Lixão dos mares

Ferro-velho indiano desmonta porta-aviões argentino

Até pouco tempo atrás a peça mais vistosa da Marinha argentina, o porta-aviões 25 de Mayo está condenado a um destino desprovido de glória. Vai navegar até encalhar nas areias de um ponto remoto do litoral da Índia. Lá, será feito em pedaços, sem oferecer resistência, por um exército de maltrapilhos armados de marretas e maçaricos. O local desta última batalha, o vilarejo de Alang, a 300 quilômetros de Bombaim, nem sequer aparece nos mapas, mas responde sozinho pelo desmanche de metade de todos os navios mercantes e de guerra tirados de circulação em todo o mundo. No mês passado, o 25 de Mayo foi arrematado por sucateiros internacionais por 321.000 dólares, bem abaixo do preço de 1,2 milhão de dólares pedido pelo governo argentino. Cortado em pedaços e revendido como ferro-velho, o velho lobo-do-mar pode render perto de 2 milhões de dólares.

O destino final do porta-aviões chamou a atenção para a existência desse enorme cemitério naval — um lugar único no mundo, pelas dimensões e precariedade de seu funcionamento. Em Alang, foram desmontados no ano passado 347 grandes navios, com um faturamento bruto estimado em meio bilhão de dólares, um terço dos quais lucro líquido. Um excelente negócio. O que transformou esse canto perdido numa espécie de Serra Pelada do ferro-velho, no entanto, foram a miséria e os salários de fome pagos na Índia. Regras de segurança do trabalho e de proteção do meio ambiente tornam esse tipo de atividade cara demais nos países desenvolvidos. Já no lixão indiano, um exército de 40.000 trabalhadores migrantes se amontoa na favela erguida junto às carcaças, trabalhando de pés descalços por salário mensal médio equivalente a 75 dólares. O trabalho nas praias abastece as usinas indianas com 2,5 milhões de toneladas de aço por ano.

Gêmeo brasileiro — São quase 10 quilômetros de praia imunda, cheia de entulho e manchas de óleo. O declive suave e as ondas fortes permitem que os navios avancem até encalhar na areia, facilitando o trabalho, que é feito em condições rudimentares. Dois anos atrás, os gases acumulados num superpetroleiro japonês causaram uma explosão que pôde ser vista a 10 quilômetros de distância, deixando dezenas de mortos. Por pressão de organizações ecológicas, o Congresso dos Estados Unidos proibiu a venda de navios americanos aos sucateiros indianos. O lixão de Alang, porém, não foi seriamente afetado: sem um bom desmonte, navio velho é um estorvo sem tamanho.

O que determina a morte de um navio é a condição do casco, diz o capitão-de-mar-e-guerra Rodrigo de Honkis, da Marinha brasileira, já que o "recheio" pode ser reformado mais facilmente. Os argentinos mantiveram o 25 de Mayo ancorado durante sete anos, até desistirem da idéia de gastar dinheiro numa embarcação que se tornara uma verdadeira relíquia. A Marinha do Brasil arrematou por 50.000 reais várias peças — engrenagens, turbinas, cabos de aço usados no pouso de aviões — que se encontravam em bom estado e vão servir como sobressalentes no porta-aviões Minas Gerais. Ambos são idênticos, fabricados pelo mesmo estaleiro inglês nos anos 40. Modernizado, o gêmeo brasileiro, derradeiro porta-aviões latino-americano, por enquanto está a salvo das formigas de Alang.




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