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Teixeira:
negócios com terrenos e amizade com o prefeito |
| Foto: Marcos Rosa |
Durante muitos anos o advogado Roberto Teixeira foi um amigo que resolvia problemas do candidato à Presidência Luís Inácio Lula da Silva. Padrinho de um de seus filhos, o advogado é um homem de posses, dono de vários imóveis em São Bernardo do Campo. Teixeira emprestou a Lula a casa onde o candidato morou de graça durante oito anos. Foi ele que intermediou a compra do apartamento de cobertura para onde Lula acaba de se mudar. Na campanha eleitoral, porém, Teixeira pode se tornar um fornecedor de problemas para o candidato. Na semana passada, o problema do PT era explicar como uma empresa envolvida em uma operação esquisita terminou por depositar 10.000 reais na conta de Lula em 1995.
A empresa é uma construtora chamada Dalmiro Lorenzoni, e a operação, feita entre 1990 e 1991, gerou um lucro de 11.000% em menos de um ano. Tudo começou quando o presidente da Transbrasil, Antonio Celso Cipriani, comprou em São Bernardo um terreno que estava sendo desapropriado pela prefeitura. Por ele passaria um viaduto. Os proprietários haviam entrado na Justiça tentando evitar a desapropriação, mas o processo se arrastava havia mais de dez anos, sem resultado. Terrenos nessa situação valem pouquíssimo e o valor pago na época, segundo o registro da prefeitura, foi o equivalente a 5.400 reais em dinheiro de hoje. Sete meses depois da data do registro de venda, a construtora Lorenzoni apareceu para comprar o terreno. Dessa vez, pelo preço de 620.000 reais, em valores atualizados. O que fez o imóvel valorizar-se tão rapidamente em tão pouco tempo? A prefeitura, administrada pelo PT, cancelou o processo de desapropriação e transformou o terreno bichado numa área comercialmente valiosa.
Entre todos os terrenos na área que seria desapropriada, o único a ser vendido antes do cancelamento foi esse. Até aí o que se pode concluir é que Cipriani teve muita sorte em comprar um terreno ruim e vendê-lo bem. Ele sabia que a obra programada para o lugar tinha gorado e havia um processo pedindo a revisão das desapropriações. (Os proprietários pressionaram a prefeitura a devolver os terrenos.) Mas uma série de coincidências torna o processo peculiar todas relacionadas a Teixeira. Ele era advogado de onze dos 37 proprietários que tinham terrenos na área a ser desapropriada, inclusive os do terreno em questão. Era advogado também de Cipriani, com quem trabalha hoje, como presidente da Fundação Transbrasil. Também era advogado da construtora que comprou o terreno. Finalmente, Teixeira era amigo do prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, que chegou a convidá-lo para ser secretário municipal em seu primeiro mandato. São coincidências que podem gerar desconforto em época de campanha eleitoral. Mas não são suficientes para caracterizar espécie alguma de irregularidade. "É absurdo fazer qualquer insinuação sobre tráfico de influência", protesta Adhemar Gianini, que é advogado de Teixeira.
O problema é que essa confusão dos terrenos se somou a outra. Uma reportagem exibida no Jornal da Band, da TV Bandeirantes, mostrou um cheque de 10.000 reais depositado por Sérgio Lorenzoni, irmão do dono da construtora que comprou o terreno, na conta de Lula. Foi em 1995, três anos depois da suspensão da desapropriação dos terrenos. A presença do cheque, em si, não indica absolutamente nada. Mas, como o jornal levantava a suspeita de que o dinheiro estivesse ligado ao terreno, caberia ao PT dissipar a suspeita. Em lugar de fazer isso claramente, a cúpula do partido ameaçou processar os jornalistas e limitou-se a dar explicações vagas.
| O
prédio em que Lula adquiriu um apartamento de cobertura: sem detalhes sobre a origem do dinheiro |
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| Foto: Miranda |
Gianini, advogado de Teixeira, diz que seu cliente recebeu o cheque como pagamento de honorários. Depositou-o na conta de Lula como entrada na compra de um Omega usado, adquirido por 40000 reais. Lula confirma. Mas, quando se pede para ver os documentos sobre a venda do veículo, o PT não mostra. "Só vamos apresentá-los em juízo, para não alimentar uma polêmica que só interessa aos adversários", disse o coordenador da campanha petista, Luiz Gushiken. Como se recusa a dar explicações sobre seu patrimônio, coisa que todo homem público é forçado a fazer, Lula apenas alimenta a polêmica. Segundo o advogado Gianini, Lula decidiu comprar o apartamento em que hoje mora, uma cobertura avaliada em 200.000 reais, porque estava cansado de ficar de favor na casa que pertencia a Teixeira. Mas o candidato nunca mostrou documentos que esclarecessem de onde tirou o dinheiro para pagá-lo. Limitou-se a dizer que vendeu o Omega e um terreno herdado pela mulher. Se o valor que recebeu pelo carro é realmente 40.000 reais, foi um negócio de irmão. Na época, esse era o preço dos mais caros modelos zero-quilômetro.
Essa discussão pode parecer pequena e, às vezes, até tola. Mas ela só prospera porque Lula e o PT contribuem para que isso aconteça. No ano passado, o economista Paulo de Tarso Venceslau, antigo militante do partido, fez várias denúncias contra Roberto Teixeira. Disse que, usando a amizade com Lula, o advogado fazia tráfico de influência para convencer prefeituras do PT a contratar sem licitação uma empresa de consultoria chamada CPEM. Lula saiu em defesa do amigo, a comissão interna que investigou as denúncias acabou em pizza, e o acusador foi expulso do partido.
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