O que sobrou do verde

Dois terços das florestas do planeta foram destruídos.
A devastação hoje se concentra nas matas tropicais

Alexandre Mansur

A prisão de madeireiros que compravam mogno ilegalmente dos índios caiapós, na semana passada, é um exemplo de como a devastação de florestas tropicais atingiu proporções alarmantes. Do sul do Pará, onde ocorreu a ação da Polícia Federal e do Ibama, à Indonésia, no Sudeste Asiático, a situação é cada vez mais dramática. O ritmo da destruição nunca foi tão grande. Dez mil anos atrás, quando os seres humanos começaram a cultivar lavouras e a erguer as primeiras cidades, 55% das terras do planeta eram cobertas por florestas. Hoje dois terços dessa vegetação não existem mais. As florestas resumem-se a menos de 20% dos continentes. As tropicais são o alvo predileto das queimadas e da extração de madeira. Entre 1960 e 1990, um quinto delas foi destruído em velocidade industrial. Seis países sozinhos foram responsáveis por 58% desse total: Brasil, Indonésia, Congo, Bolívia, Malásia e Venezuela. Apenas nos últimos três anos o Brasil devastou uma área quase igual à da Bélgica e da Holanda somadas. Isso representa 11% de tudo o que já foi derrubado na Amazônia desde que a região foi descoberta pelos europeus, quatro séculos atrás.

Na ação da semana passada foram apreendidas na reserva dos caiapós 600 toras de mogno, a madeira mais nobre da região, avaliadas em 1,5 milhão de reais. Os funcionários das madeireiras trabalhavam sob a proteção de oito índios armados com carabinas calibre 22. A prisão deles é um caso raro de ação do governo numa área em que a impunidade dos madeireiros e a omissão das autoridades contribuíram para a destruição. Na Amazônia, grande parte das madeireiras age fora da lei, não paga impostos nem encargos sociais e derruba a mata sem nenhuma preocupação ecológica. Ultimamente, essas empresas têm preferido comprar madeira extraída ilegalmente de reservas indígenas. O motivo é que, pela lei brasileira, os índios não podem ser condenados por isso. O máximo que o Ibama pode fazer é apreender a madeira e tentar enquadrar os funcionários das madeireiras pegos em flagrante negociando com os índios. O governo admite que 80% do comércio de madeira no país é irregular. "O pior desse processo é que a floresta se perde e pouca riqueza é gerada", afirma Alberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Imazon. "O excesso de oferta promovido pela exploração ilegal puxa os preços da madeira para baixo."

A situação se repete nas outras regiões do planeta onde ainda há florestas tropicais. A Indonésia, segunda colocada no ranking da devastação, atrás do Brasil, pôs no chão, apenas no ano passado, 20.000 quilômetros de florestas, o equivalente ao Estado de Sergipe. Além de um novo ritmo, a destruição das florestas tropicais tem motivações diferentes da que devastou os bosques temperados séculos atrás. Os europeus e americanos derrubaram as árvores para utilizar os solos férteis que elas escondiam ou para expandir áreas urbanas e industriais. Para as regiões tropicais, essa fórmula não funciona. Na Amazônia, estima-se que apenas 9% do solo tenha aptidão para a agricultura. Na área restante, a camada fértil é pouco profunda e não sustenta as plantações depois de cinco anos de cultivo. Na África Central as condições são semelhantes. As árvores tropicais estão caindo para virar madeira ou ardendo sob o fogo colocado para abrir mais espaço às plantações e criações de gado de baixa produtividade.

Lição na marra — Do total de florestas hoje existentes no planeta, apenas 40% são nativos. A conservação de quase metade da mata virgem pode até parecer muito. Ocorre que 60% dessas preciosas florestas se concentram na região boreal da América do Norte e da Rússia, onde a variedade de espécies é mínima. A biodiversidade perdida é, portanto, enorme. Por isso é tão importante preservar as florestas tropicais. O Brasil abriga 17% das últimas matas virgens. São áreas que concentram 22% de toda a diversidade vegetal mundial. A destruição das florestas tropicais é ainda mais preocupante por um outro motivo: sua recuperação é difícil. Nos países de clima temperado, o grupo predominante são as árvores de Pinus. São espécies que renascem naturalmente e crescem rápido. Na região tropical, a situação é diferente. Uma área onde a derrubada é total levará centenas de anos para se restabelecer com a mesma variedade e exuberância.

Muitos países estão aprendendo na marra a importância de preservar suas florestas. É o caso da Malásia. Depois de ter destruído grande parte de suas matas nativas, o país criou leis que hoje estimulam a conservação. Além de investir no extrativismo, passou a explorar madeira de maneira sustentada (ou seja, de forma que a floresta se auto-regenere e possa voltar a ser usada). A madeira vendida com certificado de que foi retirada de uma área sustentada chega a valer 15% mais do que as outras. A Malásia exporta 3,8 bilhões de dólares em óleo de dendê e 1,4 bilhão de dólares em borracha de seringueira por ano. Dez por cento de seu PIB provém de produtos florestais. "A floresta em pé vale mais", resume Garo Batmanian, diretor do WWF no Brasil. Infelizmente, não é o que acontece em quase todas as áreas tropicais do mundo. As árvores estão sendo derrubadas sem que ninguém viva melhor por causa disso.

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