
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Montagem sobre foto de André Fossati/Ag. 1º
Plano
 |

José
Edward

Veja também |
|
|
|
O vice-governador
de Minas Gerais, Newton Cardoso, de 63 anos, tem tudo para voltar a reinar
no Palácio da Liberdade no ano que vem. Primeiro, porque está
em ótima posição nas pesquisas de intenção
de voto no Estado que tem o segundo maior colégio eleitoral do
Brasil. Em algumas delas, até 30% dos mineiros dizem que estão
dispostos a levá-lo pela segunda vez ao governo. Newtão,
como ele é chamado popularmente, já foi governador entre
1987 e 1990. A outra razão de seu favoritismo é a camaradagem
que há entre ele e o atual governador, o ex-presidente Itamar Franco.
Ex-adversários, daqueles que xingavam um ao outro com palavrões,
eles fizeram as pazes há cinco anos, selando um plano político.
Itamar virou governador, mas fica liberado para cuidar das politicagens
e de sua batalha para construir uma "pátria onde não haja
corrupção endêmica", como disse recentemente. Newtão
se tornou vice, mas opera como efetivo tanto nas ausências de Itamar
quanto naquelas áreas que precisam de mais vigilância porque
lidam com muito dinheiro, como as de obras do governo e as que fazem grandes
pagamentos. Os dois têm também um acordo pelo qual no próximo
pleito o atual titular, Itamar Franco, abrirá mão da chance
de tentar um segundo mandato, mesmo que não consiga ser candidato
a presidente da República, como deseja.
A estrada
política está pavimentada adiante de Newtão, que
é também um homem muito rico. Tão rico que há
até bate-boca entre cabos eleitorais e desafetos quanto ao tamanho
da fortuna dele. Uns dizem, mineiramente, que é uma coisinha à-toa.
Os outros, os adversários e os exagerados, falam até em
500 milhões de reais. Newtão é um desses fenômenos
que merecem ser examinados de perto, porque começou do nada e conseguiu
enriquecer ao mesmo tempo que se dedicava à política. Em
2002 fará trinta anos que ele se elegeu para o primeiro cargo público,
na prefeitura de Contagem, então a segunda cidade mais rica de
Minas. VEJA investigou por três meses o tamanho dessa fortuna. Depois
foi perguntar ao próprio Newton Cardoso sobre a origem da dinheirama.
Fotos álbum de família
 |
ília
 |
ília
 |
PERCURSO
DO SUCESSO
Newton, no início da carreira, com o ex-presidente Juscelino
Kubitschek; ainda menino em Brumado, com a mãe, Adélia;
e como candidato a prefeito, em 1982, visitando Tancredo Neves
|
"Tenho uns
70 milhões de reais", ele calcula. "Menos as dívidas", avisa.
Só esse número já o coloca entre os políticos
de maior riqueza no Brasil. Jader Barbalho, que renunciou ao Senado em
decorrência das investigações sobre seu enriquecimento,
tem um patrimônio visível que não dá metade
disso. Mas Newtão não gosta de se gabar do dinheiro que
acumulou. Pelo contrário. Faz descontos enormes ao falar de suas
posses, especialmente quando trata dos feitos financeiros posteriores
a 1972, quando se elegeu pela primeira vez. Na descrição
dele, até essa data não havia comerciante mais esperto em
Minas. De lá para cá, ocupado com votos, eleitores e mandatos,
ele narra uma sucessão de fracassos, dívidas e prejuízos
em meio a raros episódios de sucesso financeiro.
Pelas declarações
de rendimentos que entregou ao se candidatar a alguns cargos e das listas
de bens de suas empresas, percebe-se quanto é modesto o vice de
Minas Gerais e como anda ruim sua memória a respeito dos empreendimentos
do passado. Aos 63 anos, Newtão acumula um patrimônio de
pelo menos 150 milhões de reais tomando-se como data-base
a última vez que prestou contas à Receita Federal. Esse
é o valor total atualizado por critérios conservadores de
uma relação de bens que pode ser conferida em cartórios,
juntas comerciais e declarações entregues à Receita.
Há testemunhos atribuindo-lhe muito mais, como uma participação
de 26 milhões de reais na mineradora Magnesita (veja
quadro), mas esta reportagem levou em conta apenas as posses
registradas em papéis fornecidos ou assinados pelo próprio
Newton Cardoso. Pelo menos dois corretores opinaram sobre o valor de cada
propriedade. Bens com cotação de mercado, como gado e equipamentos,
foram considerados por preços abaixo da média. E se desprezaram
todos os boatos atribuindo ao vice mineiro imóveis no exterior,
contas em paraísos fiscais e registros feitos por supostos testas-de-ferro.
Nelio Rodrigues/Ag. 1º Plano
 |
A
FAZENDA VEREDÃO
A mais valiosa das 52 propriedades rurais de Newton Cardoso: gado
de corte, pista de pouso asfaltada e dezesseis poços artesianos.
É um oásis no miserável Vale do Jequitinhonha
|
Newtão
acompanhou e contribuiu com parte da apuração de seus bens.
Cedeu documentos, mandou assessores conferir escrituras, caçou
parceiros comerciais do passado. Até gravou e fez fotos durante
as entrevistas que deu a respeito, mandando depois uma carta para dizer
que as registrou na íntegra em cartório. Duas coisas o preocupam.
Uma é que se registre quanto ele afirma ter de dívidas.
Outra é demonstrar que a parte mais substanciosa de seu patrimônio
foi construída antes do começo da trajetória política.
A primeira é fácil de resolver: ele diz dever, pessoalmente
ou por meio de empresas, 50 milhões de reais o que dá
um terço de seu pé-de-meia. A segunda não dá
para atender. Os fatos apontam que pelo menos 145 milhões de reais
entraram nos cofres de Newtão depois que ele ingressou na vida
pública. Ou seja, da primeira eleição para prefeito
de Contagem até hoje enquanto ele exercia os cargos de assessor
do prefeito seguinte (quase um secretário de Obras), deputado federal,
prefeito de novo, governador, outra vez deputado federal, mais uma vez
prefeito e finalmente vice-governador de Itamar Franco , seus negócios
se ampliaram mais de trinta vezes. Em todo esse percurso, apenas por quatro
anos esteve afastado da política.
Fotos Charles
Duarte/Ag. 1º Plano
 |
A
SIDERPITA
Localizada no oeste mineiro, a siderúrgica tem capacidade de
produção de 270 000 toneladas de ferro-gusa por ano,
o que a coloca entre as cinco maiores empresas do ramo no país
|
Na última
declaração que apresentou ao Fisco, seus bens são
avaliados em 10,3 milhões de reais. É normal. Ele usa o
valor histórico, sem atualização monetária.
Mas existe outra razão para a diferença: dois itens da declaração,
os das holdings NC Participações e Consultoria e Rio Rancho
Agropecuária, levam a uma enxurrada de propriedades. Ao contrário
do que faz atualmente, criando holdings que encolhem suas posses, Newtão
fica gabola rememorando o passado. "Quando entrei na política,
eu já era um homem rico", ele sustenta, despejando histórias
de lojas e importações milionárias. Mas de novo a
papelada não ajuda. E tudo se complica um pouco mais quando se
recorre ao testemunho de seus sócios e amigos do passado ou quando
se conferem in loco as posses do vice-governador. Ao falar, por exemplo,
sobre uma fazenda que comprou em 1996 em Nova Viçosa, na Bahia,
ele garante que é coisa pequena, sem importância. Pela metragem
110 hectares , é mesmo. Mas quem vai até lá
vê que fica numa das áreas mais valorizadas do litoral baiano,
fazendo frente para 3 quilômetros do Oceano Atlântico, praia
de ponta a ponta, com fundos para uma rodovia asfaltada.
Nascido em
Brumado, no sertão baiano, Newtão é o oitavo filho
de uma família de catorze irmãos. O pai, alfaiate, e a mãe,
costureira, eram remediados. "Levavam a vida com algumas dificuldades",
conta a dona-de-casa Ana Torres, velha amiga da família que ainda
mora na cidade. O menino começou a trabalhar aos 13 anos. Conta
que revendia baterias e pneus usados. "No Carnaval eu ganhava alguns trocados
vendendo lança-perfume em bailes", acrescenta. "Enchia frascos
vazios de uma marca famosa com um produto menos nobre." Quando Newtão
se transferiu para Belo Horizonte, em meados dos anos 50, sua vida havia
mudado um pouco. Sua mãe, Adélia, a dona Dezinha, tinha
virado tabeliã e lavrava as escrituras públicas na comarca
de Brumado. Ela ajudou a mineradora mineira Magnesita, especializada em
refratários, a registrar jazidas na região. A Magnesita
retribuiu o favor dando emprego ao menino na cidade grande. No trabalho,
ele vendia relógio, caneta e radinho de pilha aos colegas. Promovido
da apontadoria à pagadoria, passou a descontar do salário
dos clientes o que eles deviam. Não tomava calote. "Quando chegávamos
para trabalhar, ele já estava na portaria com um mostruário
cheio de bugigangas", lembra o ex-colega Osvaldo Lopes Ferreira, aposentado.
Pensões,
repúblicas e casas modestas foram os primeiros endereços
do rapaz, que progredia nos negócios e nos estudos. Começou
o curso de direito, montou perto do emprego uma loja de nome pretensioso,
Orneca Organizações Newton Cardoso. Para os amigos,
virou o Newtão da Orneca, mas continuava dando expediente como
funcionário da Magnesita. Incansável, também serviu
no Exército e militou no movimento estudantil, ao mesmo tempo que
tocava a cantina da escola. Aos 26 anos de idade, já era um homem
de muitas posses, segundo diz hoje. "Eu tinha um bar, duas fábricas
de colchão, dois armazéns, uma camisaria, uma loja de eletrodomésticos
e uma distribuidora de relógios e cristais", enumera. "Comprei
um carro importado à vista e cheguei a passar dois meses na Europa
torrando dinheiro." Newtão vitamina seu desempenho empreendedor
a ponto de garantir que já lidava com milhões de dólares.
Os negócios de fato existiam. Seu ex-sócio numa lotérica
e numa loja de presentes, Hélio Lipiani, lembra, porém,
que a dimensão era outra. "De tão insignificante, isso nem
devia ser citado", diz Lipiani. O grande empreendimento de Newtão,
a loja de eletrodomésticos, tinha capital equivalente a 50.000
reais, segundo os registros da Junta Comercial. Ele também possuía
três lojas em Brumado. "Umas lojinhas que começou para ajudar
amigos e parentes", afirma o comerciante Sebastião Meira Santos,
amigo dos Cardoso. A zona urbana de Brumado nessa época tinha 10.000
habitantes. Em 1971, quando ele abriu na cidade uma loja de importados
que comprava na Rua 25 de Março, em São Paulo ,
a cidade ainda não tinha luz elétrica.
 |
A
FAZENDA RIO RANCHO
A primeira e a mais luxuosa da coleção. Tem lago, piscina
com cascatas artificiais, minizoológico e um galpão
cheio de carros antigos. É a jóia da coroa e o local
das festas de Newton Cardoso. Ele se refere à propriedade chamando-a
de "meu xodó" |
Hoje, Newtão
tem 52 fazendas, distribuídas entre 25 municípios em Minas
e na Bahia. São 145.000 hectares
quase 8.000 estádios do Maracanã
, que valem no mínimo 88 milhões de reais, conforme
estimativas de corretores, agrimensores, fazendeiros e donos de cartório.
Também foram levadas em conta avaliações de mercado
e judiciais contidas em documentos fornecidos pelo próprio Newton
Cardoso. Metade das fazendas está em nome da Companhia Siderúrgica
Pitangui, a Siderpita, que ele adquiriu há seis anos. É
essa empresa, que produz 190.000 toneladas
de ferro-gusa por ano, que Newtão gosta de tomar como exemplo da
súbita incompetência para negócios que o teria atingido
depois de entrar na vida pública. "Vão rir de mim, mas caí
no conto-do-vigário", diz. "Quando fui ver, o endividamento da
companhia que tinha comprado era enorme." O balanço da siderúrgica
referente ao ano de 2000 informa um patrimônio líquido negativo
de 4,5 milhões de reais. Ou seja: do ponto de vista contábil,
a Siderpita vale menos do que deve. Newtão teria razão?
"Trata-se de uma empresa tradicional e de primeira linha, que está
funcionando com apenas 70% de sua capacidade", responde o economista Jarbas
Loureiro, um dos fundadores da siderúrgica. Na média, ele
e mais três especialistas calculam que a companhia vale perto de
35 milhões de reais, sem as fazendas que a empresa possui.
|
|
 |