O PREDADOR

Os segredos de Francisco de Assis Pereira, o
"maníaco do parque", uma alma atormentada e terrível

Fotos: Claudio Rossi  
Maria Helena, Nélson e Tim (abaixo):
traumas de infância

Na tarde da quinta-feira passada, Maria Helena Pereira, 51 anos, o rosto devastado pelo sofrimento, sentou-se no chão de uma cela no prédio da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP, de São Paulo, olhou para o filho, acariciou a mão dele e apenas balbuciou a pergunta: "Tim, por quê?" "Tim" é o apelido familiar de Francisco de Assis Pereira, 30 anos, o maníaco do Parque do Estado, assassino e torturador confesso de dez mulheres. O pai de Francisco, Nelson Pereira, indagava repetidamente: "Onde foi que nós erramos? Onde foi que nós erramos? Onde foi que nós erramos?" Tim, encolhido no fundo da cela, entre o pai e a mãe, balançou a cabeça, os olhos inundados de lágrimas, e não respondeu. Em vez disso, tratou de estender para a mãe um manuscrito interminável, lavrado em letra hesitante num bloco de cartas, espécie de autobiografia. Por duas horas, a família vasculhou detalhes da infância e adolescência de Francisco, atrás de sinais que pudessem explicar onde e quando o menino Tim se transformou num predador. Os pais o bombardearam com perguntas. Queriam saber por que Tim não comentara com eles que havia sido molestado sexualmente por uma tia, por que não procurou um médico quando começou a sentir vontade de matar. E por que, afinal de contas, ele matou. "Ele disse que não conseguia pedir ajuda. Chegou a dizer que foi abandonado por Deus", conta Maria Helena. Entre uma pergunta e outra, os pais folheavam os escritos. "É tudo confuso. Parece que ele quer escrever sua história para ver se ele mesmo entende", diz Nelson Pereira. Foi o primeiro encontro da família desde a confissão de Francisco.

É difícil entender. No manuscrito, está o relato de um episódio passado há 22 anos. Para Francisco, um momento marcante. Quando tinha 8 anos, o menino matou um filhote de rolinha com um estilingue. Levou o passarinho para casa e tentou colocá-lo numa frigideira. Foi impedido pela avó, mãe de seu pai. Aos berros, ela acusava o garoto: "Assassino, você é um monstro". E deu a rolinha para um gato comer. Francisco conta que caiu num choro convulsivo, arrependido por ter tirado uma vida. Quatro anos depois, ele conta, pediu para trabalhar no açougue da família, na Vila Mariana, bairro de classe média de São Paulo. Ajudou o pai durante três anos. Trabalhou no caixa, no balcão e na entrega. Mas o que mais o marcou foram as visitas aos matadouros. Francisco descreve o morticínio das vacas com detalhes barrocos. Fala do sangue, dos uivos e do sofrimento dos animais. Outra lembrança de Francisco é a ojeriza por velórios. Detestava ver gente morta, ficava angustiado, queria sair correndo. "Era um menino sensível, sensível demais", lembra a mãe.

Histórias sobre psicopatas frios, capazes de planejar as piores torturas contra suas vítimas e, mesmo assim, dotados de um sentimento de profunda compaixão ou simpatia são um clássico quando se fala de assassinos em série. "Ele era um menino bom", diz a mãe. É isso que torna mais assustador o confronto do texto do sensível assassino de rolinhas com o depoimento colhido pelos investigadores do DHPP do mesmo Francisco, anos depois. Escrito no jargão policial, o depoimento não pode ser caracterizado como dramático. É de horror que se trata. Mostra, por exemplo, como o maníaco costumava atrair suas vítimas — com conversas "humildes e sinceras", segundo diz.

Como um caçador, Francisco parecia dotado de um radar para a tristeza alheia

É talvez a faceta mais triste dos assassinatos. Como um caçador, Francisco parecia dotado de um radar para a infelicidade alheia. Uma de suas vítimas, Selma Ferreira Queiroz, de 18 anos, desesperava-se porque acabara de perder o emprego numa farmácia. Francisco consolou-a. Outra, Rosa Alves Neta, de 21 anos, que ele encontrou no Parque do Ibirapuera chorando por um namoro desfeito, também viu em Francisco o solidário confessor. Mulheres infelizes e sós, que eram ferozmente traídas depois de conquistadas por um conto de fadas urbano. A certa altura, o depoimento diz: "O interrogando achava até interessante como conseguia ludibriar suas vítimas, pois usava praticamente um jogo de seduções, colocava para elas um mundo de fantasias, sendo que, para tanto, ouvia atentamente o que a pretensa vítima falava de sua vida, e rapidamente conseguia concluir qual a conversa mais agradável que a dominaria".

Para Selma, Francisco apareceu deslizando em patins — uma habilidade que ele aprimora desde criança. Como um super-herói, vestia camiseta e calção de lycra colados ao corpo esguio. Cores berrantes. Patinando, aproximou-se e já perguntou se podia conhecê-la melhor, "porque você é muito bonita e atraente", disse, lançando a isca. Começava o jogo. Selma, sem mais nem menos, passou a falar de sua vida, a contar que tinha perdido o emprego, a lamentar a má sorte. Falou que tinha esperança de reaver o posto e Francisco, é claro, garantiu-lhe que isso aconteceria. A conversa foi adiante, assistida por ninguém. As ruas estavam vazias. Era dia de jogo de Copa do Mundo, Brasil versus Dinamarca. O rapaz era tão legal que Selma concordou em ir até a casa dele, em Diadema. "Lá, quase trocamos beijos, mas o máximo que fiz foi acariciar os cabelos dela", lembrou o dom-juan assassino aos investigadores. Para Selma, o final do romance foi o passeio ao Parque do Estado, quando Francisco virou monstro. Foi assim também com Isadora Fraenkel, 18 anos, e Patrícia Gonçalves Marinho, 24 anos. Carinhoso, com Isadora por exemplo, Francisco entrou na mata do Parque do Estado de mãos dadas. Como doces namorados. Foi o que Francisco contou aos policiais.

Impulso canibal — Com Selma, como com as demais vítimas, o terror começou de repente. Francisco diz que foi tomado por um "lado ruim", descontrolado, independente de sua vontade. O promotor diz que isso é desculpa de advogado, para caracterizar a insanidade. Pode ser. O maníaco, conforme sua própria descrição, agarrou Selma de frente e, gaguejando de nervoso, disse a ela para não reagir, não fazer nada. "Eu olhava firme nos olhos dela e via crescer o terror nela, enquanto eu a acariciava e beijava na boca. Isso me causava muito prazer", disse Francisco. Ele mandou a moça tirar a roupa e deitar no chão, de bruços. Violentada, Selma foi enforcada com um barbante. Depois, num impulso canibal, ele passou a mordê-la, queria arrancar nacos dos braços, pernas e partes íntimas. Alternava isso a carícias lânguidas no cadáver, deitado ao lado do corpo. A narração inclui uma menção — a mais chocante de todo o depoimento —, mas que ajuda a explicar por que foram encontrados tão poucos resquícios de sêmen no corpo de Selma, a ponto de inviabilizar o teste de DNA que a polícia pretendia fazer, antes da confissão, para provar que era Francisco o assassino: "[No momento da violência,] o interrogando detinha uma ereção completamente anormal ao seu padrão e não queria ejacular em virtude de só querer dominar, tomar para si, não dar nada em troca. Ao seu ver, ejacular seria dar algo de si para Selma. Mas ele só queria tirar dela".

Com as outras vítimas, Francisco usou um método muito parecido, o tal padrão que caracteriza os assassinos em série. Diz que quase sempre torcia para que as vítimas desistissem de acompanhá-lo. Teria sido assim com a gaúcha Raquel Mota Rodrigues. Ele conta que a conheceu enquanto perambulava entre os vagões do metrô "caçando como um predador". A moça topou ir até o Parque do Estado e até esperou que ele fosse em casa pegar a moto. "Quando eu estava retornando, torcia para que Raquel tivesse desistido da espera. Eu tinha certeza de que se a encontrasse ela seria morta. Infelizmente, Raquel esperou por mim", disse.

Medo de velório
e, aos 8 anos, a
rejeição da avó
paterna: "Você é
um monstro!"

Os psiquiatras sabem que não existem dois psicopatas iguais, mas costumam dizer que entre eles existem algumas características bem marcadas, comuns. VEJA pediu aos pais de Francisco que tentassem vislumbrar no comportamento do filho manifestações de algumas dessas características. Eles tentaram lembrar de comportamentos ou situações vividas por Tim que poderiam encaixar-se nesses padrões. Um deles — e talvez o mais clássico — é a existência de traumas sexuais na infância. Francisco diz ter sido molestado por uma tia de nome Diva, irmã de sua mãe, quando tinha 7 anos e morava em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Os pais dizem que nunca foram informados de histórias de abuso em casa. Mas confirmam a existência da tal tia e asseguram que ela, de fato, estava por perto de Francisco nessa época. Há alguns anos, Diva perdeu o contato com a família.

Outras características são, segundo o criminologista americano Eric Hickey, autor de Assassinos em Série e Suas Vítimas, "a baixa auto-estima e o sentimento sempre presente de solidão". Tim era caladão, reservado, o mais esquivo dos três filhos do casal. Era o que menos atenção recebia de uma das avós, a mesma que o chamou de "assassino" por causa do episódio com a rolinha. Essa avó era uma presença forte na família. Durante a infância e adolescência, Francisco nunca teve medo do perigo. Gostava de velocidade e de altura. O gosto pelas acrobacias sobre patins e pela motocicleta vem daí. À noite, porém, a coragem desaparecia. Desde muito pequeno Francisco é atormentado por terrores noturnos. Acordava suado e aos prantos, exatamente como diz em seus depoimentos. Ainda menino, pulava para a cama dos pais e dizia ter sonhado com mulas-sem-cabeça e sacis. O pai atribuía esse repertório à tradição de superstição da família. "Achava que ele ficava impressionado com as conversas dos adultos."

As transformações de Francisco também não são novidade. Na família, ele é descrito como um sujeito calmo, boa-praça, mas que não pode ser contrariado. "É difícil conseguir contrariá-lo. Mas, se isso acontece, ele fica com o corpo tomado pela raiva", diz a mãe. Francisco teve algumas crises de fúria que entraram para a história da família. Uma delas foi no dia em que deveria apresentar-se ao Exército. Ele se recusava a acordar, apesar da insistência da mãe. Irritado, o pai foi até seu quarto e o obrigou a ficar de pé. Francisco começou a suar muito, teve tremores no corpo. Gritava que não se apresentaria e esmurrava a parede. "Os dentes dele rangiam tanto que eu ouvia de longe", conta Maria Helena. O pavor de Francisco tornou-se motivo de chacota na família. Até que ele se revelou um psicopata e tudo pareceu fazer um perverso sentido.

Longe de se tratar apenas de informações que aumentam o tom macabro da história, os detalhes da personalidade de Francisco, o dia-a-dia, atitudes, crenças e valores vão ser decisivos na Justiça. São esses relatos que irão determinar seu destino nos próximos anos. A maior questão a ser resolvida daqui para a frente será sobre a sanidade mental de Francisco. Para as pessoas comuns, é lógico que ninguém que tenha um comportamento como o do assassino do parque pode ser considerado normal. Para a Justiça, essa é uma questão ainda aberta. Mesmo em casos terríveis como o do serial killer americano Jeffrey Dahmer, que em 1991 foi preso depois de uma seqüência de assassinatos, violências sexuais, esquartejamentos e canibalizações, essa dúvida se colocou. A questão é levar a apuração até o ponto que defina se, no momento dos crimes, o assassino tinha conhecimento de que cometia uma monstruosidade. Se sim, reza a jurisprudência americana, o réu vai para a cadeia — ou para o corredor da morte, nos Estados em que existe a pena capital. Se não, vai para o manicômio judiciário.

É a esse ponto que a promotoria do caso "maníaco do parque" se pega. Ficou claro no depoimento que Francisco tinha noção de que cometia os crimes. Cadeia para ele? A defesa de Francisco agrega outro fator. Ele teria a exata noção dos delitos que cometia, mas não conseguia dominar seu "lado escuro", como diz. Manicômio judiciário, então. Se for para o hospício, de lá Francisco provavelmente não sai mais, já que a psiquiatria não registra casos de cura em transtornos de personalidade como os que afetariam o maníaco. Se a promotoria vencer, Francisco será considerado imputável. Cumprirá trinta anos de cadeia e sairá aos 60 anos para as ruas. Na sexta-feira, Francisco foi transferido para a Casa de Custódia de Taubaté, um presídio de segurança máxima a 134 quilômetros de São Paulo. Foi de lá que outro assassino famoso, o Bandido da Luz Vermelha, saiu mais louco do que entrou, depois de cumprir trinta anos de pena, para morrer, logo após tentar atacar um homem. Francisco não sabe quando vai sair da Casa de Custódia. Por enquanto, só quer acabar de contar sua história.

Com reportagem de Angélica Santa Cruz e Bruno Paes Manso




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