mais uma vez.
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