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| Ilustração
Moema Cavalcanti, sobre foto de Antonio Milena |
Para gostar desse programa H, o sujeito tem de gostar de sofrer. Ao pé da letra. É preciso deliciar-se na tortura e nos castigos, é preciso entregar-se com prazer às punições impostas pela nova estrela do programa, uma senhorita mascarada, a "Tiazinha do H". É preciso, enfim, assumir na carne as predileções do escritor Sacher-Masoch (1836-1895), o maior divulgador dessa modalidade de erotismo que, com toda a justiça, acabou conhecida como masoquismo.
Masoch subia aos céus quando tratado como escravo. Sobretudo quando flagelado. "No que diz respeito ao chicote, faço questão de um chicote de verdade, como os que se usam para os cães", escreveu ele a uma de suas amadas. "Entre um escravo e um cão não existe grande diferença." Claro que toda forma de amor tem o seu direito à cidadania. O que se discute, aqui, no entanto, não é amor, nem sexualidade, nem ética. É apenas estética. Onde Masoch era um esteta, a Tiazinha do H é pura miséria. Às vezes, usa véus baratos sobre o corpo, numa reencarnação descartável, infame, da Vênus das Peles. Quase sempre vem brandindo um chicote. No palco, voluntários realizam-se ao ser punidos por ela. A audiência vibra, o ibope sobe. Entre um telespectador e um cão, vai ver, também não existe grande diferença. Desta vez, contudo, o cão nem dono tem.
A máscara negra da nova musa dos telemasoquistas não lhe esconde a identidade. Ao contrário, é justamente o que a identifica. Ela é quem é, tão especial, exatamente por ser uma qualquer. Não sendo ninguém, ela é sempre outra e pode ser todas aquelas que moram na imaginação de seus escravos. É a dona sob medida de seus cães carentes, abandonados. O seu apelido, Tiazinha, não poderia ser mais apropriado. Entre adolescentes, a palavra "tia" pode designar uma professora, a mãe de uma amiga, ou até mesmo uma tia de verdade. Com um nome assim tão familiar, ela ganha mais autoridade em matéria de costumes e, com mais autoridade, fica ainda mais pervertida. Como a própria TV, que é familiar e abusada a um só tempo.
Aliás, é possível que o sucesso dessa nova estrela sintetize a relação que o público médio mantém com esses programas mais apelativos (e o H se aperfeiçoa a cada dia no ofício de explorar o grotesco). É preciso ser um pouco masoquista (e muito adolescente) para suportá-los. É preciso sentir-se ignorante e merecedor de chicotadas virtuais para submeter-se a tamanhas boçalidades. É como levar uma surra e achar bom.
E então será só isso? Será que, no fim, todo telespectador gosta mesmo é de apanhar? Nem todos, talvez, mas os que gostam de apanhar são cada vez mais numerosos. E, socorro, mais ruidosos.
Copyright © 1998, Abril
S.A. |