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Garoto de Ipanema
"De
tanto conviver com os coliformes
nas águas do Rio,
Garotinho nem sabia
o que era H2O no Show do Milhão"
Uma espuma
marrom e malcheirosa cobria o mar de Ipanema. Perguntei ao dono da barraca
em que costumo alugar cadeirinha e guarda-sol se aquilo poderia comprometer
a saúde de meu filho de 1 ano. Ele foi categórico: a espuma
marrom e malcheirosa era perfeitamente inócua. Naquele dia, segundo
seus cálculos, havia no máximo 700.000
coliformes fecais por litro de água. Reconfortados, meu filho e
eu mergulhamos felizes da vida, borrifando esgoto com a boca. Mais tarde,
ao passear pela Lagoa Rodrigo de Freitas, fui abordado por um sujeito
que me explicou todas as normas de profilaxia contra a dengue. Ele estava
muito bem informado sobre o assunto. Fiquei extremamente agradecido.
É
estranho que, dotados de tantos conhecimentos científicos em matéria
de coliformes fecais e doenças tropicais, os cariocas não
tenham conseguido melhorar o desempenho dos alunos brasileiros na prova
de ciências realizada pela Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico. De fato, nossos estudantes chegaram
em último lugar numa lista de 32 países, atrás dos
do México e da Letônia. Não apenas na prova de ciências,
como também nas de matemática e leitura. Funcionários
do governo declararam esperar um resultado ainda pior. Não sei
o que é pior do que último. Imagino que seja último
e com dengue.
Há
poucos dias, chegou outra má notícia do exterior. O Congresso
dos Estados Unidos atrelou a Área de Livre Comércio das
Américas a uma série de barreiras protecionistas que prejudicam
as mercadorias brasileiras. O presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu
com vigor, em defesa dos interesses nacionais. Um ponto em particular
deixou indignadas nossas autoridades: os americanos pretendem impedir
trocas comerciais com países que produzem desrespeitando o ambiente
e as leis trabalhistas. Como assim? Queremos queimar as florestas e usar
trabalho escravo e infantil à vontade, sem que o imperialismo ianque
atrapalhe nossos negócios.
Não
sei se tem algo a ver com o trabalho infantil, mas a lista de classificados
do Rio de Janeiro do ano 2000 parece uma cartilha escolar. Estou provisoriamente
hospedado num apartamento em obras. Volta e meia preciso ligar para um
pintor de paredes ou um eletricista. Vou às listas de classificados
e, no lugar dos anúncios, encontro frases como "Dom Pedro II se
tornou Imperador do Brasil aos 16 anos" ou "Pelomancia é a adivinhação
pela observação da lama". Abaixo do anúncio das Ferragens
Lindório, descobri que "a primeira mulher da história a
usar meias de seda tricotadas foi Elizabeth I". Na página da J.
Costa Desentupidora ("Entupiu? É só ligar!), fui lembrado
de que "os bandeirantes foram exploradores da mata brasileira, em busca
de ouro, pedras preciosas e mão-de-obra indígena para ser
vendida". Consultando o número da Cerâmica Lajotão,
aprendi que "em 1640, o Brasil ganha seu primeiro vice-rei, dom Jorge
de Mascarenhas".
Nossas escolas
talvez sejam as piores do mundo, mas há margem para otimismo: coliformes
fecais, dengue e listas de classificados garantem que não seremos
eternamente os últimos. Também há margem para pessimismo:
de tanto conviver com os coliformes fecais nas águas do Rio de
Janeiro, o governador Anthony Garotinho nem sabia responder o significado
de H2O no Show do Milhão.
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