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José
Ari Degrandis, o frei acusado, num batizado em 1996: "É perseguição" |
| Fotos: Liane Neves |
O sonho de P., 18 anos, era ser freira. Quando criança, desfilava pela casa com uma toalha branca cobrindo os longos cabelos loiros, como um véu. Compenetrada, ela se preparava para a vida religiosa desde os 16 anos, época em que se tornou catequista na paróquia São Judas Tadeu, em Porto Alegre. Era virgem e nunca teve namorado. Com ar ingênuo e fala mansa, P. conta que, em uma noite de junho de 1996, viveu o pior drama de sua vida. "Fui violentada." Seria mais um dos inúmeros casos de estupro registrados nas delegacias, não fosse o acusado um dos padres da paróquia. O relato de P. faz parte de um processo criminal de estupro movido por ela e por M., uma ex-funcionária da casa paroquial de 24 anos, contra o frei capuchinho gaúcho José Ari Degrandis, 48 anos.
No Juizado Especial Criminal tramita ainda um segundo processo contra Degrandis, este por importunação ofensiva ao pudor. L., 21 anos, que também trabalhava na igreja, acusa o sacerdote de tê-la abraçado e beijado. A Themis Assessoria Jurídica, uma ONG coordenada por advogadas feministas, entrará com um pedido de indenização contra a Igreja Católica, acusada de saber dos fatos relatados nesses processos sem ter tomado nenhuma providência contra o padre. Os crimes teriam acontecido entre junho de 1996 e janeiro de 1998. Degrandis, que está afastado da paróquia São Judas e da escola onde dava aulas, será interrogado no dia 2 de setembro.
Na cozinha P. conta que conheceu o frei nos cursos em que participava como catequista. Certo dia de 1996, em uma festa na igreja, foi aconselhada a dormir lá. No meio da noite, foi acordada. "O frei estava sentado na minha cama e passava as mãos em meu corpo", conta. Em seguida, o religioso tapou sua boca, arrancou-lhe a camiseta e a estuprou. P. se afastou da paróquia e desistiu do curso de teologia. No ano passado, o frei procurou a garota em frente de sua escola. "Ele me pegou pelo braço e me empurrou para dentro do carro. No motel, me deu um tapa e me violentou." P. denunciou os dois estupros ao superior do frei, o provincial Sérgio Dal Moro. Na polícia, Dal Moro confirmou que ouviu o relato da moça, mas nem mandou investigar porque o frei negou tudo. "Entre a palavra dela e a dele, fiquei com a do frei", explicou.
M., que trabalhou na limpeza da casa paroquial durante um ano e meio, afirma que o frei a agarrou na cozinha, numa noite de dezembro passado. "Pode gritar. Quem vai acreditar na palavra de uma faxineira?", teria dito ele. M. contou o caso a um outro frei, que disse não poder fazer nada. Deixou o emprego. L., a moça que processa o frei por assédio sexual ou "importunação", como dizem os advogados, conta que um dia Degrandis enlaçou sua cintura e beijou seus seios. "Antes ele me abraçava demais, mas eu não pensava em maldade", lembra. "Afinal, ele é padre, né?"
O currículo acadêmico de frei Degrandis é respeitável. Ele é pós-graduado em formação de catequistas pelo Instituto Louvain-la-Neuve, de Bruxelas, formado em filosofia pela Universidade de Caxias do Sul e em teologia pela PUC gaúcha. Também é assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, no Rio Grande do Sul. Degrandis argumenta que as acusações são perseguição devido à sua militância esquerdista. "Sou inocente, por trás dessas histórias existem interesses econômicos e ideológicos", afirmou a VEJA sem, no entanto, revelar quais seriam esses interesses. A cúpula da Igreja Católica não comenta o caso. O bispo Thadeu Canellas, responsável pela área em que o frei atuava, disse à polícia lembrar-se de ter ouvido comentários sobre o comportamento de Degrandis. "Mas são tantas as reclamações que não posso me lembrar de tudo", desprezou.
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Cristine Prestes e Marta Cioccari
Copyright © 1998, Abril
S.A. |