Pomo da discórdia

Israel tenta evitar que bispo de igreja
paulista seja transferido para a Galiléia

Foto: Antonio Milena
Mouallem: prestígio com o papa garante a presença
do católico árabe em Israel

Aos 70 anos, dom Pierre Mouallem seria apenas mais um entre dezenas de missionários estrangeiros a atuar no Brasil se não estivesse no centro de uma polêmica internacional. Palestino, o bispo Mouallem foi escolhido pelo papa João Paulo II para comandar a arquidiocese de Akka, na Galiléia, região ao norte de Israel. A indicação resultou no primeiro confronto entre Israel e o Vaticano desde a retomada, em 1994, das relações diplomáticas entre os dois Estados. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, criticou publicamente a decisão papal na semana passada. Disse que a escolha obedecia a pressões políticas de palestinos interessados em colocar um líder religioso no país. A reação da Cúria romana, exposta em nota oficial, foi enfática. O documento frisou que a escolha não sofreu nenhum tipo de interferência externa: "A nomeação de bispos católicos é feita pelo pontífice romano no desempenho do seu poder supremo". Enquanto isso, dom Mouallem segue sua rotina. Ao meio-dia e meia, de segunda a sexta-feira, celebra missas cantadas em árabe na Igreja Nossa Senhora do Paraíso, na capital paulista. Homem discreto, sotaque carregado, ele evita polemizar. Mas é categórico: "Sou o arcebispo eleito da Galiléia e vou cumprir minha missão religiosa".

"Quem trabalha com Deus não tem receio de nada. Sou o arcebispo eleito da Galiléia e vou cumprir minha missão religiosa"
Dom Pierre Mouallem

Nascido na cidade de Ailaboun, na Palestina, o bispo vive em São Paulo desde 1990. Dom Mouallem pertence à Igreja Greco-Melquita, uma das dezoito igrejas católicas originadas a partir da tradição grega — de ritos cantados e pinturas em madeira de santos, no lugar das imagens. A integração do religioso ao Brasil foi tamanha que ele traduziu para o português 35 livros de sua autoria, escritos originalmente em árabe e francês. "A função de dom Mouallem em Israel será prioritariamente missionária e evangelizadora em apoio aos palestinos", diz dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo auxiliar de São Paulo.

A rejeição do primeiro-ministro Netanyahu ao nome de Mouallem foi lida como uma posição retrógrada e inflexível. "Essa atitude mostra que Israel ultrapassou a racionalidade para entrar no campo da histeria", diz o professor de política internacional Ladislau Dowbor, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Causou celeuma até entre judeus. "A reação do primeiro-ministro foi exagerada", critica Henry Sobel, diretor de assuntos inter-religiosos do Conselho Judaico Mundial. "Talvez dom Mouallem seja pró-palestino, mas nem por isso é contra Israel." Habituada a enfrentar resistências a nomeações, como ocorria nos países comunistas do Leste Europeu, a Igreja Católica deverá ignorar o incidente. "É provável que uma revisão da posição de Israel seja suficiente para superar o trauma", diz o padre e historiador José Oscar Beozzo.

Eduardo Junqueira




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