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Hic! Hic! Hic!
Só um
porre coletivo explica o sucesso
de O Ébrio, que volta em versão restaurada
Ruy Castro
O Ébrio, um
filme brasileiro de 1946, agora relançado em cópia
restaurada, é um dos dois ou três maiores sucessos do
cinema nacional em todos os tempos. Estima-se que,
somente nos seus primeiros quatro anos, foi visto por 4
milhões de espectadores pelos grotões de um país que
acabara de chegar a 50 milhões de habitantes. Deve ser
verdade, porque, depois disso, ainda atravessou décadas
em exibição contínua. As cópias iam sendo tiradas
umas atrás das outras à medida que ficavam
imprestáveis de tanto rodar. Nenhum outro filme nacional
tirou tantas cópias. Mas, ao assisti-lo hoje, você se
perguntará se era o povo, e não Vicente Celestino, que
estava de porre.
Celestino
interpreta um cirurgião rico e famoso, que passa os
primeiros 95% do filme sem tomar uma gota de álcool. Ele
e os demais personagens. Ninguém bebe nada, ninguém
toca no assunto, é um problema que não existe. De
repente, nos 5% finais, Celestino reaparece como o
típico bêbado de chanchada: imundo, maltrapilho,
cambaleante, tropeçando nas pernas e nas palavras. O
motivo é clássico: a mulher o abandonou, fugiu com o
seu traiçoeiro primo. Por isso, ele tomou aquela atitude
drástica: largou tudo, trocou de identidade com um
mendigo atropelado, deu-se como morto e tornou-se um
ébrio das ruas e dos botequins mais sórdidos. Ah, a
mulher infiel, sempre essa pérfida vilã. Apenas um ano
antes, em 1945, Billy Wilder tinha feito nos Estados
Unidos o seu grande filme sobre alcoolismo, Farrapo
Humano. Nesse, o protagonista Ray Milland é um
sujeito com aspirações a escritor, mas cujo abuso do
álcool impede que ele se concentre para escrever e faz
com que, aos poucos, vá perdendo tudo: o dinheiro, a
posição social, a dignidade. No filme de Wilder,
escrito por um roteirista (Charles Brackett) que entendia
do assunto, não há uma explicação
"psicológica" para o fato de Ray Milland
beber. Ele bebe porque bebe porque tem uma
compulsão orgânica para beber. Aliás, sempre teve: o
filme o mostra às voltas com uma garrafa mesmo quando a
vida ainda lhe corria bem. Todos os seus dramas futuros
serão apenas conseqüência de ele ter desenvolvido
dependência alcoólica.
Vamos esquecer o
abismo técnico entre os dois filmes, embora Farrapo
Humano esteja para O Ébrio como um
Rolls-Royce está para um carro de boi. Igualmente
abismal é a diferença no tratamento do assunto. Farrapo
Humano é uma visão adulta e, se isso é possível,
sóbria do alcoolismo Ray Milland não bebe porque
tem problemas, mas tem problemas porque bebe. Já O
Ébrio reproduz o pior e mais injusto chavão do
gênero: o de que os homens bebem "para
esquecer". Quase sempre, para esquecer que foram
traídos. E, inevitavelmente, por uma mulher.
Jararacas
Chavão injusto e machista, porque culpa a mulher por um
problema que costuma ser de exclusiva responsabilidade do
homem. Qualquer pessoa que tenha um bebum na família (e
são raras as famílias invictas nesse terreno) sabe que,
na vida real, o comum é a mulher ir embora porque o
marido já bebe muito e, a partir daí, o marido
usar isso como pretexto para beber mais. Mas nem
é esse o caso em O Ébrio, em que o marido vivido
por Vicente Celestino é não apenas um homem abstêmio e
religioso, mas também fanaticamente fiel, apaixonado e
generoso. Cinco anos depois de casados, ele ainda regala
a mulher com flores e jóias. É um santo, capaz até de
fazer vista grossa às descaradíssimas investidas de um
primo vigarista sobre sua mulher. A qual, desde a
primeira aparição na tela, passa uma incômoda
impressão de parentesco com lacraias ou jararacas. É
uma ingrata, uma insensível e burra, porque cai
na conversa do primeiro conquistador que lhe aparece.
Ofensivo? Sem
dúvida. Poucas vezes um filme mostrou a mulher de forma
tão desprimorosa. Tivesse sido dirigido por um homem, as
feministas brasileiras já o teriam colocado num índex
de filmes a ser retalhados, picotados e transformados em
vassouras. Mas, acredite ou não, O Ébrio foi
escrito, produzido e dirigido por uma mulher: a cineasta
Gilda de Abreu (1904-1979). E não se diga que o filme
saiu assim por Gilda ter sido, na vida civil, a senhora
Vicente Celestino. Ela sabia o que fazia: além de
cineasta, era cantora lírica, atriz, dramaturga,
romancista. Sua visão do cinema é que era equivalente
à de Celestino na música popular: a de que a vida é um
fabuloso dramalhão, em que as crianças são
"pequeninas bonecas de carne" e os corações
maternos palpitam até depois de mortos. Nada, em
princípio, contra esse tipo de material: Chaplin fez
grandes filmes com histórias apenas um pouco menos
absurdas. Mas Gilda não era Chaplin, nem Celestino, sabe
Deus, era Carlitos. Uma virtude, no entanto, Gilda e
Vicente tinham de sobra: conheciam o público brasileiro.
Pato Donald
O Ébrio é um filme que fala mais
das multidões que assistiram a ele em 1946 do que
qualquer tratado sociológico. Quem eram aqueles milhões
que, provavelmente, choraram na seqüência em que
Vicente acorda do torpor alcoólico e canta O Ébrio
como se estivesse no Municipal? Seriam os mesmos que,
naquele exato ano, também se emocionaram com A
Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra, ou com Os
Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler?
Não. Esses dois clássicos americanos foram assistidos
pelo Brasil virtual. O Brasil real, muito mais numeroso e
interiorano, assistiu a O Ébrio, levou a família
para ver de novo e nunca se deu conta de quão inepto e
primário o filme era.
A cópia em cartaz
no tradicional cine Paissandu, no Rio de Janeiro,
apresenta-se como tendo sido restaurada a partir do
negativo original e com o acréscimo de 25 minutos
deixados de fora da primeira montagem. Com todo o carinho
com que esse trabalho foi feito, mesmo assim o filme dá
a impressão de ter sido carregado pelo personagem de
Vicente Celestino no bolso de seu paletó esfrangalhado,
enquanto caía pelas tabelas nas esquinas. A imagem está
riscada de ponta a ponta, o quadro é trêmulo e
instável como se sofresse de síndrome de abstinência,
o preto-e-branco cai várias vezes para cinza e, em três
ocasiões, o som substitui a voz dos atores pela do Pato
Donald. Mas o pior é que, em sua encarnação original,
nas cópias estalando de novas, O Ébrio não
devia ser muito melhor. Não parece um filme de 1946, mas
um contemporâneo de Lumière, Pathé, Méliès, uma
coisa assim de 1900.
Na fila do
Paissandu, postam-se inúmeros casais de cabelos brancos,
ansiosos por rever seu velho e querido ídolo Vicente
Celestino. Vicente não os decepcionará, pois é a
melhor (ou a única) coisa do filme: honesto como ator e
sempre sincero e digno como cantor. Mas esses mesmos
casais idosos são os que já se habituaram, há muitos
anos, à gramática ágil das novelas da Globo. Como
reagirão ao descobrir que o filme a que estão
assistindo não tem nenhuma relação com o que
preservaram na memória e que talvez nunca tenha
existido?

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