MODELO DE EDUCAÇÃO

O que há para aprender muito com o ensino superior
americano, que ganha metade dos prêmios Nobel

Claudio de Moura Castro

Nem tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas, quando se trata de ensino superior, é bom saber como os americanos fazem para abiscoitar metade dos prêmios Nobel, publicar 34% da ciência mundial e matricular 63% dos seus graduados do curso secundário em cursos universitários, a proporção mais alta do mundo. Sua universidade inspira quase todos os países do mundo, inclusive os europeus, e atualmente recebe mais de 6.000 brasileiros.

Antes de tudo, o ensino superior americano é extraordinariamente variado e heterogêneo. Lá, a idéia aconchegante e elitista da universidade onde todos fazem ensino, pesquisa e extensão se aplica a um segmento pequeno do sistema. Ensino superior não é apenas universidade, mas um montão de coisas com caras e funções diferentes, em que há também universidades.

É o maior sistema de educação superior do mundo, com mais de 15 milhões de alunos. Para atender esse povaréu, a primeira regra sagrada é que, se a instituição não consegue atrair o tipo de aluno que quer, ela se adapta ao que consegue recrutar — em contraste com as brasileiras, que sonham com um aluno que jamais se matriculará e tratam os que a procuram como se materializassem o sonho da universidade de elite. Nos Estados Unidos, se o aluno chega sem saber ler direito — como acontece com a maioria dos que se matriculam nas escolas menos competitivas — não se finge que ele sabe, ensina-se a ler. Mais da metade das instituições oferece cursos de compreensão de leitura. Em Compton, na Califórnia, 100% dos alunos que iniciaram o curso no ano letivo passado levaram bomba em matemática, enquanto 40% de todos os americanos entrando no nível superior tiveram de fazer cursos de nivelamento, para que se tornassem aptos a acompanhar o currículo.

Não há regras cretinas, como no Brasil, dizendo que para ser professor tem de ter esse ou aquele diploma. Nas matemáticas e nas físicas, exceto nas instituições mais lamentáveis, todos os professores têm Ph.D. Nas áreas aplicadas, valorizam-se outras coisas, como a experiência nas empresas.

O sistema pode ser diabolicamente competitivo. Entre escolas, sobretudo as privadas e públicas que dependem de fundos de pesquisa, a briga é de foice. Uma derrapagem e seus presidentes vão para o olho da rua ou se fecham departamentos. As escolas cortejam os alunos brilhantes, os presidentes bajulam seus ex-alunos ricos, por anos a fio, por gerações, até que façam suas doações. Na livraria da universidade haverá um livro, feito pelos próprios alunos, dando notas e comentando as habilidades didáticas de cada professor.

Exceto quem tem bolsa integral, todos pagam, muito ou pouco, dependendo da escola. Em média, as públicas cobram 2.535 dólares por ano e as privadas, 11.007. Nada é de graça, mas a grande maioria dos alunos paga menos do que o custo integral do seu ensino. Nas particulares mais ricas, cobrem a metade do custo. Nas públicas, apenas uma parte. Além disso, há inúmeros mecanismos de bolsas e créditos educativos. O governo federal pinga 50 bilhões de dólares para ajudar os alunos. Para reduzir a anuidade, pode-se ver um aluno do mais prestigioso curso de direito, em Yale, lavar o chão do refeitório dos atletas.

As regras são muito flexíveis, adaptando-se a cada área do conhecimento. Não existe para o corpo docente a "isonomia" brasileira em matéria de salários, que nivela os vencimentos mesmo sabendo que os desempenhos são diferentes. As exigências de diplomas são flexíveis. Em certos casos extremos, até sem diploma do secundário se vira professor, se for bom na profissão. Um aluno do violoncelista brasileiro Aldo Parisot era nordestino, sargento de banda, mal falava inglês e estava matriculado em Yale.

Não há Ministério da Educação nem Conselho Federal de Educação. Em alguns Estados, não é preciso autorização prévia para funcionar. Em outros, o dono da escola dá-lhe o nome que quiser. O Massachusetts Institute of Technology, MIT, não é universidade. Mas em alguns lugares, se alguém quiser chamar sua escola de universidade, as autoridades dizem amém. Há também universidades fantasmas e compra de diplomas — só o diploma, sem curso. Tudo na paz do Senhor, embora o FBI haja fechado 39 escolas entre 1983 e 1986 por propaganda enganosa.

As profissões não são regulamentadas por lei, como no Brasil, com exceção de medicina, direito, enfermagem e outras em que a má formação profissional implica riscos sérios. Aliás, os cursos de direito e medicina são oferecidos apenas como pós-graduação.

O sistema tem falhas. Por exemplo, custos subindo além do poder de compra dos alunos e a concorrência dos cursos via Internet. A evasão é preocupante, por volta de 50% (18% nas particulares mais seletivas e 44% nas melhores escolas públicas). A grande margem de escolha dada aos alunos para selecionar cursos e disciplinas freqüentemente vira uma babel curricular. Há muita pesquisa frívola ou inexpressiva. Seu forte, contudo, é a capacidade de enfrentar os problemas à medida que vão aparecendo, e nesses casos as soluções podem ser duras. Não só se fecham departamentos como 200 cursos superiores foram extintos nos últimos anos.

A imagem externa da universidade americana é muito marcada por um punhado de escolas de elite. Essas são instituições extraordinárias, pela liderança científica que detêm. Nada melhor para ilustrá-las do que a mais famosa delas: Harvard. Paletós de tweed já meio puídos no cotovelo, gravatas com o brasão de Harvard, cabelos controladamente despenteados, os dois professores almoçam no sisudo ambiente do Clube dos Professores, o supremo templo do esnobismo intelectual americano. No ritmo apressado que caracteriza o dialeto da universidade, um comenta que o colega faz mais de um ano não publica um só artigo. Concluem que se arrisca seriamente a não ter seu contrato renovado. Não é à toa que passaram ou estão em Harvard tantos prêmios Nobel. Harvard virou sinônimo de universidade de elite. Lidera o círculo das "Ivy Leagues", que são as venerandas universidades, originalmente religiosas, mas hoje somente professando a seita do "publish ou perish" — publique ou caia fora. Harvard pertence aos 3% das instituições de ensino superior que se dedicam predominantemente à pesquisa.

Como outras universidades do mesmo quilate, o que conta é a pós-graduação, celeiro dos melhores pesquisadores que ali aprendem seu ofício com os mais badalados cientistas do país. Em torno da pós-graduação gravita a vida da universidade. Para muitos professores, o ensino de graduação é visto como um mal necessário — para alguns, um mal desnecessário. Atrapalha a pesquisa. Afinal, como disse um antigo presidente de Harvard, Derek Bok, como poderia ele punir Jeffrey Sachs por matar aula porque foi chamado pelos russos para consertar sua economia? Na pós-graduação, ainda dá para discutir a última pesquisa em curso. Na graduação, os alunos não entenderiam. Melhor deixar para os assistentes. Apesar das preocupações em melhorar o ensino por parte de Derek Bok, a qualidade da graduação em Harvard é muito variável. Há aulas com 1.000 alunos.

O melhor destas universidades não está no ensino de graduação, mas nos excelentes alunos que têm. O escritor Thoreau, graduado de Harvard, já dava o troco no século XIX, ao dizer que aquela era uma escola aonde se ia para conhecer outros alunos interessantes. De fato, é preciso ser um dos melhores da turma apenas das melhores escolas para conseguir ser aceito em Harvard. Tradicionalmente, era a universidade da elite econômica e intelectual do país. Mas na década de 40 decidiu que gostaria de ser a universidade da elite intelectual, qualquer que fosse sua origem social. Com seu patrimônio gigantesco, pode-se permitir dar bolsas a quem é forte de cabeça e fraco de bolso. Harvard cobra 18.000 dólares por ano — ou seja, 27% do custo. Para selecionar essa elite intelectual, criou um exame que progressivamente se difundiu pelo país, que mede a probabilidade de ter êxito no ensino superior — o SAT.

Segundo alguns, o melhor ensino se dá em instituições que não fazem pesquisa de forma regular e institucionalizada e, em geral, nem têm pós-graduação. Nesta categoria, em que 86% são escolas privadas, estão 18% das instituições de ensino que deliberadamente não têm pós-graduação e oferecem uma predominância de programas que não profissionalizam. É um ensino, elitizado ou não, focalizando primordialmente as humanidades e em menor grau as ciências. Busca preparar a cabeça das pessoas que irão para profissões administrativas, para a pós-graduação ou para empregos em grandes e pequenas empresas.

O que têm a mostrar é o ensino de qualidade. Nisso são melhores do que a maioria das grandes universidades, mesmo as que lideram o país em pesquisa — como Berkeley, Michigan ou Indiana. O ensino nas melhores faculdades, os "colleges", pode empatar com o das Ivy Leagues. As "liberal arts schools", ao todo 637, são assim denominadas por sua concentração nas humanidades, embora tenham também programas de ciências. Algumas são hipercompetitivas e atendem às classes mais ricas. Por exemplo, Middlebury. Aninhado na paisagem meio rural do Estado de Vermont está o encantador campus desse college de 2.000 alunos, com todos os seus edifícios revestidos de granito esbranquiçado. Olhando os alunos entrando e saindo das aulas, pensaríamos em um bando de pobretões, vestidos com roupas desbotadas e até mesmo rasgadas, bonés ensebados e virados para trás. Ledo engano, são os "crunchies" — ou "granolas" — a fina flor da elite americana, com pais capazes de desembolsar 30.000 dólares de anuidade.

Uma visita à sala de aula mostra o resultado. Muitos dedos apontam para o ar, em um seminário sobre as meditações de Ovídio, quando o professor pergunta que influência teria tido Pitágoras sobre o conteúdo do texto. A discussão escorrega para as influências do pensamento de filósofos indianos na obra de Pitágoras. Daí evolui para as idéias de imortalidade e geração da vida. Será que a ciência é uma boa ferramenta para uma compreensão religiosa da natureza? Com esta pergunta o professor abre a aula de seu curso sobre visões da natureza, onde os alunos devem ler uma dezena de autores que escreveram sobre o assunto. Ao fim do dia os alunos voltam aos seus quartos. Alguns dormitórios se especializam na língua que o aluno quer aprender. Há um onde só se fala francês. Outro, só alemão. Os mais ambiciosos escolhem um onde chinês é a língua oficial.

Essa é a essência da educação por meio do estudo das humanidades: desenvolver o pensamento, sem nenhuma utilidade ou objetivo prático. Educa-se a cabeça, aprende-se a pensar, estudando literatura, grego, filosofia. No final das contas, é supremamente útil. Cabeça feita não é pouca coisa. É essa gente, afiada no estudo dos clássicos, que as grandes empresas querem contratar. Por isso, é difícil entrar em Middlebury. De cada três candidatos, só um é aceito e só se candidata quem tem um ótimo currículo escolar. As empresas citadas na lista das 500 maiores pela revista Fortune não vão procurar administradores ou engenheiros para os seus futuros quadros dirigentes, mas sim essas pessoas ilustradas nos clássicos e que poucas disciplinas "práticas" cursaram. Os cursos de pós-graduação também acolhem os graduados de escolas desse tipo, mais até em proporção do que aqueles formados em universidades dedicadas à pesquisa.

As 700 universidades americanas são instituições com pós-graduação, igualmente divididas entre públicas e privadas e oferecendo de tudo um pouco. Com exceção das mais elitizadas, tendem a ser grandes. Às vezes, muito grandes. São freqüentadas por uma multidão de alunos, 5 milhões. Lutam por estabelecer sua identidade, criar uma imagem de qualidade, requerida para atrair fundos e alunos. Mas têm os alunos que podem ter, nem todos ricos e nem todos brilhantes. Vacilam entre equipar o novo laboratório e construir o novo centro desportivo. Um dá prestígio, o outro traz alunos. Têm de pensar no mercado de trabalho, pois, se falharem, os melhores alunos procuram as concorrentes. E oferecem uma infinidade de serviços, entre squash, segurança no campus e tratamento psiquiátrico, mas tudo isso custa caro e muitos alunos não podem pagar. Daí a multiplicidade de créditos educativos e bolsas oferecidas. Professores pedantes pagam seus pecados tentando ensinar a atletas que mal sabem ler e não querem aprender. Mas sem times decentes de basquete e futebol americano essas universidades não atrairiam ex-alunos para os jogos, ocasião em que serão abordados para fazer doações. Outros professores furiosamente pesquisam e publicam, alguns grupos atingindo os melhores níveis do país.

Ao fazer de tudo, as universidades acabam sacrificando certas áreas, como o ensino de graduação. Das 25 instituições cuja alta reputação não é correspondida por um ensino de qualidade na graduação, 23 são universidades. Os dois que sobram são faculdades, os "colleges". Os cursos de extensão, em geral lucrativos, têm catálogos mais grossos do que os dos cursos regulares. Nesse mister de operar esses supermercados do ensino, os departamentos têm extraordinária autonomia, seja do ponto de vista financeiro, seja pedagógico. Representa bem essa categoria a State University of New York, Suny, em Albany, escola situada no patamar superior ao das públicas. Localizada no Vale do Hudson, na capital do Estado de Nova York, a Suny é chamada pelos estudantes de "palácio de concreto", devido a sua arquitetura pesada e simétrica, em que os edifícios iguais confundem os alunos novos. O frio extremo durante o inverno levou à construção de um emaranhado de túneis para atravessar o campus sem enfrentar a neve abundante. Mas, se a temperatura é amena, estarão na entrada principal os fanáticos do skate board, navegando pelos parapeitos, balaustrada e escadas.

Suny ilustra a mágica de fazer funcionar em relativa harmonia uma variedade enorme de cursos e atividades com alunos dos mais variados matizes. De uma pacata faculdade de educação criada no século passado, virou uma universidade variada e complexa, com 20.000 alunos. Oferece 100 programas diferentes de graduação, 83 mestrados e 38 doutorados. Há as milionárias pesquisas sobre supercondutores, ciências da atmosfera, tecnologia de películas finas, a busca dos "computer chips" do futuro e outras investigações, como uma sobre o sistema de navegação e orientação de pássaros migratórios. Pela manhã, em classes com 500 alunos, ensinam-se matérias "inúteis", como introdução à sociologia. Ao contrário das Yales, Harvards e Princetons, cujo status não está em questão, escolas como a Suny têm de criar seus nichos de qualidade onde competem em criatividade e produtividade. São ilhas de excelência em meio a um mar de mediocridade e massificação. A pesquisa de Suny está classificada em 17º lugar no país, entre as públicas. Nesse sentido, não é muito diferente das universidades brasileiras de primeira linha. Cobrando 3.000 dólares dos estudantes locais e 7.000 dos de outros Estados, só consegue levantar 20% dos seus custos com as anuidades. Mas sem dispor de patrimônio rentável nem de muitas doações de alunos, é acudida pelo governo, que banca 63% do orçamento da instituição.

Se para alguns alunos as Meditações de Ovídio são o caminho para uma boa educação, para outros seriam um obstáculo. O grande mérito do sistema americano é ser capaz de atender estudantes com diferentes perfis e diferentes necessidades. Uma de suas grandes novidades foi ter aprendido a lidar tanto com os alunos que se dão bem com os diálogos de Platão quanto com aqueles que enfrentam com facilidade o cálculo diferencial. Também será preciso receber o estudante que vem cru do secundário, um curso de baixíssima qualidade em muitos casos. Os melhores alunos do secundário americano são pelo menos tão bons quanto os melhores de qualquer país do mundo. Mas os piores nem sequer dão conta de ler um jornal e são incapazes de ler os livros requeridos em um curso superior convencional. Se Maomé não vai à montanha... os 1471 "community colleges", que diplomam quase a metade dos graduados no ensino superior, são a resposta americana ao desafio de colocar no ensino superior quase a metade da faixa etária correspondente — um recorde mundial, apesar da mediocridade de suas escolas de 2º grau, as "high schools", localizadas em áreas pobres ou problemáticas. Como regra geral, não há "vestibular", entra quem quiser e a anuidade é baratinha. E nada de professores de tweeds e com sotaque afetado. O reitor de uma dessas faculdades nos recebeu portando uma gravata com a fotografia dos Três Patetas.

Essas escolas têm dois papéis. Dão uma segunda chance a quem não teve oportunidade ou não funcionou bem nas universidades convencionais e quer continuar a estudar. Sua clientela é particularmente fraca naquelas habilidades exigidas nas universidades convencionais. Seu enorme mérito é justamente ser capaz de lidar com esse tipo de clientela. Por essa razão, são mais inovadoras em matéria de pedagogia do que o ensino mais convencional. Se Berkeley deixa o ensino ao deus-dará, os community colleges capricham na pedagogia. Vale tudo: computador, vídeo, novos métodos de ensinar.

Ao entrar no campus de Drumright, deparamos com um enxame de carros de polícia e caminhões pesados. Um crime entre caminhoneiros? Não, é ali que os policiais fazem curso de direção e tiro ao alvo. E os choferes de caminhão preparam-se para o exame federal requerido para operar jamantas. Em eletrônica de bordo em aviões, a tolerância para erros é zero. O curso de manutenção desses equipamentos tem de preparar alunos que deverão passar em rígidos testes, sem o que não podem tocar num avião. No entanto, 85% dos alunos de Tulsa jamais viram trigonometria na vida, apesar de ter um diploma de 2º grau. Logo, aprenderão trigonometria antes da eletrônica.

As revendas da Nissan cansaram de treinar seus mecânicos, almoxarifes e funcionários administrativos. Entregaram tudo à escola de Okmulgee. Mas quem faz os programas, os currículos e dá as regras do jogo continua sendo a própria Nissan. A Caterpillar construiu um imenso simulador de defeitos para seus tratores maiores. Mas achou que melhor seria despachá-lo para essa escola e encomendar dela os cursos de que precisasse.

Nessa escola se aprende a ser cozinheiro, consertador de computador, operador de raios X, massagista, cosmetologista, carpinteiro, pedreiro, pintor e mil outras ocupações. Há um curso de reparo de sapatos e botas. É ali onde se aprendem as profissões manuais qualificadas. Já que as escolas secundárias fracassaram na profissionalização, a tarefa foi transferida para as faculdades. A clientela dessas escolas é particularmente deficiente em formação básica. Uma fração importante, até 90%, tem de receber cursos de alfabetização funcional e matemática elementar antes de freqüentar as matérias profissionais.

Esse é o grande instrumento de mobilidade social e de oportunidades de empregos bem remunerados para a classe operária. Um mecânico de automóvel com boa formação em eletrônica de bordo ganha de 40.000 a 50.000 dólares por ano. Os professores são selecionados pela experiência e não pelo diploma. Alguns poucos professores nem sequer têm diploma do secundário. Em Okmulgee, criou-se mesmo uma garantia de qualidade da formação oferecida. Se a empresa não está satisfeita com o desempenho, o contrato de garantia assegura que o empregado será retreinado gratuitamente até que atinja os níveis estipulados.

Em um país de tantas universidades gigantescas, chama a atenção a existência de pequenas escolas que apenas oferecem um ou dois cursos a poucas centenas de alunos. Essas instituições, cujo número soma 693, tendem quase todas a ser privadas. Têm, em geral, uma razão de ser muito específica, que é a proximidade da atividade econômica em que se especializam. Assim, perto de uma mina haverá uma escola de minas. Na capital da moda, Nova York, haverá uma escola de moda e confecção. Cerâmica, papel, têxteis, construção naval, música, propaganda e até "ciência mortuária" têm suas escolas.

Encostada na Casa Branca, em Washington, está a Corcoran Gallery, o mais antigo museu de arte da cidade. Ali vamos ver as melhores exposições de fotografia e excelentes mostras de pintura contemporânea e, de passagem, dar uma olhada no acervo. Mas quem se esgueirar por uma porta estreita e descer a escada que dá para o porão encontrará lá funcionando uma escola de arte, que oferece cursos de fotografia, belas-artes e artes gráficas. Obviamente, para operar uma galeria tão prestigiosa, é preciso um time excelente de curadores e críticos de arte. Já que estão por aí, por que não utilizar seu talento para ensinar arte? Essa idéia ocorreu faz 100 anos e, desde então, ali se instala um dos mais respeitados cursos de artes visuais. Parece natural que um lugar onde se mostra e se julga arte seja também o lugar onde se aprende arte.

São apenas 340 alunos que passam 65% de seu tempo em estúdios. São atendidos por oitenta professores. E, naturalmente, professor de arte é quem a pratica no cotidiano. Os professores de estúdio são todos de tempo parcial e nem sequer seriam considerados para o emprego se não tivessem seus estúdios privados em plena operação. Vão um dia por semana e dão uma aula de seis horas. Os alunos de belas-artes têm exposições semanais, e gasta-se enorme tempo analisando e discutindo os trabalhos de cada aluno. Os cursos de história da arte são feitos passeando-se pelas galerias do próprio Corcoran, que não têm piscina, campo de futebol, estádio, salão de festa ou nenhuma outra das amenidades convencionais do ensino americano. É estúdio, museu, sala de aula e acabou. Por isso, é possível cobrar uma anuidade de 12.000 dólares, que para um curso com tanta atenção pessoal é até barato. O "vestibular" é muito simples: leva-se o portfólio para ser avaliado. Sendo bom, entra.

O cenário torna-se ainda mais variado com a entrada pesada das grandes multinacionais no ensino e pelo aparecimento, por todos os lados, de novas maneiras de oferecer cursos. Várias empresas transformaram seus programas de treinamento em "universidades". A Motorola tem uma universidade enorme e muitíssimo respeitada, que já abriu filial em São Paulo. O McDonald's tem a chamada "Universidade do Hambúrguer". O Holiday Inn tem a sua e os cassinos de Las Vegas também. A Rand Corporation tem um mestrado em política social, capitalizando a sua experiência de contratos com o governo. Ao todo, são 25 instituições de ensino patrocinadas por grandes empresas que operam "universidades" de todos os sabores.

Quando lorde Walter quis criar a Open University (Universidade Aberta), a idéia foi enjeitada pelas universidades inglesas tradicionais. Para viabilizá-la, foi necessário criar uma nova instituição independente. Mas o ensino superior americano não teve esses pruridos de conservadorismo. Hoje, mais de 500 instituições oferecem mais de 10.000 cursos a distância. Os mais populares são nas áreas de contabilidade, administração, computação, economia, língua inglesa e educação. Alguns têm programas com cinco alunos, outros têm 5.000. Uma idéia simples e bem-sucedida é a National Technological University que, na verdade, é um consórcio de 48 universidades de primeira linha que se reuniram para oferecer cursos a distância. Cada membro do consórcio se especializa na oferta de cursos nas áreas em que tem experiência e reputação. O curso é simplesmente a gravação em vídeo de um curso real com alunos de verdade. Essas aulas são transmitidas por satélite para os alunos matriculados pelo país afora e no exterior (o serviço por satélite atinge a América Latina e a Europa), e o material escrito é repassado pela Internet. Foi aberta uma filial no Brasil, quem se habilita? Os alunos telefonam, escrevem ou visitam os tutores quando necessitam de atenção pessoal. Em um experimento famoso, o curso dado aos alunos do mestrado em engenharia elétrica de Stanford foi retransmitido para os engenheiros da Hewlett Packard. Comparando os resultados finais, verificou-se que o rendimento dos alunos na HP foi ligeiramente superior aos dos que fizeram o curso de "corpo presente". Hoje, oferecem, a distância, 1.300 disciplinas valendo créditos, catorze mestrados e 500 cursos de extensão.

Talvez o experimento mais radical seja a Universidade de Phoenix. O dono rasga a fantasia, proclama seus objetivos de lucro na operação e cria um curso totalmente voltado para responder ao que querem seus alunos adultos e já no mercado de trabalho. A soberania do consumidor é levada ao extremo, por via de pesquisas de opinião. Os alunos querem ar condicionado na sala? Os alunos não querem dirigir mais de quinze minutos para chegar à escola? Não querem os horários da escola mas os que lhes servem? Os alunos não querem teoria, só o que dá para usar no dia seguinte no seu emprego? Não querem professores com diplomas acadêmicos mas profissionais praticantes? Querem aulas divertidas e brilhantemente ministradas? Então, é exatamente isso que oferece a escola. As vestais das universidades tradicionais se sentem ofendidas pelo comercialismo e pelo imediatismo da iniciativa. Protestam. Mas a Universidade de Phoenix prospera e já tem 40.000 alunos, embora não possua um campus, apenas salas alugadas por todas as partes.

Enfim, esse é o modelo americano. Há de tudo, para todos. Ali está o melhor do mundo, o mais ou menos e um ou outro curso que a polícia fecha. Há ensino para alunos que sabem sânscrito e para os que mal sabem ler inglês. A única regra que funciona para todos é que não se pode vender gato por lebre. Quem quiser comprar um diploma de Ph.D. impresso em cores está comprando apenas isso, custa 20 dólares. E é isso que vale. Como o vendedor não promete mais nada, não incorre em nenhum deslize legal.

Colaboraram os professores Daniel Levy e
Kelly Parmley, da Universidade de Albany, Suny




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