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Prazer poético
Sai
coletânea de Seamus Heaney, prêmio Nobel de 1995
Em meados do século XIX, o escritor
francês Gustave Flaubert anotou a seguinte definição
no Dicionário de Idéias Feitas, seu famoso
dossiê sobre a estupidez humana: "Poesia É
completamente inútil. Fora de moda". A intenção
era cômica, mas, 100 anos depois, é aflitivo perceber
que essa "asneira" se tornou pura verdade.
Pergunte a um editor: poesia é sinônimo de prejuízo.
E, se o autor for irlandês e tiver um nome
impronunciável como Seamus Heaney, pior ainda. Heaney,
porém, é um dos grandes da poesia em inglês. O mínimo
que se pode fazer é noticiar o lançamento de Poemas
(tradução de José Antonio Arantes; Companhia das
Letras; 337 páginas; 28 reais), sua primeira coletânea
no Brasil.
Em 1995, Heaney
recebeu o Nobel, prêmio conhecido por recompensar menos
o talento que a projeção política de um autor. Ele é,
de fato, personalidade importante na Irlanda do Norte
mergulhada em conflitos. Mas nunca sacrificou a musa ao
falar de política. Heaney foge das formas gastas, como
mostra sua série de textos a respeito de múmias
sim, é isso mesmo , em que ele reflete sobre
violência e responsabilidade social. O autor já foi
chamado de "antimodernista", quando o correto
seria dizer apenas que ele não é "difícil".
Recentemente, tornou-se mais abstrato, mas continua sendo
um escritor de aguda observação da natureza, de ações
como cavar e colher, que ele "poetiza" de
maneira inusitada. Cheios de riqueza sensual e emotiva,
seus versos têm algo que o americano Wallace Stevens
considerava fundamental na poesia: dão prazer.
Carlos
Graieb

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