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único avião de passageiros da estatal Surinam Airways: única ligação com Belém e Caiena |
Economia da droga Quando Bouterse, o homem forte do Suriname, esteve no poder pela primeira vez, depois de um golpe militar, as acusações que pesavam sobre ele estavam no campo dos direitos humanos. Ele era acusado da morte de quinze líderes da oposição, num massacre do qual teria participado pessoalmente, em 1982. O prontuário do ex-ditador na divisão de entorpecentes foi aberto há quatro anos, quando promotores holandeses, investigando uma quadrilha que transportou 4 toneladas de cocaína para a Europa, trombaram com os nomes de oficiais do Exército surinamês. Embora o processo corra em segredo de Justiça, sabe-se que alguns traficantes entregaram os chefes em troca de proteção. "Obtivemos testemunhos muito consistentes contra o senhor Bouterse", disse o chefe do Ministério Público holandês, Arthur van Leeuwen. Pela lei, o ex-ditador pode ser condenado a dezesseis anos de cadeia. O difícil será chegar até ele.
Quando a Interpol concedeu o mandado de prisão contra Bouterse, ele estava no Brasil. O governo holandês não quis notificar as autoridades, temendo que a extradição não fosse concedida. Bouterse então retornou a seu país, de onde não saiu durante quase um ano. No mês passado, finalmente arriscou um pulinho no vizinho caribenho Trinidad e Tobago. Os promotores holandeses encaminharam um pedido ao governo de Trinidad, mas ele foi rejeitado sob o argumento de que os países não possuem acordo de extradição. Bouterse voltou à pátria para ser recebido como herói. "Esse processo não pode ser levado a sério", diz o ministro em exercício das Relações Exteriores do Suriname, Erroll Alibux. "A acusação tem motivações puramente políticas, porque a Holanda quer continuar mandando no país." O irônico nessa confusão é que Bouterse já foi preso no Brasil, em 1988. O motivo, então, era mais prosaico. Quando andava pelo centro de São Paulo com um grupo de seguranças armados e uma bolsa cheia de dinheiro, o ex-ditador foi considerado "suspeito" por um grupo de PMs. Os policiais renderam o grupo, espancaram os seguranças e levaram a comitiva à delegacia. Tudo se encerrou com um pedido de desculpa do Itamaraty.
A cocaína, para os surinameses, é uma das poucas maneiras de fazer dinheiro num país em que o desemprego é próximo dos 20% e a renda per capita caiu de 3.000 dólares anuais para cerca de 800 dólares, desde a independência, em 1975. Naquela época, a Holanda comprometeu-se a investir 1,6 bilhão de dólares em projetos de infra-estrutura no país, até que ele pudesse caminhar com as próprias pernas. Falta entregar cerca de 10% do dinheiro, mas o Suriname ainda não sabe como se virar sozinho. Do orçamento do governo, 20% da receita corresponde à ajuda holandesa. A atividade econômica que mais absorve mão-de-obra é o funcionalismo público. O Estado emprega 40.000 pessoas um em cada onze habitantes do país. A penúria nos cofres do governo é tão grande que o Palácio Presidencial, em reforma, teve suas obras paralisadas por falta de verba. A linha aérea estatal, a Surinam Airways, só tem um avião de passageiros para ligá-la aos países vizinhos o outro foi encostado por problemas técnicos. A única rota da companhia, feita três vezes por semana, liga Paramaribo a Caiena, na Guiana Francesa, e Belém, no Pará.
Com a economia ruindo e a política de uma república de bananas, não é de se estranhar que quase a metade da população do Suriname tenha abandonado o país. Como tinham o direito de optar pela cidadania holandesa, 300.000 pessoas foram tentar a vida na Europa depois da independência. Um dos motivos para o caos reinante no país é a confusão étnica. A população é formada por dezenas de grupos de origens diferentes, cujo único ponto em comum é a língua oficial, o holandês. Os negros, descendentes de escravos, em sua maioria católicos, compõem um terço da população. Entre eles, há uma minoria de "bushnegroes" ("negros da floresta"), remanescentes de quilombos, que ainda vivem no interior como se estivessem em aldeias africanas. Outro terço descende de hindus e paquistaneses, divididos em grupos religiosos que não se dão lá muito bem. O terceiro grande grupo é formado por javaneses e chineses, que vieram ocupar-se do comércio. Existem ainda coreanos, libaneses, brasileiros e colombianos. Os grupos dividem as calçadas, mas não se misturam na sala de estar. "Há convivência, mas não integração", admite Desi Truideman, diretor do Centro Cultural do Suriname. As famílias hindus não permitem que seus filhos se casem com negros. Os muçulmanos não aceitam casamentos com gente de outras religiões. Os chineses só se relacionam com as outras comunidades no comércio.
Milícias particulares O país parece mais um entreposto comercial do que uma nação. Boa parte dele é terra de ninguém. No centro de Paramaribo, as lojas têm grades separando os clientes dos balconistas, para evitar roubos. A polícia é escassa, e os moradores se defendem como podem. "Decidimos criar nossa própria polícia porque havia muitos crimes aqui", explica Kenneth Tjon-Kon-Fat, dono de um restaurante ao norte da capital. Kenneth e um grupo de comerciantes fizeram uma coleta de dinheiro, compraram viaturas e armas e montaram uma milícia com 31 voluntários que patrulham a região à noite de escopetas em punho. No interior do país a situação é pior. As autoridades aconselham que não se viaje sozinho pelas estradas, porque há muitos bandoleiros.
É no interior, também, que está o grupo de imigrantes que mais cresce, o dos brasileiros. Calcula-se que 15.000 garimpeiros do Brasil tenham invadido o Suriname nos últimos anos. O país é dos últimos locais do continente onde ainda se pode tirar ouro sem grande investimento nem tecnologia avançada. Animado com a corrida, o governo criou um imposto de 38% sobre o lucro das vendas do ouro. A medida só fez crescer o contrabando, feito em barcos de chineses e brasileiros que atracam às escondidas no litoral. Como um elo da economia informal acaba puxando outro, cerca de 200 brasileiras migraram para trabalhar como prostitutas nas casas noturnas de Paramaribo. Algumas terminam recrutadas pelo tráfico para transportar remessas de cocaína até Amsterdã. O julgamento do ex-ditador Bouterse, segundo a Justiça holandesa, deve acontecer até o final do ano. Provavelmente à revelia, já que as autoridades acham improvável conseguir prendê-lo. Resta saber se o resultado poderá frear a corrente da ilegalidade na Lavanderia Suriname.
Copyright © 1998, Abril
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