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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Garoto de Ipanema

"De tanto conviver com os coliformes
nas águas do
Rio, Garotinho nem sabia
o que era H2O no
Show do Milhão"

Uma espuma marrom e malcheirosa cobria o mar de Ipanema. Perguntei ao dono da barraca em que costumo alugar cadeirinha e guarda-sol se aquilo poderia comprometer a saúde de meu filho de 1 ano. Ele foi categórico: a espuma marrom e malcheirosa era perfeitamente inócua. Naquele dia, segundo seus cálculos, havia no máximo 700.000 coliformes fecais por litro de água. Reconfortados, meu filho e eu mergulhamos felizes da vida, borrifando esgoto com a boca. Mais tarde, ao passear pela Lagoa Rodrigo de Freitas, fui abordado por um sujeito que me explicou todas as normas de profilaxia contra a dengue. Ele estava muito bem informado sobre o assunto. Fiquei extremamente agradecido.

É estranho que, dotados de tantos conhecimentos científicos em matéria de coliformes fecais e doenças tropicais, os cariocas não tenham conseguido melhorar o desempenho dos alunos brasileiros na prova de ciências realizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. De fato, nossos estudantes chegaram em último lugar numa lista de 32 países, atrás dos do México e da Letônia. Não apenas na prova de ciências, como também nas de matemática e leitura. Funcionários do governo declararam esperar um resultado ainda pior. Não sei o que é pior do que último. Imagino que seja último e com dengue.

Há poucos dias, chegou outra má notícia do exterior. O Congresso dos Estados Unidos atrelou a Área de Livre Comércio das Américas a uma série de barreiras protecionistas que prejudicam as mercadorias brasileiras. O presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu com vigor, em defesa dos interesses nacionais. Um ponto em particular deixou indignadas nossas autoridades: os americanos pretendem impedir trocas comerciais com países que produzem desrespeitando o ambiente e as leis trabalhistas. Como assim? Queremos queimar as florestas e usar trabalho escravo e infantil à vontade, sem que o imperialismo ianque atrapalhe nossos negócios.

Não sei se tem algo a ver com o trabalho infantil, mas a lista de classificados do Rio de Janeiro do ano 2000 parece uma cartilha escolar. Estou provisoriamente hospedado num apartamento em obras. Volta e meia preciso ligar para um pintor de paredes ou um eletricista. Vou às listas de classificados e, no lugar dos anúncios, encontro frases como "Dom Pedro II se tornou Imperador do Brasil aos 16 anos" ou "Pelomancia é a adivinhação pela observação da lama". Abaixo do anúncio das Ferragens Lindório, descobri que "a primeira mulher da história a usar meias de seda tricotadas foi Elizabeth I". Na página da J. Costa Desentupidora ("Entupiu? É só ligar!), fui lembrado de que "os bandeirantes foram exploradores da mata brasileira, em busca de ouro, pedras preciosas e mão-de-obra indígena para ser vendida". Consultando o número da Cerâmica Lajotão, aprendi que "em 1640, o Brasil ganha seu primeiro vice-rei, dom Jorge de Mascarenhas".

Nossas escolas talvez sejam as piores do mundo, mas há margem para otimismo: coliformes fecais, dengue e listas de classificados garantem que não seremos eternamente os últimos. Também há margem para pessimismo: de tanto conviver com os coliformes fecais nas águas do Rio de Janeiro, o governador Anthony Garotinho nem sabia responder o significado de H2O no Show do Milhão.

 
 
   
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