Ceará

Paraíso sitiado

Construções irregulares e lixo ameaçam Jericoacoara

Conjunto de casas
sobre as dunas:
ilegalidade confirmada
pelo Ibama
Foto: Tibico Brasil  

A Praia de Jericoacoara, a 320 quilômetros de Fortaleza, é uma das mais belas jóias do litoral brasileiro. São quilômetros de dunas de areia branca e fina, entremeadas por coqueiros, lagoas de água azul-turquesa e uma simpática vila. Os turistas mais recentes, no entanto, têm deparado com surpresas desagradáveis em meio ao cenário deslumbrante. Por uma mistura de irresponsabilidade da prefeitura local com negligência do órgão federal responsável pela proteção ambiental, o Ibama, o paraíso agora tem lixões sobre dunas, pousadas irregulares à beira de lagoas e um conjunto habitacional em local impróprio.

O descaso com o meio ambiente não atinge só a Praia de Jericoacoara, mas também a vizinha Jijoca de Jericoacoara, sede do município. "É um sofrimento ver essa região ser destruída", diz Geraldo Loiola, ex-chefe da Área de Proteção Ambiental de Jericoacoara. "Fiz várias reclamações à sede do Ibama, mas o único resultado que obtive foi minha transferência da cidade." Parte do lixo da vila está sendo jogada sobre uma duna. Além do estrago visual, o movimento natural das dunas está arrastando a sujeira na direção do mar. Na Lagoa de Jijoca, o problema é ainda pior. Lá os dejetos são depositados numa parte da lagoa que fica seca nesta época do ano. Quando as chuvas de verão chegarem e a lagoa encher, o entulho será carregado para dentro das águas cristalinas da lagoa. Outra ameaça é a construção de casas e pousadas à margem da lagoa, em desrespeito ao limite de 50 metros de distância exigido por lei. Além disso, o soterramento de um dos córregos que abastecem a lagoa para a construção de uma estrada está diminuindo seu tamanho.

A obra mais polêmica é a do conjunto habitacional de 36 casas feito sobre um vale por onde a lagoa deságua para o mar quando fica cheia. O problema do condomínio, aprovado pelo Ibama, veio à tona depois que alguns moradores, liderados pela ONG Lagoa Viva de Jijoca, conseguiram suspender a construção de uma ampliação do conjunto que ficaria de frente para o mar. Há três semanas, depois de vários apelos, o Ibama, finalmente, mandou novos técnicos ao local. Na visita, eles reafirmaram os problemas já constatados e levantaram outros. Uma colina que impede que as dunas avancem sobre o vilarejo está ameaçada porque os turistas desrespeitam a obrigação de não andar sobre ela de carro. A erosão já atinge 40% da elevação.

Ana Pessoa, de Jericoacoara




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line