A FEBRE AMARELA

A crise do iene se agrava, derruba as bolsas e mesmo
países distantes do Japão sofrem com seus espasmos

Cintia Valentini

Para resumir a história, o iene japonês voltou a despencar na semana passada, produzindo uma nova maré de queda nas bolsas de valores de todo o mundo, inclusive do Brasil. De olho no iene, a China ameaça desvalorizar o yuan se os japoneses não tomarem jeito. Agora, o perigo cresceu. O rublo está tão fraco que Moscou proibiu na semana passada que os bancos comprem dólares ou marcos. A economia japonesa está em depressão, a pobre Rússia vive à beira da moratória e os chineses andam às voltas com 200 milhões, um Brasil e uns quebrados, de desempregados. O brasileiro que vive muito longe dessa confusão, nunca viu um russo em carne e osso e não paga o litro de leite com ienes pode perguntar que raios tem a ver com essa dança de bolsas e moedas. Resposta: tem tudo. Uma crise tão longínqua quanto a do Japão pode atingi-lo no bolso e no trabalho, cedo ou tarde. Se ele for dono de algum investimento nas bolsas de valores, já sentiu a agulhada. Entre segunda e quinta-feira, por causa dos problemas chineses, russos, japoneses ou alguma outra das minicrises financeiras que andam pipocando pelo mundo, cerca de 7% de seu capital evaporou-se.

Entre segunda e quinta, o valor de mercado das empresas cotadas nas bolsas brasileiras caiu em 13,7 bilhões de dólares. Na Bolsa de Nova York o tombo provocado pelo soluço do iene foi de 130 bilhões. Na sexta-feira, o mercado financeiro fechou mais tranqüilo. O presidente Boris Ieltsin disse que defenderá o rublo a qualquer custo e Tóquio conseguiu segurar o iene. Essa tem sido a rotina desde que os Tigres Asiáticos quebraram, entre julho e outubro do ano passado, modificando a percepção dos investidores a respeito do dinheiro que investem no exterior, principalmente em países emergentes — mercados em que o lucro é estratosférico e o perigo, abissal. Não se passa um mês sem que a rede mundial de derivativos, títulos da dívida externa, trocas cambiais e outras modalidades de comércio de papéis, dê uma estremecida. "Este será o ano da volatilidade. Os mercados continuarão se ajustando até o fim do semestre", diz Enio Shinohara, diretor da área de pesquisa da corretora paulista Hedging-Griffo Asset Management.

As pessoas podem se acostumar com os sustos periódicos e seus reflexos num Brasil que não é mais um jabuti encouraçado, olhando para dentro de si mesmo e com pretensões de auto-suficiência. O país está amarrado como nunca a um sistema mundial, importando, exportando e recebendo investimentos num volume que a cada ano quebra recordes históricos. Os países que usufruem desse ambiente de livre comércio têm um preço a pagar. Este preço é a vulnerabilidade a crises longínquas. Nesse ponto, o brasileiro está na mesma posição do chileno ou do argentino. A economia chilena vai crescer menos neste ano porque um terço de suas exportações, que se destinavam à Ásia, ficou prejudicado. O governo argentino está estudando um pacote para evitar mais perdas nas bolsas. Só em agosto, a queda do preço das ações em Buenos Aires foi de 22,5%.

Esse processo que premia e também castiga é a globalização econômica, fenômeno que tem origens antigas, mas acelerou-se tremendamente nesta virada de milênio. Ele atinge tudo e a todos de uma maneira profunda. O francês e o belga estão perdendo o emprego porque suas companhias preferem investir em locais onde os impostos são menores e o trabalho é mais barato. O brasileiro, em compensação, ganhará mais postos de trabalho nas novas montadoras que fizeram a opção pelo Brasil, como a Renault ou a Mercedes-Benz. Tamanha é a troca internacional de trabalho, peças e projetos que já não se conhece mais a nacionalidade de um produto. A globalização se estende agora para além dessas trocas. A nova moda é a junção de empresas de países diferentes. Há três meses, a Chrysler americana se associou à Mercedes. Farão um carro juntas, para distribuição mundial. Na semana passada, a British Petroleum e a Amoco se juntaram. A organização resultante terá faturamento anual de 107 bilhões de dólares, volume de dinheiro maior que o PIB individual de mais da metade dos países do mundo.

A mesma coisa acontece no mercado financeiro. No passado, no recinto da bolsa de valores, só se negociavam ações de empresas instaladas no país. O limite acabou. As ações da Brahma, Unibanco e Pão de Açúcar podem ser negociadas por americanos na Bolsa de Nova York. Divisas fortes, como dólar, marco, iene, libra, são vendidas e compradas na escala de 1 trilhão de dólares por dia. Há uma massa de dinheiro, da ordem de 3 trilhões de dólares, entrando e saindo continuamente dos países. Ela é atraída por juros altos, segurança cambial e estabilidade econômica do país-alvo, mas sai com a rapidez de um raio ao menor sinal de desequilíbrio. O dinheiro arisco pode quebrar as finanças de países que dependem demais dele para custear despesas de curto prazo — ou que o utilizam para pagar importações de bens supérfluos. O capital externo, assim, pode provocar recessão, desemprego e perda do poder de compra. Com algumas variantes, é o que ocorre no momento com a tigrada asiática, que arrombou o orçamento doméstico, embebedou-se em créditos podres e acabou fortemente castigada pelo capital domador internacional.

As críticas feitas à globalização martelam essa tecla: dependendo de tantos laços externos para funcionar e ficando tão expostos a turbulências vindas de fora, os países perderam uma parte de sua soberania. Antes, os juros eram fixados com base em necessidades internas. Essa época acabou. Hoje, jogar os juros para cima tornou-se um mecanismo clássico para impedir a fuga de capitais e para defesa contra os especuladores de moedas. Em outubro do ano passado, em função da quebra da Ásia, o governo brasileiro elevou os juros de 20,7% para 43,4% ao ano e conseguiu apaziguar o capital externo aplicado no país, que ameaçava decolar para portos mais seguros. Se esse capital fugisse é provável que o país tivesse dificuldade de pagar suas contas externas. O dinheiro ficou. O brasileiro pagou pela manobra defensiva na forma de desaceleração da economia, desemprego crescente e crédito caríssimo.

Vive-se na corda bamba, no mundo globalizado, e não há como fugir de seus riscos. O que significa que daqui por diante as empresas e pessoas terão de incorporar a suas preocupações muito do que se passa no mundo exterior — desde a estabilidade do iene às decisões do banco central americano. É um incômodo a mais, sem dúvida. Ele fica suportável quando se pensa nas conseqüências de se adotar a solução contrária, a volta ao estado onipresente na economia e de fronteiras fechadas. Antes de abrir-se a esse mundo, os brasileiros viviam numa estufa em que a inflação era crescente e massacrava os pobres. O investimento externo no país beirava o zero. Em apenas quatro anos de controle da inflação e abertura econômica determinada o Brasil tem outra face. Entre os emergentes, figura como estrela. Fora a China, é o que mais dólares atrai. No ano passado, chegaram 18,7 bilhões de dólares. Neste ano, segundo uma estimativa do economista Octávio de Barros, o maior especialista brasileiro no assunto, deve receber 21,8 bilhões. Atenção: não é dinheiro que vem para aproveitar-se dos juros ou girar na bolsa, mas para construir fábricas, equipá-las e pagar salários.

A queda das bolsas provocou uma pequena fogueira na riqueza do mundo. O valor das ações despencou. No Brasil houve perda de 13,7 bilhões de dólares. Em Nova York, de 130 bilhões de dólares

O problema que afligiu o mundo na semana passada e atingiu os papéis brasileiros — além das ações, caiu também a cotação dos títulos da dívida externa — está na persistente recessão japonesa. Ela tem várias origens. Uma é a bolha especulativa do começo da década, que ainda provoca prejuízos. Naquela época, ativos como imóveis, obras de arte e ações de empresas foram supervalorizados e hoje continuam na barriga dos bancos ou na carteira de investimento dos cidadãos, com preços irreais. Mas todos sabem que, se forem oferecidos no mercado, serão vendidos por muito menos. Nesses ativos e em créditos podres, estima-se que o rombo do sistema financeiro japonês possa chegar a 700 bilhões de dólares. O número oficialmente aceito é de 580 bilhões. Outra razão é a desconfiança das pessoas. Com a recessão e um desemprego que começa a ameaçar uma sociedade acomodada, o japonês, povo mais poupador do planeta, está guardando ainda mais avaramente o salário. Evita deixar dinheiro nos bancos e parou de consumir. É uma rosca que leva para baixo. As dificuldades dos bancos se agravam e as empresas, sem vender, têm pouco ou nenhum lucro. Como conseqüência, os investidores estrangeiros vêem pouca possibilidade de ganhos e vendem seus ativos, provocando a desvalorização do iene. Não se deve pensar que isso é o fim dos tempos. O Japão é riquíssimo, tem um PIB que beira os 5 trilhões de dólares, infra-estrutura moderníssima, alta tecnologia e uma população altamente educada. O Japão pode lidar com seus problemas como se fosse uma gripe muito forte. O problema é que cada espirro gera ondas de intranqüilidade que dão a volta ao mundo.

Fonte: Corretora Hedging-Griffo




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