O voto em idéias

Como atuam os candidatos que têm
algo a dizer para o eleitor

Alexandre Oltramari

"O real sobrevalorizado
interrompe o crescimento
e aumenta o desemprego e
a inadimplência. É preciso
estimular a exportação e
mexer no câmbio para
garantir a estabilidade."

Delfim Netto, do PPB
Foto: Antonio Milena  

No início do mês, o ex-ministro e deputado Delfim Netto (PPB-SP), que disputa seu quarto mandato para a Câmara, fez uma palestra para 300 empresários em Piracicaba, a 180 quilômetros de São Paulo. Com seu estilo cáustico, disse que o Brasil só voltará a crescer se ajustar o câmbio do real e baixar a taxa de juros. Dois dias depois, o ex-ministro da Previdência e deputado Reinhold Stephanes (PFL-PR), também de olho num quarto mandato, reuniu-se com 200 agricultores em Entre Rios, cidade de origem germânica no interior do Paraná. Falando em alemão, explicou por que o país precisa fazer a reforma da Previdência, um sistema que hoje desembolsa o dobro do que arrecada para pagar os benefícios dos brasileiros que vestiram o pijama. Há alguns dias, o deputado Sergio Arouca (PPS-RJ), que concorre ao terceiro mandato, visitou uma escola num subúrbio do Rio e fez uma preleção para 200 alunos. Propôs uma lei disciplinando pesquisas de biotecnologia, pediu o fim do comércio de derivados de sangue e defendeu mais verbas em ciência e tecnologia. Na terça-feira passada, Aloizio Mercadante, candidato a uma vaga de deputado pelo PT paulista, falou para 600 estudantes de economia em Araçatuba, no interior de São Paulo. Para criar empregos, defendeu o estímulo a cooperativas e investimentos pesados em educação.

Com profissões, idéias e partidos diferentes, o que esses políticos têm em comum? Uma coisa: eles formam o restrito plantel de candidatos que esbanjam idéias — concorde-se com elas, ou não — para apresentar ao eleitorado. Não são fregueses de carreatas e comícios, e trocam sem pestanejar um palanque barulhento por uma platéia de ouvintes bem-comportados. Quando visitam uma cidade do interior ou um bairro da capital, suas agendas têm compromissos diferentes das dos demais candidatos. Chegam sem batucada, normalmente dão entrevista à rádio, TV e ao jornal locais e, em vez de ir para um comício com banda de música, fazem reuniões em universidades, associações comerciais ou sindicatos. Delfim Netto, crítico mordaz da política econômica, é um dos precursores da distribuição de idéias ao eleitor. Na sua quarta campanha a deputado, ele orgulha-se de nunca ter subido num palanque. A única vez que se lembra de ter participado de uma carreata foi na eleição de 1994, ao lado de Paulo Maluf. "Morri de vergonha", diz. "Não adianta fazer comício e carreata. É impossível debater idéias nesse tipo de ambiente", completa o deputado.

"A era do conhecimento
chegou. Por isso, temos
de aumentar os gastos com
ciência e tecnologia. Quem
não se preocupar com
isso vai perder o
trem da História."

Sergio Arouca, do PPS
  Foto: Ricardo Fasanello

Os candidatos com idéias para discutir com o eleitor têm algumas vantagens. Primeiro, a campanha é mais barata, pois dispensa palanque, carro de som, cabos eleitorais. O ex-ministro Stephanes calcula que, numa campanha tradicional, gastaria cerca de 2,5 milhões de reais. Como prioriza palestras, estima que gastará, no máximo, 400.000 reais. "Subir em palanque só serve para dar show e enganar o eleitor", diz Stephanes. A outra vantagem é que eles se dirigem a um público mais homogêneo do que a massa que se reúne à frente de um palanque, e aumentam as chances de agradar à platéia. Candidatos com esse tipo de perfil também são bons caçadores de votos. Como defendem idéias, e as idéias não têm limites geográficos, seu eleitorado em geral não é restrito a uma região da cidade ou do Estado. Em 1990, Aloizio Mercadante elegeu-se deputado com 120.000 votos, número suficiente para lotar o Maracanã. De junho para cá, ele já deu palestras em quarenta faculdades. "Subo em palanque quando é preciso, mas prefiro o debate", diz. Delfim Netto, 95 000 votos na última eleição, tem metade dos seus eleitores no interior e a outra metade na capital. Em média, ele faz sessenta palestras por ano. Desde julho, fez quarenta e até outubro fará outras 45.

Prestígio — "Essa forma de fazer campanha nunca foi tão intensa como agora", diz o cientista político Bolívar Lamounier, diretor do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo, Idesp. "É uma maneira saudável de dialogar com o eleitor." As primeiras notícias sobre campanhas com esse formato vêm da década de 50. Na época, Carlos Lacerda, um dínamo verbal contra seus adversários, dono de uma retórica devastadora, começou a fazer palestras nas escolas do Rio de Janeiro para bombardear Getúlio Vargas. No início dos anos 60, com o regime militar, as campanhas eleitorais (especialmente de candidatos com idéias) foram banidas. Só com a volta da democracia os candidatos-idéia também voltaram a aparecer. Mas todos têm alguns requisitos básicos: não são candidatos a cargos majoritários, como governador ou presidente, para os quais comícios e carreatas são inevitáveis. Além disso, eles são conhecidos e, é óbvio, têm o que dizer. "O candidato precisa ter prestígio na área em que atua", diz Lamounier. "Sem isso, a única saída é o palanque." O ex-ministro do Planejamento e deputado Antonio Kandir (PSDB-SP) sempre apresentou conferência de economia para empresários e acadêmicos. Agora, apenas dobrou o ritmo das palestras, sempre batendo na sua tecla preferida: mudar o sistema tributário, aumentar a produtividade e criar alternativas para gerar emprego e renda. "Escolho os convites onde o debate pode ser mais interessante. Fazer comício não combina comigo", diz.

"Depois de desarmar a
armadilha do câmbio, o país
voltará a crescer. Aí é hora
de investir pesado em
políticas de educação e
geração de emprego."

Aloizio Mercadante, do PT
Foto: Egberto Nogueira  

A maioria dos candidatos que se encaixam nesse perfil é de economistas, uns já com anos de estrada, como o deputado Roberto Campos (PPB-RJ), e outros com estréia recente, como a ex-ministra do Planejamento Yeda Crusius (PSDB-RS). Nisso, Sergio Arouca, um sanitarista cujo público mais fiel está nas universidades e institutos de pesquisas científicas, é uma exceção. "Sou um político de idéias, mas não fico constrangido ao subir no palanque de um candidato do meu partido", diz ele. Em 1986, na eleição para a Constituinte, os palestrantes mais solicitados eram candidatos com formação jurídica, pois o país estava envolvido com a redação de nova Carta. Agora, com o fim da Guerra Fria, o desmonte do comunismo e o refluxo das ideologias de esquerda, a cena política foi dominada pelo debate econômico, no Brasil e no mundo. Isso ajuda a esclarecer temas áridos, como déficit público e balança comercial, e amplia o conhecimento sobre temas fundamentais para a maior parte da população, como salário e emprego. Qualquer que seja a especialidade dos candidatos que se elegem com idéias, eles têm uma influência muito positiva na política brasileira. Ajudam a transformar os brasileiros em eleitores mais exigentes e concorrem para que os próprios colegas que também caçam votos procurem aparelhar-se mais para a função que eventualmente irão exercer. Num país onde o candidato habitual é aquele que distribui cargo, dentadura e lata de óleo, quando não dinheiro vivo, os políticos que semeiam idéias são uma refrescante brisa de renovação.

No alvo

O deputado Delfim Netto é um dos mais espirituosos políticos brasileiros. Fere os adversários com precisão cirúrgica. São dele algumas das mais mordazes observações sobre a política nacional. Algumas delas:

"O governo FHC é como um enorme dinossauro. Se você colocar fogo no rabo dele, demora vinte meses para reagir. E move o rabo para o lado errado."
Em julho de 1998, sobre a gestão econômica do governo

"Se um poste disputar com Fernando Henrique, o poste tem grandes chances de ganhar. Mas, se derem nome ao poste, FH se elege sem fazer força."
Em março de 1998

"Lula diz estar preparado para governar o Brasil porque andou 40.000 quilômetros pelo país. Eu conheço um caminhoneiro que rodou 40.0000 quilômetros. Logo, está dez vezes mais preparado."
Na campanha de 1994

"Este é um governo ornitológico: o presidente é um pavão, o ministro é passarinho e juntos eles tentam caçar os tucanos."
Em 1992, sobre o governo Collor, seu ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, e o namoro com o PSDB

"Tudo pelo social. E os trabalhadores pelo elevador de serviço."
Em 1987, brincando com o slogan do governo Sarney

"A esquerda é cafona."
Em 1986




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