Milagres acontecem

Com manuais e assessoria, homens e
mulheres cuidam da aparência para subir na vida

Dagmar Serpa

Foto: Álbum de Família Foto: Frederic Jean
Maria Cristina, antes, (mal) produzida
para uma festa, e agora, em pose de
artista com poodle e tudo: "bonita e
segura" com cabelo curtinho realçado
por cachos naturais, maquiagem suave,
brincos delicados, roupa inteira numa
cor só, decote em V e salto 5 para
alongar a silhueta de 1,57 metro de altura

Conceito impreciso, daqueles que cada um vê de um jeito, boa aparência já é, para o bem ou para o mal, item essencial no currículo da maioria dos profissionais ambiciosos. Mesmo os homens, para quem durante eras o máximo do bem-vestir profissional foi usar um terno qualquer, com uma gravata qualquer e camisa branca, estão capitulando em massa aos novos tempos. Nos Estados Unidos, torraram só no ano passado perto de 51 bilhões de dólares com roupas e acessórios, um aumento de 10% em relação a 1995 — enorme para uma economia rica, em que todo mundo já tem de tudo. Mas não se trata só de invadir as lojas e comprar o que está dependurado. A elegância de resultados, para quem trabalha em ambientes convencionais, segue uma etiqueta específica: sóbria, pouco dada a arroubos e, ao mesmo tempo, carregada de códigos nos menores detalhes. Por isso mesmo fica difícil distinguir entre o certo e o sem graça, e mais difícil ainda arriscar sem derrapar na gravata com figurinha do Mickey ou no vestido espalhafatoso demais. Empurrados pela necessidade desses tempos em que a palavra empregabilidade provoca calafrios na espinha (e pelo eterno imperativo da vaidade), homens e mulheres buscam orientação em palestras, manuais e em um novo santo milagreiro: o consultor de imagem. Originalmente luxo de artistas e políticos, eles se disseminam cada vez mais entre gente disposta a desembolsar de 80 a 150 reais a hora por assessoria especializada na reforma no visual.

Pagar a alguém para dizer o que uma pessoa deve vestir parece uma idéia estranha. Soa a intrusão numa esfera particularíssima, insegurança terminal, coisa de novo-rico. Basta olhar para as fotos à direita para que boa parte desses argumentos desabe por terra. A transformação operada pelos consultores de imagem (personal stylists, na versão pernóstica) é impressionante. "Nos Estados Unidos, do recém-formado ao executivo, ninguém tem vergonha de procurar ajuda", diz a consultora Christiana Francine, numa ofensiva contra as resistências naturais. A paulista Maria Cristina Rubino de Oliveira, 40 anos, oferece um exemplo prático. No começo deste ano ela mudou de atividade — fechou uma fábrica de embalagens onde vivia metida em leggings, camisetas e tênis e foi ser gerente de uma loja de decoração — e de aparência. Orientada pela consultora Lilian Trebilcock, aprendeu, por exemplo, que "baixa e cheinha" nunca pode prescindir de "um pouco de salto" e que roupas de uma cor só e decotes em V "alongam a silhueta". Cristina considera que os 2.300 reais gastos entre compras e consultoria valeram a pena. "Eu me sinto bonita e tenho maior segurança", diz.

Foto: Álbum de Família Foto: Frederic Jean
Rosana e Maurício, antes, (mal) vestidos
para o trabalho, e depois da reforma do
seu guarda-roupa: visual monocromático,
decote em U para disfarçar o volume dos
seios e meia escura para afinar as pernas
dela; terno reto com poucos detalhes no
lugar de camisas de seda, modelos largos
e barra italiana dele

Desleixo fatal — A regra de ouro passada pelos consultores é: não exagere e, na dúvida, não arrisque. "No trabalho, quem arrisca demais no vestir não petisca promoção", brinca a consultora de etiqueta profissional Célia Pereira Leão, que cuida não só da fatiota, mas também das boas maneiras dos clientes. Discrição, no entanto, pode acabar sendo sinônimo da mais desbotada sem-gracice, um sacrifício para a natureza exuberante dos brasileiros (ou, principalmente, brasileiras). O problema é: ousar quanto? No ranking dos figurinos que chamam a atenção, grandes ousadias são para pouquíssimas pessoas. Médias ousadias, só para quem está muito seguro do que faz — não vale pôr decote e passar o dia puxando a blusa para cima. Pequenas ousadias, porém, são bem-vindas: um toque de cor forte, uma bijuteria elegante, um belo par de óculos, um corte de cabelo mais radical. Foi justamente para aprender a ousar que o empresário Dante Seferian recorreu a um consultor. Aos 25 anos, físico bem proporcionado, ele sentia-se incomodado com a mesmice de seus ternos. "Via empresários com o dobro da minha idade vestindo roupas idênticas", lembra. Agora, usa paletó de três botões, sapato de bico quadrado, gravatas de estampas modernas e camisas claras, que, aprendeu, "iluminam" a pele morena.

Árvore de Natal — Sem consultoria, a assessora de diretoria Marisa Almeida, 31 anos, mudou ao ouvir, em palestra sobre moda no trabalho, que, na bíblia da profissional bem vestida, saia curta demais é pecado. Logo em seguida foi para uma reunião, cruzou as pernas e viu na hora que o comprimento da sua estava exagerado. "Me senti desconfortável com as pernas tão descobertas", conta. "Agora, uso logo acima dos joelhos." Por obra da mesma palestra, Marisa cortou os cabelos, que "passavam dos ombros". Cabelos e unhas impecáveis, ensinam os consultores, são sempre essenciais, da mesma forma que sapato bem engraxado e cinto sem marcas de desgaste. "Desleixo é fatal para homens e mulheres", avisa Lilian Trebilcock.

Seferian aprende
a ousar: visual
mais moderno
para se distinguir
Foto: Frederic Jean  

Ao cobrar boa aparência, as empresas mais exigentes não querem fazer apologia do savoir vivre e, sim, encontrar profissionais adaptados a seu perfil. "A aparência faz parte da competência", decreta Maria Sílvia Pedrosa, gerente de recrutamento e seleção do BankBoston, onde todos os recém-contratados passam por um curso de etiqueta e elegância profissionais. Mais radical, a TAM, como toda companhia aérea, recorre ao uniforme, mas não pára por aí. Em aulas com cabeleireiro, maquiador e esteticista, suas funcionárias se encaixam num padrão que vale para terra e ar: maquiagem discreta, topetinho, rabinho na nuca, gel à vontade. Em campanha eleitoral, então, boa aparência é artigo obrigatório até nos bastidores. Um dos coordenadores da campanha de Fernando Henrique Cardoso à reeleição, Expedito Prata, que habitualmente capricha no visual, atreveu-se na semana passada a aparecer no comitê em trajes mais descontraídos e ouviu uma bem-humorada bronca da colega Bia Aydar. No dia seguinte, foi trabalhar arrumadíssimo. "Fiz questão de aparecer com terno completo, todo bonitinho", diz.

O olhar treinado dos profissionais da imagem pode ser valioso na etapa mais importante do bem-vestir, que precede a imolação dos cartões de crédito: esmiuçar o formato e as dimensões do próprio corpo. "Para vestir-se bem, é importante olhar-se no espelho e conhecer seu biotipo", ensina o jornalista Fernando de Barros, expert em elegância masculina. "A maior dificuldade é saber usar as proporções", concorda Christiana Francine. A empresária Rosana Almeida, 37 anos, não sabia, mas aprendeu. Com a consultora Ilana Berenholc, desvendou os mistérios das cores, decotes e saltos que alongam e afinam seu 1,54 metro de altura. Repaginadíssima, investiu contra o guarda-roupa do marido e sócio, Maurício Bianchi, 36 anos, fã das gravatas berrantes e camisas de seda coloridas. "Às vezes, eu parecia uma árvore de Natal", confessa Maurício, que no entanto só sucumbiu diante do argumento de que precisava aprender a "usar a roupa em prol dos negócios". Agora, livre de críticas e bem treinado, garante: "Melhorar a imagem faz parte do crescimento profissional".




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