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MODELO DE EDUCAÇÃO
O que há
para aprender muito com o ensino superior
americano, que ganha metade dos prêmios Nobel
Claudio de
Moura Castro
Nem tudo que é bom
para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas, quando
se trata de ensino superior, é bom saber como os
americanos fazem para abiscoitar metade dos prêmios
Nobel, publicar 34% da ciência mundial e matricular 63%
dos seus graduados do curso secundário em cursos
universitários, a proporção mais alta do mundo. Sua
universidade inspira quase todos os países do mundo,
inclusive os europeus, e atualmente recebe mais de 6.000
brasileiros.
Antes de
tudo, o ensino superior americano é extraordinariamente
variado e heterogêneo. Lá, a idéia aconchegante e
elitista da universidade onde todos fazem ensino,
pesquisa e extensão se aplica a um segmento pequeno do
sistema. Ensino superior não é apenas universidade, mas
um montão de coisas com caras e funções diferentes, em
que há também universidades.
É o
maior sistema de educação superior do mundo, com mais
de 15 milhões de alunos. Para atender esse povaréu, a
primeira regra sagrada é que, se a instituição não
consegue atrair o tipo de aluno que quer, ela se adapta
ao que consegue recrutar em contraste com as
brasileiras, que sonham com um aluno que jamais se
matriculará e tratam os que a procuram como se
materializassem o sonho da universidade de elite. Nos
Estados Unidos, se o aluno chega sem saber ler direito
como acontece com a maioria dos que se matriculam
nas escolas menos competitivas não se finge que
ele sabe, ensina-se a ler. Mais da metade das
instituições oferece cursos de compreensão de leitura.
Em Compton, na Califórnia, 100% dos alunos que iniciaram
o curso no ano letivo passado levaram bomba em
matemática, enquanto 40% de todos os americanos entrando
no nível superior tiveram de fazer cursos de
nivelamento, para que se tornassem aptos a acompanhar o
currículo.
Não há
regras cretinas, como no Brasil, dizendo que para ser
professor tem de ter esse ou aquele diploma. Nas
matemáticas e nas físicas, exceto nas instituições
mais lamentáveis, todos os professores têm Ph.D. Nas
áreas aplicadas, valorizam-se outras coisas, como a
experiência nas empresas.
O
sistema pode ser diabolicamente competitivo. Entre
escolas, sobretudo as privadas e públicas que dependem
de fundos de pesquisa, a briga é de foice. Uma
derrapagem e seus presidentes vão para o olho da rua ou
se fecham departamentos. As escolas cortejam os alunos
brilhantes, os presidentes bajulam seus ex-alunos ricos,
por anos a fio, por gerações, até que façam suas
doações. Na livraria da universidade haverá um livro,
feito pelos próprios alunos, dando notas e comentando as
habilidades didáticas de cada professor.
Exceto
quem tem bolsa integral, todos pagam, muito ou pouco,
dependendo da escola. Em média, as públicas cobram 2.535
dólares por ano e as privadas, 11.007. Nada é de
graça, mas a grande maioria dos alunos paga menos do que
o custo integral do seu ensino. Nas particulares mais
ricas, cobrem a metade do custo. Nas públicas, apenas
uma parte. Além disso, há inúmeros mecanismos de
bolsas e créditos educativos. O governo federal pinga 50
bilhões de dólares para ajudar os alunos. Para reduzir
a anuidade, pode-se ver um aluno do mais prestigioso
curso de direito, em Yale, lavar o chão do refeitório
dos atletas.
As
regras são muito flexíveis, adaptando-se a cada área
do conhecimento. Não existe para o corpo docente a
"isonomia" brasileira em matéria de salários,
que nivela os vencimentos mesmo sabendo que os
desempenhos são diferentes. As exigências de diplomas
são flexíveis. Em certos casos extremos, até sem
diploma do secundário se vira professor, se for bom na
profissão. Um aluno do violoncelista brasileiro Aldo
Parisot era nordestino, sargento de banda, mal falava
inglês e estava matriculado em Yale.
Não há
Ministério da Educação nem Conselho Federal de
Educação. Em alguns Estados, não é preciso
autorização prévia para funcionar. Em outros, o dono
da escola dá-lhe o nome que quiser. O Massachusetts
Institute of Technology, MIT, não é universidade. Mas
em alguns lugares, se alguém quiser chamar sua escola de
universidade, as autoridades dizem amém. Há também
universidades fantasmas e compra de diplomas só o
diploma, sem curso. Tudo na paz do Senhor, embora o FBI
haja fechado 39 escolas entre 1983 e 1986 por propaganda
enganosa.
As
profissões não são regulamentadas por lei, como no
Brasil, com exceção de medicina, direito, enfermagem e
outras em que a má formação profissional implica
riscos sérios. Aliás, os cursos de direito e medicina
são oferecidos apenas como pós-graduação.
O
sistema tem falhas. Por exemplo, custos subindo além do
poder de compra dos alunos e a concorrência dos cursos
via Internet. A evasão é preocupante, por volta de 50%
(18% nas particulares mais seletivas e 44% nas melhores
escolas públicas). A grande margem de escolha dada aos
alunos para selecionar cursos e disciplinas
freqüentemente vira uma babel curricular. Há muita
pesquisa frívola ou inexpressiva. Seu forte, contudo, é
a capacidade de enfrentar os problemas à medida que vão
aparecendo, e nesses casos as soluções podem ser duras.
Não só se fecham departamentos como 200 cursos
superiores foram extintos nos últimos anos.
A imagem externa da
universidade americana é muito marcada por um punhado de
escolas de elite. Essas são instituições
extraordinárias, pela liderança científica que detêm.
Nada melhor para ilustrá-las do que a mais famosa delas:
Harvard. Paletós de tweed já meio puídos no cotovelo,
gravatas com o brasão de Harvard, cabelos
controladamente despenteados, os dois professores
almoçam no sisudo ambiente do Clube dos Professores, o
supremo templo do esnobismo intelectual americano. No
ritmo apressado que caracteriza o dialeto da
universidade, um comenta que o colega faz mais de um ano
não publica um só artigo. Concluem que se arrisca
seriamente a não ter seu contrato renovado. Não é à
toa que passaram ou estão em Harvard tantos prêmios
Nobel. Harvard virou sinônimo de universidade de elite.
Lidera o círculo das "Ivy Leagues", que são
as venerandas universidades, originalmente religiosas,
mas hoje somente professando a seita do "publish ou
perish" publique ou caia fora. Harvard
pertence aos 3% das instituições de ensino superior que
se dedicam predominantemente à pesquisa.
Como outras
universidades do mesmo quilate, o que conta é a
pós-graduação, celeiro dos melhores pesquisadores que
ali aprendem seu ofício com os mais badalados cientistas
do país. Em torno da pós-graduação gravita a vida da
universidade. Para muitos professores, o ensino de
graduação é visto como um mal necessário para
alguns, um mal desnecessário. Atrapalha a pesquisa.
Afinal, como disse um antigo presidente de Harvard, Derek
Bok, como poderia ele punir Jeffrey Sachs por matar aula
porque foi chamado pelos russos para consertar sua
economia? Na pós-graduação, ainda dá para discutir a
última pesquisa em curso. Na graduação, os alunos não
entenderiam. Melhor deixar para os assistentes. Apesar
das preocupações em melhorar o ensino por parte de
Derek Bok, a qualidade da graduação em Harvard é muito
variável. Há aulas com 1.000 alunos.
O melhor destas
universidades não está no ensino de graduação, mas
nos excelentes alunos que têm. O escritor Thoreau,
graduado de Harvard, já dava o troco no século XIX, ao
dizer que aquela era uma escola aonde se ia para conhecer
outros alunos interessantes. De fato, é preciso ser um
dos melhores da turma apenas das melhores escolas para
conseguir ser aceito em Harvard. Tradicionalmente, era a
universidade da elite econômica e intelectual do país.
Mas na década de 40 decidiu que gostaria de ser a
universidade da elite intelectual, qualquer que fosse sua
origem social. Com seu patrimônio gigantesco, pode-se
permitir dar bolsas a quem é forte de cabeça e fraco de
bolso. Harvard cobra 18.000 dólares por ano ou
seja, 27% do custo. Para selecionar essa elite
intelectual, criou um exame que progressivamente se
difundiu pelo país, que mede a probabilidade de ter
êxito no ensino superior o SAT.
Segundo alguns, o
melhor ensino se dá em instituições que não fazem
pesquisa de forma regular e institucionalizada e, em
geral, nem têm pós-graduação. Nesta categoria, em que
86% são escolas privadas, estão 18% das instituições
de ensino que deliberadamente não têm pós-graduação
e oferecem uma predominância de programas que não
profissionalizam. É um ensino, elitizado ou não,
focalizando primordialmente as humanidades e em menor
grau as ciências. Busca preparar a cabeça das pessoas
que irão para profissões administrativas, para a
pós-graduação ou para empregos em grandes e pequenas
empresas.
O que têm a
mostrar é o ensino de qualidade. Nisso são melhores do
que a maioria das grandes universidades, mesmo as que
lideram o país em pesquisa como Berkeley,
Michigan ou Indiana. O ensino nas melhores faculdades, os
"colleges", pode empatar com o das Ivy Leagues.
As "liberal arts schools", ao todo 637, são
assim denominadas por sua concentração nas humanidades,
embora tenham também programas de ciências. Algumas
são hipercompetitivas e atendem às classes mais ricas.
Por exemplo, Middlebury. Aninhado na paisagem meio rural
do Estado de Vermont está o encantador campus desse
college de 2.000 alunos, com todos os seus edifícios
revestidos de granito esbranquiçado. Olhando os alunos
entrando e saindo das aulas, pensaríamos em um bando de
pobretões, vestidos com roupas desbotadas e até mesmo
rasgadas, bonés ensebados e virados para trás. Ledo
engano, são os "crunchies" ou
"granolas" a fina flor da elite
americana, com pais capazes de desembolsar 30.000
dólares de anuidade.
Uma visita à sala
de aula mostra o resultado. Muitos dedos apontam para o
ar, em um seminário sobre as meditações de Ovídio,
quando o professor pergunta que influência teria tido
Pitágoras sobre o conteúdo do texto. A discussão
escorrega para as influências do pensamento de
filósofos indianos na obra de Pitágoras. Daí evolui
para as idéias de imortalidade e geração da vida.
Será que a ciência é uma boa ferramenta para uma
compreensão religiosa da natureza? Com esta pergunta o
professor abre a aula de seu curso sobre visões da
natureza, onde os alunos devem ler uma dezena de autores
que escreveram sobre o assunto. Ao fim do dia os alunos
voltam aos seus quartos. Alguns dormitórios se
especializam na língua que o aluno quer aprender. Há um
onde só se fala francês. Outro, só alemão. Os mais
ambiciosos escolhem um onde chinês é a língua oficial.
Essa é a essência
da educação por meio do estudo das humanidades:
desenvolver o pensamento, sem nenhuma utilidade ou
objetivo prático. Educa-se a cabeça, aprende-se a
pensar, estudando literatura, grego, filosofia. No final
das contas, é supremamente útil. Cabeça feita não é
pouca coisa. É essa gente, afiada no estudo dos
clássicos, que as grandes empresas querem contratar. Por
isso, é difícil entrar em Middlebury. De cada três
candidatos, só um é aceito e só se candidata quem tem
um ótimo currículo escolar. As empresas citadas na
lista das 500 maiores pela revista Fortune não
vão procurar administradores ou engenheiros para os seus
futuros quadros dirigentes, mas sim essas pessoas
ilustradas nos clássicos e que poucas disciplinas
"práticas" cursaram. Os cursos de
pós-graduação também acolhem os graduados de escolas
desse tipo, mais até em proporção do que aqueles
formados em universidades dedicadas à pesquisa.
As 700
universidades americanas são instituições com
pós-graduação, igualmente divididas entre públicas e
privadas e oferecendo de tudo um pouco. Com exceção das
mais elitizadas, tendem a ser grandes. Às vezes, muito
grandes. São freqüentadas por uma multidão de alunos,
5 milhões. Lutam por estabelecer sua identidade, criar
uma imagem de qualidade, requerida para atrair fundos e
alunos. Mas têm os alunos que podem ter, nem todos ricos
e nem todos brilhantes. Vacilam entre equipar o novo
laboratório e construir o novo centro desportivo. Um dá
prestígio, o outro traz alunos. Têm de pensar no
mercado de trabalho, pois, se falharem, os melhores
alunos procuram as concorrentes. E oferecem uma
infinidade de serviços, entre squash, segurança no
campus e tratamento psiquiátrico, mas tudo isso custa
caro e muitos alunos não podem pagar. Daí a
multiplicidade de créditos educativos e bolsas
oferecidas. Professores pedantes pagam seus pecados
tentando ensinar a atletas que mal sabem ler e não
querem aprender. Mas sem times decentes de basquete e
futebol americano essas universidades não atrairiam
ex-alunos para os jogos, ocasião em que serão abordados
para fazer doações. Outros professores furiosamente
pesquisam e publicam, alguns grupos atingindo os melhores
níveis do país.
Ao fazer de tudo,
as universidades acabam sacrificando certas áreas, como
o ensino de graduação. Das 25 instituições cuja alta
reputação não é correspondida por um ensino de
qualidade na graduação, 23 são universidades. Os dois
que sobram são faculdades, os "colleges". Os
cursos de extensão, em geral lucrativos, têm catálogos
mais grossos do que os dos cursos regulares. Nesse mister
de operar esses supermercados do ensino, os departamentos
têm extraordinária autonomia, seja do ponto de vista
financeiro, seja pedagógico. Representa bem essa
categoria a State University of New York, Suny, em
Albany, escola situada no patamar superior ao das
públicas. Localizada no Vale do Hudson, na capital do
Estado de Nova York, a Suny é chamada pelos estudantes
de "palácio de concreto", devido a sua
arquitetura pesada e simétrica, em que os edifícios
iguais confundem os alunos novos. O frio extremo durante
o inverno levou à construção de um emaranhado de
túneis para atravessar o campus sem enfrentar a neve
abundante. Mas, se a temperatura é amena, estarão na
entrada principal os fanáticos do skate board, navegando
pelos parapeitos, balaustrada e escadas.
Suny ilustra a
mágica de fazer funcionar em relativa harmonia uma
variedade enorme de cursos e atividades com alunos dos
mais variados matizes. De uma pacata faculdade de
educação criada no século passado, virou uma
universidade variada e complexa, com 20.000 alunos.
Oferece 100 programas diferentes de graduação, 83
mestrados e 38 doutorados. Há as milionárias pesquisas
sobre supercondutores, ciências da atmosfera, tecnologia
de películas finas, a busca dos "computer
chips" do futuro e outras investigações, como uma
sobre o sistema de navegação e orientação de
pássaros migratórios. Pela manhã, em classes com 500
alunos, ensinam-se matérias "inúteis", como
introdução à sociologia. Ao contrário das Yales,
Harvards e Princetons, cujo status não está em
questão, escolas como a Suny têm de criar seus nichos
de qualidade onde competem em criatividade e
produtividade. São ilhas de excelência em meio a um mar
de mediocridade e massificação. A pesquisa de Suny
está classificada em 17º lugar no país, entre as
públicas. Nesse sentido, não é muito diferente das
universidades brasileiras de primeira linha. Cobrando 3.000
dólares dos estudantes locais e 7.000 dos de outros
Estados, só consegue levantar 20% dos seus custos com as
anuidades. Mas sem dispor de patrimônio rentável nem de
muitas doações de alunos, é acudida pelo governo, que
banca 63% do orçamento da instituição.
Se para alguns
alunos as Meditações de Ovídio são o caminho
para uma boa educação, para outros seriam um
obstáculo. O grande mérito do sistema americano é ser
capaz de atender estudantes com diferentes perfis e
diferentes necessidades. Uma de suas grandes novidades
foi ter aprendido a lidar tanto com os alunos que se dão
bem com os diálogos de Platão quanto com aqueles que
enfrentam com facilidade o cálculo diferencial. Também
será preciso receber o estudante que vem cru do
secundário, um curso de baixíssima qualidade em muitos
casos. Os melhores alunos do secundário americano são
pelo menos tão bons quanto os melhores de qualquer país
do mundo. Mas os piores nem sequer dão conta de ler um
jornal e são incapazes de ler os livros requeridos em um
curso superior convencional. Se Maomé não vai à
montanha... os 1471 "community colleges", que
diplomam quase a metade dos graduados no ensino superior,
são a resposta americana ao desafio de colocar no ensino
superior quase a metade da faixa etária correspondente
um recorde mundial, apesar da mediocridade de suas
escolas de 2º grau, as "high schools",
localizadas em áreas pobres ou problemáticas. Como
regra geral, não há "vestibular", entra quem
quiser e a anuidade é baratinha. E nada de professores
de tweeds e com sotaque afetado. O reitor de uma dessas
faculdades nos recebeu portando uma gravata com a
fotografia dos Três Patetas.
Essas escolas têm
dois papéis. Dão uma segunda chance a quem não teve
oportunidade ou não funcionou bem nas universidades
convencionais e quer continuar a estudar. Sua clientela
é particularmente fraca naquelas habilidades exigidas
nas universidades convencionais. Seu enorme mérito é
justamente ser capaz de lidar com esse tipo de clientela.
Por essa razão, são mais inovadoras em matéria de
pedagogia do que o ensino mais convencional. Se Berkeley
deixa o ensino ao deus-dará, os community colleges
capricham na pedagogia. Vale tudo: computador, vídeo,
novos métodos de ensinar.
Ao entrar no campus
de Drumright, deparamos com um enxame de carros de
polícia e caminhões pesados. Um crime entre
caminhoneiros? Não, é ali que os policiais fazem curso
de direção e tiro ao alvo. E os choferes de caminhão
preparam-se para o exame federal requerido para operar
jamantas. Em eletrônica de bordo em aviões, a
tolerância para erros é zero. O curso de manutenção
desses equipamentos tem de preparar alunos que deverão
passar em rígidos testes, sem o que não podem tocar num
avião. No entanto, 85% dos alunos de Tulsa jamais viram
trigonometria na vida, apesar de ter um diploma de 2º
grau. Logo, aprenderão trigonometria antes da
eletrônica.
As revendas da
Nissan cansaram de treinar seus mecânicos, almoxarifes e
funcionários administrativos. Entregaram tudo à escola
de Okmulgee. Mas quem faz os programas, os currículos e
dá as regras do jogo continua sendo a própria Nissan. A
Caterpillar construiu um imenso simulador de defeitos
para seus tratores maiores. Mas achou que melhor seria
despachá-lo para essa escola e encomendar dela os cursos
de que precisasse.
Nessa escola se
aprende a ser cozinheiro, consertador de computador,
operador de raios X, massagista, cosmetologista,
carpinteiro, pedreiro, pintor e mil outras ocupações.
Há um curso de reparo de sapatos e botas. É ali onde se
aprendem as profissões manuais qualificadas. Já que as
escolas secundárias fracassaram na profissionalização,
a tarefa foi transferida para as faculdades. A clientela
dessas escolas é particularmente deficiente em
formação básica. Uma fração importante, até 90%,
tem de receber cursos de alfabetização funcional e
matemática elementar antes de freqüentar as matérias
profissionais.
Esse é o grande
instrumento de mobilidade social e de oportunidades de
empregos bem remunerados para a classe operária. Um
mecânico de automóvel com boa formação em eletrônica
de bordo ganha de 40.000 a 50.000 dólares por ano. Os
professores são selecionados pela experiência e não
pelo diploma. Alguns poucos professores nem sequer têm
diploma do secundário. Em Okmulgee, criou-se mesmo uma
garantia de qualidade da formação oferecida. Se a
empresa não está satisfeita com o desempenho, o
contrato de garantia assegura que o empregado será
retreinado gratuitamente até que atinja os níveis
estipulados.
Em um país de
tantas universidades gigantescas, chama a atenção a
existência de pequenas escolas que apenas oferecem um ou
dois cursos a poucas centenas de alunos. Essas
instituições, cujo número soma 693, tendem quase todas
a ser privadas. Têm, em geral, uma razão de ser muito
específica, que é a proximidade da atividade econômica
em que se especializam. Assim, perto de uma mina haverá
uma escola de minas. Na capital da moda, Nova York,
haverá uma escola de moda e confecção. Cerâmica,
papel, têxteis, construção naval, música, propaganda
e até "ciência mortuária" têm suas escolas.
Encostada na Casa
Branca, em Washington, está a Corcoran Gallery, o mais
antigo museu de arte da cidade. Ali vamos ver as melhores
exposições de fotografia e excelentes mostras de
pintura contemporânea e, de passagem, dar uma olhada no
acervo. Mas quem se esgueirar por uma porta estreita e
descer a escada que dá para o porão encontrará lá
funcionando uma escola de arte, que oferece cursos de
fotografia, belas-artes e artes gráficas. Obviamente,
para operar uma galeria tão prestigiosa, é preciso um
time excelente de curadores e críticos de arte. Já que
estão por aí, por que não utilizar seu talento para
ensinar arte? Essa idéia ocorreu faz 100 anos e, desde
então, ali se instala um dos mais respeitados cursos de
artes visuais. Parece natural que um lugar onde se mostra
e se julga arte seja também o lugar onde se aprende
arte.
São apenas 340
alunos que passam 65% de seu tempo em estúdios. São
atendidos por oitenta professores. E, naturalmente,
professor de arte é quem a pratica no cotidiano. Os
professores de estúdio são todos de tempo parcial e nem
sequer seriam considerados para o emprego se não
tivessem seus estúdios privados em plena operação.
Vão um dia por semana e dão uma aula de seis horas. Os
alunos de belas-artes têm exposições semanais, e
gasta-se enorme tempo analisando e discutindo os
trabalhos de cada aluno. Os cursos de história da arte
são feitos passeando-se pelas galerias do próprio
Corcoran, que não têm piscina, campo de futebol,
estádio, salão de festa ou nenhuma outra das amenidades
convencionais do ensino americano. É estúdio, museu,
sala de aula e acabou. Por isso, é possível cobrar uma
anuidade de 12.000 dólares, que para um curso com tanta
atenção pessoal é até barato. O
"vestibular" é muito simples: leva-se o
portfólio para ser avaliado. Sendo bom, entra.
O cenário torna-se
ainda mais variado com a entrada pesada das grandes
multinacionais no ensino e pelo aparecimento, por todos
os lados, de novas maneiras de oferecer cursos. Várias
empresas transformaram seus programas de treinamento em
"universidades". A Motorola tem uma
universidade enorme e muitíssimo respeitada, que já
abriu filial em São Paulo. O McDonald's tem a chamada
"Universidade do Hambúrguer". O Holiday Inn
tem a sua e os cassinos de Las Vegas também. A Rand
Corporation tem um mestrado em política social,
capitalizando a sua experiência de contratos com o
governo. Ao todo, são 25 instituições de ensino
patrocinadas por grandes empresas que operam
"universidades" de todos os sabores.
Quando lorde Walter
quis criar a Open University (Universidade Aberta), a
idéia foi enjeitada pelas universidades inglesas
tradicionais. Para viabilizá-la, foi necessário criar
uma nova instituição independente. Mas o ensino
superior americano não teve esses pruridos de
conservadorismo. Hoje, mais de 500 instituições
oferecem mais de 10.000 cursos a distância. Os mais
populares são nas áreas de contabilidade,
administração, computação, economia, língua inglesa
e educação. Alguns têm programas com cinco alunos,
outros têm 5.000. Uma idéia simples e bem-sucedida é a
National Technological University que, na verdade, é um
consórcio de 48 universidades de primeira linha que se
reuniram para oferecer cursos a distância. Cada membro
do consórcio se especializa na oferta de cursos nas
áreas em que tem experiência e reputação. O curso é
simplesmente a gravação em vídeo de um curso real com
alunos de verdade. Essas aulas são transmitidas por
satélite para os alunos matriculados pelo país afora e
no exterior (o serviço por satélite atinge a América
Latina e a Europa), e o material escrito é repassado
pela Internet. Foi aberta uma filial no Brasil, quem se
habilita? Os alunos telefonam, escrevem ou visitam os
tutores quando necessitam de atenção pessoal. Em um
experimento famoso, o curso dado aos alunos do mestrado
em engenharia elétrica de Stanford foi retransmitido
para os engenheiros da Hewlett Packard. Comparando os
resultados finais, verificou-se que o rendimento dos
alunos na HP foi ligeiramente superior aos dos que
fizeram o curso de "corpo presente". Hoje,
oferecem, a distância, 1.300 disciplinas valendo
créditos, catorze mestrados e 500 cursos de extensão.
Talvez o
experimento mais radical seja a Universidade de Phoenix.
O dono rasga a fantasia, proclama seus objetivos de lucro
na operação e cria um curso totalmente voltado para
responder ao que querem seus alunos adultos e já no
mercado de trabalho. A soberania do consumidor é levada
ao extremo, por via de pesquisas de opinião. Os alunos
querem ar condicionado na sala? Os alunos não querem
dirigir mais de quinze minutos para chegar à escola?
Não querem os horários da escola mas os que lhes
servem? Os alunos não querem teoria, só o que dá para
usar no dia seguinte no seu emprego? Não querem
professores com diplomas acadêmicos mas profissionais
praticantes? Querem aulas divertidas e brilhantemente
ministradas? Então, é exatamente isso que oferece a
escola. As vestais das universidades tradicionais se
sentem ofendidas pelo comercialismo e pelo imediatismo da
iniciativa. Protestam. Mas a Universidade de Phoenix
prospera e já tem 40.000 alunos, embora não possua um
campus, apenas salas alugadas por todas as partes.
Enfim, esse é o
modelo americano. Há de tudo, para todos. Ali está o
melhor do mundo, o mais ou menos e um ou outro curso que
a polícia fecha. Há ensino para alunos que sabem
sânscrito e para os que mal sabem ler inglês. A única
regra que funciona para todos é que não se pode vender
gato por lebre. Quem quiser comprar um diploma de Ph.D.
impresso em cores está comprando apenas isso, custa 20
dólares. E é isso que vale. Como o vendedor não
promete mais nada, não incorre em nenhum deslize legal.
Colaboraram
os professores Daniel Levy e
Kelly Parmley, da Universidade de Albany, Suny

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