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| Montagem sobre fotos de Marcelo Zocchio |
Quando tinha 10 anos, Carolina Caetano, hoje estudante do 2º colegial da escola Pereira Barreto, em São Paulo, começou a sentir falta de ar. Sofria intermináveis dores de cabeça, chorava sem motivo aparente e enjoava com facilidade. A família decidiu levá-la ao pediatra. O diagnóstico foi uma surpresa. Carolina tinha um problema que todo mundo achava ser exclusivo de adultos: stress. "Fiquei pasma quando a médica me deu a notícia", conta a mãe, a analista de sistemas Maria Silvia, de 45 anos. O stress infantil é um problema ainda pouco conhecido pela maioria dos pais, mas já atinge proporções mundiais. Segundo o Instituto Americano de Stress, com sede em Nova York, oito em cada dez consultas pediátricas nos Estados Unidos estão relacionadas ao problema. No Brasil, pesquisadores da Universidade de São Paulo, USP, concluíram que dois terços das crianças entre 6 e 14 anos que vivem nas grandes cidades apresentam sintomas de stress. Doenças como asma, bronquite, resfriado, freqüentes dores de cabeça e alergias são muitas vezes decorrentes do stress, que tem entre seus efeitos mais conhecidos a fragilidade no sistema imunológico. Em situações extremas, pode levar a crises de depressão ou até mesmo ao suicídio. De acordo com psicólogos, o número de pais que procuram ajuda terapêutica para seus filhos no Brasil por essa razão triplicou nos últimos cinco anos. Há crianças pequenas freqüentando consultórios. Algumas são tratadas à base de remédios como o Prozac, o antidepressivo mais vendido no mundo.
O aumento dos casos de stress entre
crianças se deve, principalmente, a uma mudança de
comportamento. Antigamente, as crianças ficavam mais
soltas na rua e descarregavam a tensão em brincadeiras
que envolviam exercícios físicos nos quais se exigiam
menos resultados que nos esportes atuais. Era o jogo de
esconde-esconde, a amarelinha, o pega-pega. Hoje, a maior
parte das crianças urbanas brinca em apartamentos ou
playgrounds de condomínios. A prática esportiva, por
sua vez, quase sempre envolve competição e avaliação
de desempenho. O número de amigos também se tornou mais
restrito. "A criança perdeu a liberdade de ser
criança", diz a psicóloga Ângela Massi, que tem
entre os clientes de seu consultório em São Paulo
pacientes de 3 anos de idade. "O estilo de vida das
crianças está se aproximando ao dos adultos",
afirma Esdras Vasconcellos, diretor do Instituto Paulista
de Stress. "Por isso, sofrem do mesmo mal." A
história de Carolina Caetano é exemplar. Ela vivia com
a agenda carregada. Dividia seu tempo entre a escola,
aulas de balé, natação e escotismo. A receita médica
foi interromper todas as suas atividades extras e
escolher só uma, voltada para o desenvolvimento
emocional. Foi quando ela começou a fazer teatro. Hoje,
seis anos depois, Carolina não sente mais sintomas de
stress. A mudança teve implicações também na vida da
mãe, que reduziu pela metade sua antiga jornada de
trabalho, de dez horas diárias. "Percebi o quanto
era importante acompanhar o crescimento da minha filha
mais de perto", diz. "Tive de me sujeitar a
ganhar menos, mas valeu a pena."
Clima de suspense O stress infantil é semelhante ao dos adultos em muitos aspectos. Poucas pessoas estão preparadas para ser submetidas à competição e à ansiedade de forma contínua. O meio urbano é uma experiência relativamente nova para o ser humano, cuja estrutura biológica ainda não está plenamente adaptada para as pressões produzidas nesse ambiente. Originária das savanas africanas, a espécie humana evoluiu no meio rural durante centenas de milhares de anos. As cidades surgiram apenas nos últimos 10.000 anos. Até metade deste século a imensa maioria da população mundial vivia no campo. É natural, portanto, que os fatores que causam stress se tenham multiplicado. No caso das crianças, o problema se agrava quando elas não têm tempo ou espaço para brincar e se preparar naturalmente para os desafios da vida adulta. O convívio exagerado com jogos de computador ou videogames também contribui para o stress. Além de substituir outras atividades, os jogos eletrônicos exigem alta concentração e, na maior parte das vezes, baseiam-se na obtenção de resultados, o que mantém a criança mergulhada em um clima de suspense e ansiedade.
Atividades físicas e intelectuais são muito bem-vindas. O problema é o exagero. Para compensar a vida reclusa das crianças, os pais as matriculam em uma série de cursos que tornam sua agenda carregada como a de executivos mirins. Em muitos casos, mantêm os filhos abarrotados de compromissos por não dispor de tempo para se dedicar a eles pessoalmente. Isso só reforça a sensação de culpa quando a criança começa a apresentar sinais de esgotamento. Foi a queda no rendimento escolar que chamou a atenção dos pais do carioca Felipe de Araújo Magno Lins, quando ele tinha 8 anos. Sua agenda era tão apertada que muitas vezes mudava de roupa dentro do carro, entre uma aula e outra. "Foi falha nossa não ter percebido o exagero", diz seu pai, o comerciante José Carlos Lins, de 40 anos. Três anos depois, Felipe cortou alguns de seus cursos, manteve outros, como as aulas de judô, e voltou a ter notas melhores na escola. "Desde que parei de fazer tanta coisa, eu me sinto melhor, mais livre e feliz", conta ele.
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Felipe
Lins (sentado), com os colegas de judô: agenda mais livre e vida melhor |
| Foto: Renan Cepeda |
Infelizmente, cursos de natação, futebol, ginástica ou outros esportes nem sempre cumprem plenamente a função lúdica na vida de uma criança. "As exigências físicas e psicológicas do esporte que é oferecido para as crianças hoje em dia estão muito acima do normal", diz o professor de psicologia Dante de Rose Júnior, da Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo. Ele fez uma pesquisa com 219 crianças de idade entre 10 e 14 anos às vésperas de competições e descobriu que 20% delas tinham sintomas de stress, como respiração ofegante, rouquidão, suor frio, visão embaçada e tremedeira. "Pais e técnicos acham que a criança tem de ganhar sempre e esquecem seus limites", afirma Rose Júnior. "A competição é saudável quando não há cobrança excessiva."
Figura ameaçadora Fácil de falar, difícil de fazer. Foi o que pôde comprovar o chefe de departamento de psicologia básica e professor das Faculdades Metropolitanas Unidas, FMU, Armando Chibante Pinto Coelho, que teve o problema em sua própria casa. "Eu e minha mulher começamos a perceber que, literalmente, não estávamos deixando nosso filho respirar", conta. Aos 5 anos, Bruno tinha crises intermináveis de bronquite. O casal começou a superproteger o menino e não permitia que ele fizesse mais nada. Bruno não podia andar descalço nem tomar sorvete. "Nós o levamos ao médico e descobrimos que a bronquite era psicossomática, tinha fundo emocional", afirma Coelho. Depois da visita ao pediatra, ele decidiu deixar o filho mais à vontade. Hoje com 12 anos, Bruno leva uma vida mais tranqüila e não tem mais os surtos que obrigavam a família a levá-lo na madrugada para o hospital.
| Carolina
Caetano: aula de teatro para aliviar tensão e desenvolver a parte emocional |
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| Foto: Egberto Nogueira |
Em geral, boa parte da responsabilidade pelo stress a que é submetida a criança pode ser atribuída aos pais. Na FMU, em uma pesquisa com oitenta crianças entre 7 e 10 anos foi constatado que, para elas, os pais representavam uma figura ameaçadora. "A criança tornou-se porta-voz da doença da família", diz José Augusto Rossetto Jr., diretor da Faculdade de Psicologia da FMU. Hoje, 70% dos pacientes que os psicólogos da faculdade recebem em seus consultórios são crianças. Muitas delas sofrem por parte dos pais a pressão pelo perfeccionismo, que em vez de sucesso pode levar ao fracasso. Nessas circunstâncias, a criança começa a se autodesvalorizar, sente culpa e cai em depressão. A demora para detectar o problema pode agravar a situação e gerar um conflito familiar. "A criança sufocada pode-se tornar agressiva ou apática", afirma o psiquiatra Vladimir Bernik, da Clínica de Stress de São Paulo. "Sua resistência imunológica cai, dando oportunidade para o surgimento de mais doenças, não só físicas como psiquiátricas. É o caso da depressão."
Apesar das pressões da vida moderna, ninguém está fatalmente condenado a conviver com o stress. O problema é sério, afeta milhões de pessoas, mas pode ser enfrentado de forma mais simples do que muita gente imagina. Os conselhos de médicos e psicólogos para combater o stress são os mesmos para adultos e crianças. É preciso diminuir a carga de compromissos quando a pessoa não consegue dar conta de todos eles e dedicar mais tempo ao lazer sempre que possível. Passeios de fim de semana ajudam muito. No caso das crianças, a casa deve ser um lugar acolhedor. Obviamente, é papel dos pais cobrar delas bons resultados na escola ou em qualquer outra atividade. Mas isso funciona muito melhor quando é feito sem exagero e num ambiente de amparo e carinho. Quando a receita funciona, a família inteira agradece.
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Veja o número de respostas positivas. Se for... Menor que 10 Sua vida precisa ser imediatamente reorganizada. Procure ajuda profissional De 10 a 12 A criança está vulnerável ao stress De 13 a 16 A criança está equilibrada e o risco de apresentar problemas físicos e psíquicos decorrentes do stress é pequeno Maior que 16 A criança está muito saudável e bem preparada para o futuro * Este teste foi feito por especialistas do centro médico da Universidade de Boston e adaptado pela Clínica de Stress de São Paulo |
Com reportagem de Virginie Leite, do Rio de Janeiro
Copyright © 1998, Abril
S.A. |