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Cama com Madonna: no suposto documentário sobre sua vida privada, a cantora nada mais faz do que mostrar a personagem que criou para si própria |
| Foto: Divulgação |
Sete anos atrás, o cinema possibilitou a cada um de nós passar duas horas na cama com Madonna. Agora, somos convidados a entrar na alcova que o cineasta Woody Allen, de 62 anos, divide com a ex-enteada e atual mulher, Soon-Yi Previn, de 27. Wild Man Blues (Estados Unidos, 1998), em cartaz em circuito nacional, é um documentário sobre uma turnê musical de Woody Allen, que toca clarinete nas horas vagas. O principal atrativo do filme, porém, é conferir como anda a vida amorosa do cineasta depois da turbulenta separação de Mia Farrow. Durante a turnê, a diretora Barbara Kopple, que já recebeu um Oscar de melhor documentário, entrou várias vezes no quarto de Woody e Soon-Yi para flagrá-los fazendo ginástica ou tomando café da manhã. Assim como Na Cama com Madonna, de 1991, Wild Man Blues faz parte de um novo gênero cinematográfico: o filme de invasão de privacidade.
A idéia de privacidade nasceu na Roma antiga. A palavra vem do latim privatus, que originalmente designava aquilo que pertencia ao indivíduo e não era da conta do Estado. No decorrer dos séculos, essa idéia abarcou outros aspectos que não o da propriedade, passando a figurar no terreno dos sentimentos e da vida sexual. No mundo do show business, em que o conceito de artista deu lugar ao de celebridade, a noção de privacidade ganhou contornos de que jamais suspeitariam os romanos. Para uma celebridade, a habilidade de transformar a própria vida em espetáculo público virou condição fundamental para a manutenção da carreira, até mais do que seu talento. Um caso notório é o de Michael Jackson, que aparece na imprensa mais por causa de suas esquisitices do que pela qualidade de suas músicas.
É um engano, no entanto, pensar que a intimidade mostrada nas telas ou nas revistas é real. Na verdade, ela é forjada. Quando uma artista é "flagrada" na praia num sumário biquíni vermelho, é certo que ela o escolheu a dedo para aparecer bem numa possível foto. Na Cama com Madonna e Wild Man Blues são dois exemplos de como a mentirinha funciona no cinema. Ainda que pareça extremamente transgressora aos olhos da platéia, a Madonna do suposto documentário não é a cantora de verdade, mas a personagem que ela criou para si própria. Sua "transgressão" é bem-comportada, não excede os limites impostos pela indústria cultural. Da mesma forma, em Wild Man Blues, Woody Allen está sempre preocupado em cunhar alguma tirada inteligente, à altura de seus filmes, para não decepcionar seus críticos e espectadores habituais. Numa cena, enquanto anda de gôndola em Veneza e é fotografado por dezenas de turistas, ironiza: "Ninguém assiste a meus filmes, mas na hora de me fotografar na gôndola todo mundo aparece". Quando percebe Soon-Yi deslumbrada com a suíte de um hotel de luxo, diz a ela: "Viu só? Até pouco tempo atrás você comia lixo na Coréia". Não há nenhuma confissão, nenhum desabafo e, principalmente, não se mostra nada da vida pessoal de Allen e Soon-Yi que eles não queiram revelar. O mundo atual transformou a intimidade em espetáculo. Só que esse show tem sempre um script bem definido, o que na prática o torna igual aos produtos da ficção. Wild Man Blues é mais uma prova disso.
João Gabriel de Lima
Copyright © 1998, Abril
S.A. |