Literatura enlatada

Crítico erra feio ao tentar dar uma visão
pragmática de obras de grandes autores

Diogo Mainardi

David Denby:
volta às aulas

Em 1991, o crítico de cinema da revista New York, David Denby, decidiu voltar à universidade. Estava passando por uma crise de meia-idade, cansado de seu trabalho na imprensa, cheio de "nomes, lugares, boatos, feitos, corridas de carros, tiros, casais se acusando de infidelidade". Em vez de dar-se à bebida ou à meditação transcendental, como qualquer pessoa sensata, ele preferiu retornar às salas de aula da Universidade Columbia, em Nova York, onde se formara quase trinta anos antes. Seu objetivo era reler os grandes clássicos da civilização ocidental: Homero, Platão, Virgílio, Agostinho, Dante, Montaigne, Shakespeare, Marx etc. A seguir, publicou os resultados de sua experiência num longo volume intitulado Grandes Livros (tradução de Beatriz Horta; editora Record; 588 páginas; 47 reais).

Primeira pergunta: alguém pode afirmar com certeza quais são esses grandes clássicos? Claro que sim. Além dos autores citados acima, o currículo da Universidade Columbia jamais se atreveria a excluir, por exemplo, o teatro grego, ou a Bíblia, ou Boccaccio, ou Cervantes, Hobbes, Locke, Rousseau, Goethe, Hume, Kant, Hegel, Nietzsche. O fato é que a inteligência humana é tristemente limitada. Quase três milênios de literatura geraram uns cinqüenta títulos que realmente contam. O peso de cada um varia de leitor para leitor e de época para época, mas os livros que restam são sempre os mesmos, ciclicamente redescobertos por novas gerações de leitores. Nietzsche, acusado de ser o ideólogo do nazismo, foi reabilitado nos anos 80 pelos intelectuais de esquerda. Marx, desprestigiado com a queda do comunismo, deu a volta por cima e virou referência obrigatória dos capitalistas iluminados.

Segunda pergunta: é justo se concentrar apenas na literatura ocidental? A esse propósito, alguns dos alunos que seguiam o curso com Denby contestavam as escolhas da universidade. Uma jovem negra, indignada, recusava a noção de que "Mozart é melhor do que um tocador de tambor na África", acrescentando que ignorar autores de outras raças e culturas tinha o efeito de criar um sentimento de inferioridade nos alunos pertencentes a minorias. À primeira vista, a questão pode parecer grotesca, mas o ambiente universitário americano leva-a muito a sério. A poeta grega Safo, justamente por ser mulher, foi inserida à força no currículo da Columbia, roubando o lugar de escritores bem mais importantes, como Dostoievski e o "sexista" (sic) Rabelais. O problema, claro, não nos diz respeito, uma vez que o maior escritor brasileiro é negro, assim como o segundo, assim como o terceiro.

Terceira pergunta: qualquer pessoa pode ler os clássicos? Sem sombra de dúvida. A prova disso é o próprio Denby. Não muito culto, não muito brilhante, ele enfrenta todos os autores sem nenhum embaraço, tentando tirar ensinamentos de todos eles. Aristóteles serve para explicar que o "Nissan Maxima ou o Dodge Neon são superiores à maioria dos carros de sua categoria". A Bíblia ensina-o a detestar "o espetáculo e a representação" do filme Os Dez Mandamentos, de Cecil B. de Mille. Hobbes ajuda-o a compreender um assalto que sofreu à saída do metrô, afirmando que os homens sentem "um perpétuo e irrequieto desejo de poder". Shakespeare obriga-o a refletir sobre a morte de sua mãe, "o Lear da minha vida". Professores e alunos citados por Denby não se saem muito melhor do que ele, disparando tolices sobre quem quer que seja. De fato, em 588 páginas de livro, as únicas opiniões respeitáveis são citações colhidas de outros autores: Hegel sobre a tragédia grega, Isaiah Berlin sobre Maquiavel, Lionel Trilling sobre Jane Austen. Ou seja, qualquer pessoa pode ler os clássicos, mas, para tirar algo deles, é melhor confiar em gente mais preparada.

De galho em galho — Quarta pergunta: qual é o critério para avaliar o que é bom ou ruim? Nesse ponto, Denby é particularmente irritante. Ele acha que bom é o que lhe dá prazer. Virgílio? Um grande poeta, sim, mas Enéias, em sua opinião, deveria ter ficado na Líbia, com Dido, em vez de perder tempo fundando Roma. Esse herói sem coração não lhe provoca muito prazer. Cervantes? Um dos maiores mitos da cultura ocidental, é óbvio, mas seu Dom Quixote deixa o leitor "insatisfeito, até um pouco entediado". O Fausto, de Goethe? "Ai, o peso dos grandes livros! A chatice dos clássicos! Turbulento, repetitivo, denso, arrogante, desagradável..." Poucas páginas adiante, felizmente, Denby se contradiz. Ao notar que a história do pensamento ocidental só evoluiu graças à contraposição dos grandes mestres em relação àqueles que os precederam, ele conclui que não adianta ler somente alguns dos clássicos, mas todos. Cada autor tenta demolir o cânone que lhe é mais próximo. Assim as idéias vão se acumulando, camada por camada, em que uma cobre a outra. Para se ter idéia de um, é necessário conhecer todos. Tendo prazer ou não.

Quinta pergunta: os clássicos mudam nossa maneira de enxergar o mundo? A julgar pelo livro de Denby, não. À medida que ele lê os vários autores, entusiasma-se por suas teorias, pulando alegremente de galho em galho, dos dilemas morais de Sófocles à libertinagem de Boccaccio, das contradições de Montaigne à filosofia anticonformista de John Stuart Mill. No final das contas, porém, Denby permanece sempre com suas idéias incolores, prosaicas. O mesmo ocorre aos outros alunos do curso. Apesar de Nietzsche, o fundamentalista cristão nunca põe em discussão a sua fé. A judia ortodoxa vira cada vez mais ortodoxa. A feminista radical só se interessa por Aristóteles para conhecer o inimigo. Por mais que Denby se esforce para provar o contrário, a verdade é que livros não servem para nada. Não têm uma função prática imediata. Denby usa Platão para analisar os jogos eletrônicos de seus filhos e, por meio dos jogos eletrônicos, falar sobre o poder da mídia no mundo contemporâneo, seu assunto preferido. Mas Platão não é para isso. Ele não ajuda a decifrar o cotidiano. Platão, e todos os outros clássicos, formam um universo em si. Um universo alto, distante, que não convém rebaixar. Leia os clássicos, mas com prudência.

Cultura de supermercado

O americano David Denby critica alguns clássicos e transforma outros em produtos de fácil digestão

Aristóteles, o filósofo
grego: "Ele ajuda a
explicar por que o Nissan
Maxima e o Dodge Neon
são superiores à maioria
dos carros de sua categoria"


O alemão Goethe,
autor de
Fausto:
"Turbulento, denso,
arrogante, desagradável..."


Miguel de Cervantes:
"O Dom Quixote
deixa o leitor entediado"


Shakespeare: "Suas
tragédias, como o
Rei
Lear,
são boas para
refletir sobre os
relacionamentos familiares"




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