Leite de pedra

Nuno Ramos volta à cena esculpindo o mármore

Ramos e suas
pedronas: beleza
indefinível
Foto: Egberto Nogueira  

Os três blocos de mármore exibidos pelo escultor Nuno Ramos na Galeria Camargo Vilaça, em São Paulo, até o dia 28, escaparam por pouco de virar pia de cozinha. Graças a pequenas imperfeições, como rachaduras e veios pronunciados, as três pedronas, que têm entre 5 e 8 toneladas, tornaram-se obras de arte. Sobre a crista de cada pedra, de onde parece sair um broto, Nuno derramou uma mistura de parafina líquida que se espalhou sobre a rocha como um véu. O resultado é de uma beleza indefinível, grandiosa e sublimada ao mesmo tempo. A força desses blocos está justamente na sua ambigüidade, na interseção das formas untadas pela parafina coagulada que escorre do alto, acima do ângulo de visão do espectador. As três esculturas, sem título, são uma novidade na carreira do artista, conhecido por sua identificação com tons e temas soturnos. Ele começou nos anos 80 pintando telas em tons escuros. Nos anos 90, firmou-se como escultor. Em 1993, Nuno criou com paralelepípedos e betume a instalação 111, um réquiem para os presos mortos no ano anterior no Carandiru. Depois, em 1995, levou à Bienal de Veneza a escultura metálica Craca, moldada com sucata e pequenos animais mortos. Agora, volta à cena tirando, literalmente, leite de pedra.

A.P.




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