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Doutores na berlinda
O depoimento
de um médico que perdeu seu
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"O
isolamento é terrível. Todo mundo precisa de uma mão numa hora dessas,
mas o médico é cada vez mais incapaz de dar essa mão"
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Oscar Cabral![]() |
O médico carioca Alex Botsaris tem 45 anos, vinte de profissão, e passou por uma das experiências mais dolorosas que um homem pode enfrentar na vida. Em 1994, seu segundo filho, Milton, nasceu prematuro e morreu com 10 dias. Botsaris viu-se, subitamente, na condição de paciente: perdido, sem atenção, sem informação. Nenhum dos responsáveis pela UTI, de um dos melhores hospitais do Rio de Janeiro, lhe deu alguma explicação sobre a morte do bebê. A partir desse momento, ele iniciou uma profunda reflexão sobre a medicina que está sendo oferecida hoje. No decorrer de seis anos, fez dezenas de entrevistas, ouviu experiências de colegas, estudou modelos de saúde adotados em outros países. O resultado é Sem Anestesia, o Desabafo de um Médico, recém-lançado pela Editora Objetiva. No livro, Botsaris, que é clínico-geral formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e acupunturista, relata seu drama e discute os caminhos para devolver à medicina sua dimensão humana. Na semana passada, ele recebeu VEJA para a seguinte entrevista.
Veja
Quando soube que seu filho iria para a UTI neonatal, imaginou que ele
pudesse morrer?
Botsaris
É uma situação que deixa qualquer um apreensivo.
Mas logo depois do parto me tranqüilizei, porque o Milton estava
muito bem. Não tinha nenhum dos problemas comuns aos recém-nascidos
prematuros, como angústia respiratória. O que me incomodou
logo foi a postura distante e impositiva da equipe da UTI.
Veja
Pelo fato de ser médico, o senhor esperava um tratamento
diferente por parte de seus colegas?
Botsaris
Claro.
Até porque, teoricamente, a comunicação é
mais fácil entre médicos, pois nós entendemos a linguagem
técnica, já podemos ter passado por situação
semelhante. Mas senti uma resistência muito grande a minha presença,
a minhas perguntas.
Veja
Quando o senhor se sentiu definitivamente do outro lado do estetoscópio?
Botsaris
No momento em que soube da morte de meu filho. Ele estava bem, já
tinha 10 dias, vinha ganhando peso, eu estava cada vez mais tranqüilo.
Naquele dia, cheguei para visitar meu menino e topei com uma algazarra
na UTI. Depois de muito entra-e-sai e de uma agonia que parecia não
ter fim, informaram-me que ele havia morrido. Foi um choque. Nem os médicos
acreditavam que o coração dele tinha parado, achavam que
era um coma. Disseram que podia ter sido uma infecção. Eu
discordei, porque estava acompanhando tudo, como pai e como médico,
e sabia que não se tratava disso. Decidi mandar para a necropsia.
O resultado veio informando que a causa da morte tinha sido infarto agudo
do miocárdio, o que era totalmente surpreendente. Eu havia dito
aos médicos que queria conversar sobre o laudo. Mas quando tentei
contato só tive silêncio como resposta. Liguei várias
vezes, ninguém veio atender e acabei percebendo que não
queriam falar comigo. Também não queria voltar àquele
lugar. Seria como reviver todo aquele sofrimento.
Veja
Qual o sentimento que predominou quando o senhor soube da morte
de seu filho? A tristeza pela perda ou a revolta contra os médicos
que haviam cuidado dele?
Botsaris
Foi
uma história superdolorosa, eu nem consigo explicar. Como médico,
senti-me também responsável pelo que aconteceu. Fiquei totalmente
desorientado, não sabia o que fazer, tive muita raiva, queria processar,
foi um tumulto emocional enorme. Só quem passou por uma situação
dessas sabe a confusão de sentimentos que acontece. Numa hora você
tem raiva, na outra fica triste, na outra bate o desespero, a dor. Bate
muita culpa também.
Veja
Qual o pior sofrimento de quem está no papel de paciente?
Botsaris É
a sensação de isolamento. Quando qualquer pessoa fica doente
e não precisa ser uma doença séria, basta
que você se sinta ameaçado de alguma forma , ocorre
uma espécie de regressão. Começam a funcionar mecanismos
que são um pouco infantis. Isso acontece porque você fica
diante do desconhecido. É sempre uma situação dramática,
principalmente quando o doente é uma criança. A sensação
de abandono é terrível. Todo mundo precisa de uma mão
num momento desses, mas o médico é cada vez mais incapaz
de dar essa mão.
Veja
Por que isso acontece?
Botsaris
São três questões básicas. A primeira é
o despreparo. O médico é cada vez mais preparado para exercer
funções técnicas. E a medicina tem uma questão
humana envolvida. Só que isso não faz parte da formação
do médico. Então, se o profissional tem intuitivamente um
jeito humano de tratar seus pacientes, ótimo. Se não tem,
não desenvolve. A segunda questão é a hiperespecialização.
Cada vez mais o médico tem sob sua responsabilidade um pedaço
menor do paciente. E não consegue ver o indivíduo como um
todo. Está errado. As especialidades têm de existir, óbvio,
mas todo especialista tem de ter treinamento em clínica, tem de
ser capaz de gerenciar o paciente. O melhor cardiologista do mundo precisa
saber tratar de dor de barriga. A terceira questão é a estrutura
de remuneração. O médico é também vítima
de todo esse processo. É mal formado e mal remunerado. E a função
em que ele é mais mal remunerado é justamente a clínica,
que é a mais importante. É ali que você está
escutando, conhecendo o indivíduo, formando a base de todas as
decisões que serão tomadas sobre a saúde daquela
pessoa.
Veja
Na estrutura atual do sistema de saúde, com toda a precariedade
que se conhece, algum médico consegue ter tempo?
Botsaris
Sim.
E o mais incrível é que isso acontece mais no sistema público
de saúde, que de certa forma está à frente do privado.
Os programas de médicos de família, por exemplo, mostram
que não é preciso necessariamente uma grande parafernália
tecnológica para dar um bom atendimento. Naquelas filas enormes
dos hospitais públicos, muita gente necessita só de atenção.
Às vezes, dez minutos de conversa dão uma segurança
que tem efeito de muitos medicamentos. Isso não é só
aqui no Brasil, não. É uma constatação mundial.
Quase 95% dos problemas são fáceis de resolver. São
questões simples que, resolvidas, permitem que os 5% realmente
graves e complexos sejam atendidos em melhores condições.
Veja
E, no sistema privado, por que boa parte dos médicos
dedica tão pouco tempo a seus pacientes?
Botsaris
O
principal problema é a lógica de funcionamento dos planos
de saúde, que é copiada do modelo americano e permite que
o gestor do dinheiro seja o prestador do serviço. É a mesma
coisa que uma seguradora de carros ser a dona da rede de oficinas. Na
hora que precisar cortar custos, vai comprar peça ruim em vez de
peça boa. É o que acontece com os planos de saúde.
A estratégia é gastar o menos possível. De um lado,
remunerando mal os médicos, sem se preocupar com a qualidade. A
maior parte dos planos paga entre 30 e 40 reais a consulta, o que não
cobre nem o custo básico de consultório. Por isso o tempo
de atendimento é cada vez mais curto. Pela mesma lógica,
médicos são descredenciados porque pedem muitos exames.
Também há pacientes que não são integralmente
atendidos porque precisam de muitos serviços. É um tipo
de gestão que foge totalmente aos padrões éticos
da medicina.
Veja
Não existe também, contribuindo para todos esses
problemas, uma grande arrogância dos médicos?
Botsaris
Muitos
médicos se arvoram em semideuses. Agem como se tivessem o poder
de decidir quem vai viver e quem vai morrer e por isso se isolam, não
querem contato, fogem da dimensão humana da medicina. Isso começa
lá com Esculápio, considerado o deus da medicina. Ele era
filho de Apolo e tinha o dom da cura. Em muitas civilizações
o poder de curar é tido como dom divino. Isso ainda prevalece no
comportamento de muitos médicos, com reflexos em coisas aparentemente
banais. Receitar remédios ou prescrever exames em garranchos incompreensíveis
é uma maneira de não dividir a informação
com o pobre paciente ignorante.
Veja
Em sua opinião, algum modelo de saúde funciona
realmente bem?
Botsaris
A Inglaterra é um dos países onde a saúde funciona
melhor. O sistema é securitizado pelo governo, é regionalizado
e funciona em rede de complexidade crescente. O cidadão escolhe
um médico clínico de sua região e ele é o
gestor de sua saúde. É um generalista que resolve a maior
parte dos problemas, tem tempo de acompanhar o paciente e o encaminha
a centros de referência em especialidades sempre que isso for necessário.
Com isso, o atendimento ganha outra qualidade, porque se cria uma estrutura
que impede que o paciente se sinta perdido e isolado.
Veja
Esse modelo funciona de modo diametralmente oposto ao que está
montado hoje no Brasil. É possível e desejável caminhar
nessa outra direção?
Botsaris
O modelo hoje no Brasil, inspirado no dos Estados Unidos, privilegia o
capital. Eu não sou ingênuo, não vou dizer que o capital
não tenha função na medicina. É claro que
tem, tanto na pesquisa quanto no desenvolvimento tecnológico, e
ainda na montagem de redes de serviço mais sofisticadas. Mas é
preciso que existam agências de controle eficientes, que consigam
estabelecer limites. Os interesses do mercado não podem ficar acima
do indivíduo e da vida humana. O cara não pode produzir
por 5, vender por 50 e usar o troco no que bem entender. Quando você
pergunta a um laboratório quanto custa lançar um remédio,
a resposta é 250 milhões de dólares. Mas não
se diz que, desse total, 50 milhões são para desenvolver
o medicamento e o resto é para marketing. É verba corporativa,
patrocínio, amostra grátis, publicidade, verba para financiar
congressos, viagens para médicos...
Veja
O senhor mudou sua conduta como médico depois da morte
de seu filho?
Botsaris
Sim. Eu percebi que, embora fizesse críticas, estava me tornando
um médico burocrático, que tomava sempre o caminho mais
fácil. O sistema é muito forte, você vai sendo massacrado.
Fiquei muito mais atento à dor e ao sofrimento alheio. E acho que,
também, menos arrogante.
Veja
Já cometeu algum erro médico grave?
Botsaris
Todo
médico pode errar. E erra. O que não pode haver é
negligência, é dar o tratamento errado, ou não tratar,
por desleixo e desatenção. Isso eu nunca fiz. Mas é
sempre uma situação horrível. A mais grave pela qual
passei foi quando me formei, num CTI. Foi um erro coletivo, mas me senti
responsável. Entrou uma mulher de 20 e poucos anos com uma pneumonia
dupla grave e de repente começou a desenvolver arritmia cardíaca.
Usamos uma droga considerada segura. E ela teve parada cardíaca
na nossa cara. Ficamos mais de uma hora tentando reanimá-la. A
família não quis necropsia, mas é claro que ela morreu
por causa da droga. Se não fosse medicada, teria morrido também.
Mas não dá para prever. Eu fiquei mal. Passei dois meses
superdeprimido e até hoje é uma coisa muito difícil.
Veja
Como reduzir a incidência de erros médicos?
Botsaris
O que aconteceu nesse meu caso é uma questão típica
de iatrogenia (mal provocado pela ação do médico
ou pelo tratamento prescrito por ele). É uma das questões
mais graves e antigas. Hipócrates, o pai da medicina, já
dizia que a primeira preocupação do médico devia
ser não fazer mal ao doente. Mas esse assunto merece pouca atenção.
Todos os casos como esse, em todos os hospitais, teriam de ser investigados.
Qualquer reação grave a qualquer droga deveria ser reportada.
Mas o médico sozinho não vai fazer isso. Caberia às
agências reguladoras normatizar os procedimentos e criar comissões
de iatrogenia, como existem as comissões para controle de infecção
hospitalar. O objetivo não é punir, mas entender o que aconteceu.
O problema é que o médico vê a falha como crime, e
é claro que a tendência é ocultá-la.
Veja
E como o paciente pode se defender?
Botsaris
A melhor proteção para o paciente é uma boa relação
com seu médico. É importante que seja um médico generalista,
que funcione como gestor da saúde. Isso evita riscos desnecessários.
Hoje o doente fica tão perdido que tem gente que vai a três
médicos e toma os remédios que os três receitaram.
Nenhum dos três sabe disso. Isso pode provocar problemas muito graves.
A relação pessoal entre médico e paciente também
permite decisões compartilhadas. Todos estamos sujeitos a enfrentar
decisões difíceis relativas à saúde, porque
as situações de risco existem. O paciente tem de saber que
ele está passando por esse risco e ter todo o apoio do médico
para enfrentá-lo. É uma parceria para vencer a doença,
um obstáculo que às vezes parece intransponível.
Veja
Às vezes é intransponível mesmo. No caso
de pacientes que sofrem de doenças incuráveis, por exemplo,
qual deve ser a atitude do médico?
Botsaris
São vários aspectos. O primeiro é quando e como comunicar
a existência de uma doença que ameaça a vida do paciente.
Existe o direito de saber, mas existe também a capacidade de saber.
O médico tem de ser capaz de avaliar esses dois lados. Há
pacientes que não querem ouvir o diagnóstico, e isso tem
de ser respeitado. Em qualquer circunstância, no entanto, o médico
tem obrigação de permanecer ao lado do paciente, e não
pode fazer prognósticos como quem dá uma sentença
de morte. Hipócrates já dizia: a passagem da vida para a
morte não pode ser tão ameaçadora, porque todos nós
vamos morrer um dia. O papel do médico não é só
curar, até porque nem sempre isso é possível. É
também ajudar o doente a fazer essa passagem, tanto no apoio emocional
quanto no alívio do sofrimento físico. No caso da dor, por
exemplo, existe uma tendência de ser econômico na medicação.
Ora, Deus do céu. Se o cara vai morrer, faz sentido se preocupar
se ele vai ficar dependente de remédios?
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