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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Em simulação, Roseana vence Lula no segundo turno
Acordo bom aumenta o salário mínimo
Acordo ruim envia dinheiro para obras irregulares
O novo time que tocará os negócios de Pelé
Projeto abre empresas ao capital externo

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Montagem sobre foto de André Fossati/Ag. 1º Plano

José Edward


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O crescimento da fortuna de Newton Cardoso

O vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, de 63 anos, tem tudo para voltar a reinar no Palácio da Liberdade no ano que vem. Primeiro, porque está em ótima posição nas pesquisas de intenção de voto no Estado que tem o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Em algumas delas, até 30% dos mineiros dizem que estão dispostos a levá-lo pela segunda vez ao governo. Newtão, como ele é chamado popularmente, já foi governador entre 1987 e 1990. A outra razão de seu favoritismo é a camaradagem que há entre ele e o atual governador, o ex-presidente Itamar Franco. Ex-adversários, daqueles que xingavam um ao outro com palavrões, eles fizeram as pazes há cinco anos, selando um plano político. Itamar virou governador, mas fica liberado para cuidar das politicagens e de sua batalha para construir uma "pátria onde não haja corrupção endêmica", como disse recentemente. Newtão se tornou vice, mas opera como efetivo tanto nas ausências de Itamar quanto naquelas áreas que precisam de mais vigilância porque lidam com muito dinheiro, como as de obras do governo e as que fazem grandes pagamentos. Os dois têm também um acordo pelo qual no próximo pleito o atual titular, Itamar Franco, abrirá mão da chance de tentar um segundo mandato, mesmo que não consiga ser candidato a presidente da República, como deseja.

A estrada política está pavimentada adiante de Newtão, que é também um homem muito rico. Tão rico que há até bate-boca entre cabos eleitorais e desafetos quanto ao tamanho da fortuna dele. Uns dizem, mineiramente, que é uma coisinha à-toa. Os outros, os adversários e os exagerados, falam até em 500 milhões de reais. Newtão é um desses fenômenos que merecem ser examinados de perto, porque começou do nada e conseguiu enriquecer ao mesmo tempo que se dedicava à política. Em 2002 fará trinta anos que ele se elegeu para o primeiro cargo público, na prefeitura de Contagem, então a segunda cidade mais rica de Minas. VEJA investigou por três meses o tamanho dessa fortuna. Depois foi perguntar ao próprio Newton Cardoso sobre a origem da dinheirama.

 
Fotos álbum de família
ília
ília
PERCURSO DO SUCESSO
Newton, no início da carreira, com o ex-presidente Juscelino Kubitschek; ainda menino em Brumado, com a mãe, Adélia; e como candidato a prefeito, em 1982, visitando Tancredo Neves

"Tenho uns 70 milhões de reais", ele calcula. "Menos as dívidas", avisa. Só esse número já o coloca entre os políticos de maior riqueza no Brasil. Jader Barbalho, que renunciou ao Senado em decorrência das investigações sobre seu enriquecimento, tem um patrimônio visível que não dá metade disso. Mas Newtão não gosta de se gabar do dinheiro que acumulou. Pelo contrário. Faz descontos enormes ao falar de suas posses, especialmente quando trata dos feitos financeiros posteriores a 1972, quando se elegeu pela primeira vez. Na descrição dele, até essa data não havia comerciante mais esperto em Minas. De lá para cá, ocupado com votos, eleitores e mandatos, ele narra uma sucessão de fracassos, dívidas e prejuízos em meio a raros episódios de sucesso financeiro.

Pelas declarações de rendimentos que entregou ao se candidatar a alguns cargos e das listas de bens de suas empresas, percebe-se quanto é modesto o vice de Minas Gerais e como anda ruim sua memória a respeito dos empreendimentos do passado. Aos 63 anos, Newtão acumula um patrimônio de pelo menos 150 milhões de reais – tomando-se como data-base a última vez que prestou contas à Receita Federal. Esse é o valor total atualizado por critérios conservadores de uma relação de bens que pode ser conferida em cartórios, juntas comerciais e declarações entregues à Receita. Há testemunhos atribuindo-lhe muito mais, como uma participação de 26 milhões de reais na mineradora Magnesita (veja quadro), mas esta reportagem levou em conta apenas as posses registradas em papéis fornecidos ou assinados pelo próprio Newton Cardoso. Pelo menos dois corretores opinaram sobre o valor de cada propriedade. Bens com cotação de mercado, como gado e equipamentos, foram considerados por preços abaixo da média. E se desprezaram todos os boatos atribuindo ao vice mineiro imóveis no exterior, contas em paraísos fiscais e registros feitos por supostos testas-de-ferro.

 
Nelio Rodrigues/Ag. 1º Plano
A FAZENDA VEREDÃO
A mais valiosa das 52 propriedades rurais de Newton Cardoso: gado de corte, pista de pouso asfaltada e dezesseis poços artesianos. É um oásis no miserável Vale do Jequitinhonha

Newtão acompanhou e contribuiu com parte da apuração de seus bens. Cedeu documentos, mandou assessores conferir escrituras, caçou parceiros comerciais do passado. Até gravou e fez fotos durante as entrevistas que deu a respeito, mandando depois uma carta para dizer que as registrou na íntegra em cartório. Duas coisas o preocupam. Uma é que se registre quanto ele afirma ter de dívidas. Outra é demonstrar que a parte mais substanciosa de seu patrimônio foi construída antes do começo da trajetória política. A primeira é fácil de resolver: ele diz dever, pessoalmente ou por meio de empresas, 50 milhões de reais – o que dá um terço de seu pé-de-meia. A segunda não dá para atender. Os fatos apontam que pelo menos 145 milhões de reais entraram nos cofres de Newtão depois que ele ingressou na vida pública. Ou seja, da primeira eleição para prefeito de Contagem até hoje – enquanto ele exercia os cargos de assessor do prefeito seguinte (quase um secretário de Obras), deputado federal, prefeito de novo, governador, outra vez deputado federal, mais uma vez prefeito e finalmente vice-governador de Itamar Franco –, seus negócios se ampliaram mais de trinta vezes. Em todo esse percurso, apenas por quatro anos esteve afastado da política.

 
Fotos Charles Duarte/Ag. 1º Plano
A SIDERPITA
Localizada no oeste mineiro, a siderúrgica tem capacidade de produção de 270 000 toneladas de ferro-gusa por ano, o que a coloca entre as cinco maiores empresas do ramo no país

Na última declaração que apresentou ao Fisco, seus bens são avaliados em 10,3 milhões de reais. É normal. Ele usa o valor histórico, sem atualização monetária. Mas existe outra razão para a diferença: dois itens da declaração, os das holdings NC Participações e Consultoria e Rio Rancho Agropecuária, levam a uma enxurrada de propriedades. Ao contrário do que faz atualmente, criando holdings que encolhem suas posses, Newtão fica gabola rememorando o passado. "Quando entrei na política, eu já era um homem rico", ele sustenta, despejando histórias de lojas e importações milionárias. Mas de novo a papelada não ajuda. E tudo se complica um pouco mais quando se recorre ao testemunho de seus sócios e amigos do passado ou quando se conferem in loco as posses do vice-governador. Ao falar, por exemplo, sobre uma fazenda que comprou em 1996 em Nova Viçosa, na Bahia, ele garante que é coisa pequena, sem importância. Pela metragem – 110 hectares –, é mesmo. Mas quem vai até lá vê que fica numa das áreas mais valorizadas do litoral baiano, fazendo frente para 3 quilômetros do Oceano Atlântico, praia de ponta a ponta, com fundos para uma rodovia asfaltada.

Nascido em Brumado, no sertão baiano, Newtão é o oitavo filho de uma família de catorze irmãos. O pai, alfaiate, e a mãe, costureira, eram remediados. "Levavam a vida com algumas dificuldades", conta a dona-de-casa Ana Torres, velha amiga da família que ainda mora na cidade. O menino começou a trabalhar aos 13 anos. Conta que revendia baterias e pneus usados. "No Carnaval eu ganhava alguns trocados vendendo lança-perfume em bailes", acrescenta. "Enchia frascos vazios de uma marca famosa com um produto menos nobre." Quando Newtão se transferiu para Belo Horizonte, em meados dos anos 50, sua vida havia mudado um pouco. Sua mãe, Adélia, a dona Dezinha, tinha virado tabeliã e lavrava as escrituras públicas na comarca de Brumado. Ela ajudou a mineradora mineira Magnesita, especializada em refratários, a registrar jazidas na região. A Magnesita retribuiu o favor dando emprego ao menino na cidade grande. No trabalho, ele vendia relógio, caneta e radinho de pilha aos colegas. Promovido da apontadoria à pagadoria, passou a descontar do salário dos clientes o que eles deviam. Não tomava calote. "Quando chegávamos para trabalhar, ele já estava na portaria com um mostruário cheio de bugigangas", lembra o ex-colega Osvaldo Lopes Ferreira, aposentado.

Pensões, repúblicas e casas modestas foram os primeiros endereços do rapaz, que progredia nos negócios e nos estudos. Começou o curso de direito, montou perto do emprego uma loja de nome pretensioso, Orneca – Organizações Newton Cardoso. Para os amigos, virou o Newtão da Orneca, mas continuava dando expediente como funcionário da Magnesita. Incansável, também serviu no Exército e militou no movimento estudantil, ao mesmo tempo que tocava a cantina da escola. Aos 26 anos de idade, já era um homem de muitas posses, segundo diz hoje. "Eu tinha um bar, duas fábricas de colchão, dois armazéns, uma camisaria, uma loja de eletrodomésticos e uma distribuidora de relógios e cristais", enumera. "Comprei um carro importado à vista e cheguei a passar dois meses na Europa torrando dinheiro." Newtão vitamina seu desempenho empreendedor a ponto de garantir que já lidava com milhões de dólares. Os negócios de fato existiam. Seu ex-sócio numa lotérica e numa loja de presentes, Hélio Lipiani, lembra, porém, que a dimensão era outra. "De tão insignificante, isso nem devia ser citado", diz Lipiani. O grande empreendimento de Newtão, a loja de eletrodomésticos, tinha capital equivalente a 50.000 reais, segundo os registros da Junta Comercial. Ele também possuía três lojas em Brumado. "Umas lojinhas que começou para ajudar amigos e parentes", afirma o comerciante Sebastião Meira Santos, amigo dos Cardoso. A zona urbana de Brumado nessa época tinha 10.000 habitantes. Em 1971, quando ele abriu na cidade uma loja de importados – que comprava na Rua 25 de Março, em São Paulo –, a cidade ainda não tinha luz elétrica.

 
A FAZENDA RIO RANCHO
A primeira e a mais luxuosa da coleção. Tem lago, piscina com cascatas artificiais, minizoológico e um galpão cheio de carros antigos. É a jóia da coroa e o local das festas de Newton Cardoso. Ele se refere à propriedade chamando-a de "meu xodó"

Hoje, Newtão tem 52 fazendas, distribuídas entre 25 municípios em Minas e na Bahia. São 145.000 hectares – quase 8.000 estádios do Maracanã –, que valem no mínimo 88 milhões de reais, conforme estimativas de corretores, agrimensores, fazendeiros e donos de cartório. Também foram levadas em conta avaliações de mercado e judiciais contidas em documentos fornecidos pelo próprio Newton Cardoso. Metade das fazendas está em nome da Companhia Siderúrgica Pitangui, a Siderpita, que ele adquiriu há seis anos. É essa empresa, que produz 190.000 toneladas de ferro-gusa por ano, que Newtão gosta de tomar como exemplo da súbita incompetência para negócios que o teria atingido depois de entrar na vida pública. "Vão rir de mim, mas caí no conto-do-vigário", diz. "Quando fui ver, o endividamento da companhia que tinha comprado era enorme." O balanço da siderúrgica referente ao ano de 2000 informa um patrimônio líquido negativo de 4,5 milhões de reais. Ou seja: do ponto de vista contábil, a Siderpita vale menos do que deve. Newtão teria razão? "Trata-se de uma empresa tradicional e de primeira linha, que está funcionando com apenas 70% de sua capacidade", responde o economista Jarbas Loureiro, um dos fundadores da siderúrgica. Na média, ele e mais três especialistas calculam que a companhia vale perto de 35 milhões de reais, sem as fazendas que a empresa possui.

 


 
 
   
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