Doutor barbárie

Bêbado, médico ateia fogo em rapaz durante
festa de estudantes no interior de São Paulo

Rodrigo Peccini:
isqueiro e
corpo em chamas
Foto: Álbum de Família  

Diz o artigo 6º do Código de Ética Médica: "O médico deve guardar absoluto respeito pela vida humana, atuando sempre em benefício do paciente. Jamais utilizará seus conhecimentos para gerar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade". À 1 e meia da madrugada do dia 7, uma sexta-feira, o médico Leandro Oliveira Pinho, de 27 anos, atentou contra a vida do estudante Rodrigo Favoretto Cañas Peccini, de 19. Impingiu-lhe um sofrimento terrível. O doutor não estava no exercício da profissão, mas participava da festa anual dos alunos do curso de medicina da PUC de Sorocaba, no interior paulista — uma bobagem chamada Mara-Toma, em que os jovens varam a noite bebendo até cair. Foi tudo muito rápido. O doutor Pinho acendeu um isqueiro e aproximou a chama de Rodrigo. Molhado pelo álcool que dois outros colegas tinham lançado sobre ele, o garoto pegou fogo. Sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau em 24% do corpo. Na semana passada, o doutor Pinho foi indiciado por tentativa de homicídio. Se condenado, pode pegar até dez anos de cadeia. Corre o risco ainda de perder o direito de exercer a medicina.

Depois da morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo em 1997 por cinco jovens de Brasília, ninguém desconhece as conseqüências de atear fogo num ser humano. Mas, como os adolescentes, Pinho contou à polícia que não imaginava estar colocando a vida de alguém em risco. Bêbado no momento em que acendeu o isqueiro, julgava que o líquido jogado sobre Rodrigo era água, e não álcool. "Era apenas uma brincadeira", disse. Não convenceu a polícia. "Não importa se era água ou álcool, por sua formação técnica, ele tinha total consciência da gravidade de seu ato", defende o delegado Celso Araújo. A barbárie aconteceu na república da máfia. Rodrigo havia chegado às 10 e meia da noite. Como a maioria, bebeu de tudo: vodca, uísque, conhaque, cerveja, pinga. O jovem, estudante do 2º ano de medicina, logo foi derrubado pela embriaguez. Estava largado num dos corredores da casa quando Marcelo Guimarães Tiezzi, 23 anos, 5º ano, e Rodrigo Borstein Martinelli, 24 anos, 6º ano, despejaram o álcool sobre ele.

O dentista Peccini,
pai do estudante:
"Meu filho foi vítima
de delinqüentes"
  Foto: Antonio Milena

Tiezzi e Martinelli foram indiciados por colocar a vida de terceiros em risco. Pelo crime, podem ficar de três meses a um ano atrás das grades. Não é a primeira vez que os dois se envolvem em jogos bandidos. Em março, com outros dezesseis veteranos, submeteram alunos recém-chegados a trotes atrozes, como obrigar calouras semidesnudas a arrecadar dinheiro para suas bebedeiras ou forçar colegas a mergulhar em tinas cheias de urina. Tiezzi foi suspenso por um mês e Martinelli, por vinte dias.

O caso do "doutor" Pinho é ainda mais grave. Ele assume ter presenciado o sofrimento de Rodrigo em chamas e não ter feito nada. "Fiquei atônito, em estado de choque", conta. Enquanto ele olhava para as labaredas, outros convidados socorriam Rodrigo. Formado há três anos, filho de um engenheiro e uma orientadora vocacional, desde a tragédia Pinho raramente sai de casa. Enquanto isso, Rodrigo continua internado no setor de queimados do Hospital Regional de Sorocaba. Na sexta-feira passada, o rapaz passou pela primeira das cinco cirurgias às quais deve ser submetido nos próximos quarenta dias. "Meu filho foi vítima de delinqüentes, pessoas que devem ser afastadas da sociedade", diz o dentista Mário Peccini, pai de Rodrigo.

Samarone Lima




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