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| Foto: Divulgação |
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presidente, na gravação do primeiro programa de TV: filmes de cinema |
As vésperas da estréia do programa eleitoral gratuito, que começa nesta terça-feira, o comandante-em-chefe da campanha do presidente Fernando Henrique rendeu-se ao cansaço. Esgotado com o excesso de trabalho e triste com o pouco convívio com a família, Eduardo Jorge Caldas Pereira, de 55 anos, pai de três filhos, fez um desabafo na sexta-feira passada. Numa conversa em tom emocionado, disse que sempre trabalhou como "um mouro" para gozar a aposentadoria com tranqüilidade, e seus planos deram exatamente no contrário. Garantiu que não voltará ao governo, "por bem ou por mal", num eventual segundo mandato de FHC. "Cansei de ser escravo. Quero viver um pouco", disse (veja quadro). O desânimo de Eduardo Jorge reflete estritamente a situação pessoal dele, do ponto de vista psicológico. Não tem relação com a campanha em si. Sob o comando do próprio Eduardo Jorge, a campanha vai às mil maravilhas e tem uma estrutura eficiente em Brasília, onde está espalhada por sete lugares diferentes, entre comitê oficial e casas para conversas mais reservadas. Na área de televisão, são 130 profissionais que trabalham no melhor estúdio que Brasília já conheceu, com 300 metros quadrados e equipamentos importados dos Estados Unidos e Japão. Na área de rádio, há uma equipe de quinze pessoas, que ocupa dez salas de outro estúdio. A arrecadação financeira não está excelente, mas não existe uma conta pendurada.
Como coordenador-geral, Eduardo Jorge é o homem que comanda toda essa máquina eleitoral. Foi secretário-geral da Presidência até se afastar para trabalhar na campanha, mas é um funcionário pouco conhecido. Discretíssimo, não gosta de aparecer e é do tipo que trabalha para o chefe, e não para se promover ou fazer prevalecer seus interesses políticos, como ocorre com outros auxiliares de FHC. Está com Fernando Henrique há quinze anos, desde os tempos em que o presidente era senador. Trabalhou na campanha de 1994 e, no governo, virou braço direito do presidente, com dois despachos com o chefe a cada dia. Transformou-se num faz-tudo. Conferia a ficha de candidatos a altos cargo no governo para ver se apresentavam biografia limpa, tinha controle sobre a liberação de verbas, articulava apoio a projetos do governo no Congresso e mantinha sempre os olhos nos fundos de pensão. Cearense, formado em economia pela Universidade de Brasília, ele nunca foi candidato e aposentou-se como funcionário do Senado em 1990, depois de 27 anos de trabalho. Seu patrimônio, avalia, é apenas razoável. Tem dois imóveis em Brasília e um terreno em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. "Não é muito para quem teve os cargos que eu tive", costuma dizer.
Audiência itinerante Na campanha, fiel a seu perfil de faz-tudo, Eduardo Jorge tem razões de sobra para reclamar da falta de tempo. Todos os contratos de prestação de serviços passam por sua mesa. Ele tem de controlar todas as despesas. Zeloso com a segurança, mandou instalar misturadores de voz em todos os telefones dos coordenadores. Também examina todas as pesquisas de opinião, antes de serem submetidas ao presidente. Cuida, ainda, das articulações com os governos estaduais aliados e tenta amenizar os atritos entre os partidos da coligação. Se existe algum problema com as bancadas aliadas no Congresso, lá vai Eduardo Jorge. Nas últimas semanas, tem-se empenhado em atrair os evangélicos para a campanha do presidente. Por fim, também ajuda na arrecadação de fundos. Há duas semanas, avisou o coordenador financeiro, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira, de que um empresário do setor de transportes estaria disposto a fazer uma contribuição.
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redação da produtora GW: equipe de 130 profissionais e equipamento importado |
| Fotos: Ana Araujo |
Com tantas atividades, o ex-secretário tem dado até audiências itinerantes: recebe alguns interlocutores dentro de seu Omega, deslocando-se de um lugar para outro. Suas andanças pela cidade são inevitáveis. Ele próprio concebeu uma infra-estrutura espalhada pela capital. O comitê oficial, no centro de Brasília, é só oficial. O presidente tem um gabinete ali, mas só o visitou uma vez. As reuniões reservadas são feitas num apartamento na Asa Sul, a 8 quilômetros do comitê, que pertence a Eduardo Jorge. Ele já morou no imóvel, que agora virou escritório, com secretária, computador e sala de reuniões. Ali, vão ministros, governadores e assessores do governo, cuja presença no comitê oficial poderia causar algum alarido. A 6 quilômetros fica a casa onde morava o falecido ministro das Comunicações Sergio Motta, alugada pelo PSDB. Aí trabalha a equipe encarregada de redigir o programa de governo. Adiante 7 quilômetros, noutra casa, Eduardo Jorge conversa em paz com políticos e jornalistas.
A grande fortaleza da campanha, contudo, é o Palácio da Alvorada, local preferido pelo presidente para seus encontros com políticos e empresários. As manhãs, salvo quando tem compromissos oficiais, Fernando Henrique reserva para o trabalho de campanha. Quem cuida dessa agenda é o arquiteto José Expedito Prata, ex-chefe de gabinete do Ministério das Comunicações, que mantém linha direta com FHC. Sem alarde, Fernando Henrique já recebeu quase todos os governadores e teve encontro com empresários e, naturalmente, com Eduardo Jorge. O ex-secretário está sempre no Alvorada, inclusive em reuniões matinais aos domingos. A infra-estrutura da campanha, com comitê burocrático e outros informais, foi inspirada na reeleição de Bill Clinton. "O presidente americano também tinha um comitê oficial e nem sequer despachava lá", diz Eduardo Jorge. "O que ele fazia era presidir o país. É o que nós estamos fazendo aqui."
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estúdio de rádio: equipes com reportagens em catorze Estados |
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Auxiliar de peso A estrutura se completa com a máquina de propaganda, a única área em que o chefão da campanha não se mete muito. No estúdio de TV onde o presidente gravou seu primeiro programa, na quarta-feira passada, existem cinco câmeras e sete ilhas de edição, das quais três são digitais. O equipamento permite dar aos programas qualidade quase de cinema. A produtora encarregada de preparar as gravações, a GW, ainda tem uma grua, espécie de guindaste para alçar o cinegrafista, filmando o candidato do alto. O pé-direito do estúdio alcança 9 metros, o equivalente a três andares. Na TV, haverá dois tipos de programa. Ao meio-dia, irá ao ar o Boa Tarde, Brasil, com entrevistas ancoradas pelo jornalista Rodolfo Gamberini. No primeiro, a conversa será com o presidente. No segundo, com a primeira-dama Ruth Cardoso. O terceiro, com Pelé. À noite, será exibido um programa no formato de um jornal, com reportagens mostrando obras do governo e o presidente em ação.
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apartamento de Eduardo Jorge: para conversas reservadas |
Como 73% da população brasileira ouve rádio, há um esforço concentrado nessa área. Há meses, uma equipe de repórteres de rádio percorreu catorze Estados para colher depoimentos e produzir reportagens. Até a semana passada, três programas já estavam prontos e sendo testados em pesquisas qualitativas organizadas pelo sociólogo Antônio Lavareda. Até agora, somados todos os gastos, foram consumidos 8 milhões de reais. Tudo corre muito bem, das pesquisas de intenção de voto, que apontam clara supremacia de FHC, até os detalhes de organização da campanha. A única nota que desafina é o desânimo do coordenador-geral. É a segunda vez que Eduardo Jorge diz que não ficará no governo mesmo que FHC seja reeleito. Mas nunca revelou estar tão cansado e tão emotivo como na semana passada. Disciplinado, ele certamente não abandonará a campanha eleitoral. Ficará até o último minuto, mas, caso venha a reeleição, Fernando Henrique terá perdido um auxiliar de peso, daquele tipo que atua na cozinha do palácio, mexe os cordões nos bastidores e se comporta como um túmulo. Fidelíssimo, não lhe escapa uma palavra que possa prejudicar o presidente.
Confusão no quartel-general
O comando da campanha petista, às vésperas da estréia do horário eleitoral gratuito, estava em clima de desorientação. Uma reunião da executiva do partido, na segunda-feira passada, deu o tom da semana. O coordenador-geral da campanha, deputado Luiz Gushiken, reclamou que ainda não havia uma idéia central para guiar o discurso do candidato. Quando o coordenador do programa de governo, Marco Aurélio Garcia, sacou do bolso as propostas para os programas de TV, havia apenas alguns rabiscos numa folha de rascunho. Depois de várias reuniões pouco produtivas, surgiu ao menos uma decisão concreta: em lugar de propostas de governo, o espaço maior na TV será mesmo reservado para ataques a Fernando Henrique. Para tentar levar a eleição para o segundo turno. As pesquisas de opinião que o partido encomendou recentemente mostram que o PT tem dois problemas graves a enfrentar. Primeiro, a população se preocupa com problemas como o desemprego e a violência. Mas o número dos que apontam Fernando Henrique como responsável por eles é bem menor do que o partido gostaria de ouvir. Depois, o número de eleitores que conhecem Lula é menor do que se imagina. "A maioria já ouviu falar dele, mas não conhece direito sua história política. A faixa mais jovem, cerca de 8%, mal tem idéia de quem é Lula", explica o cientista político Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi. Por isso, boa parte do programa de televisão será preenchida pela biografia do candidato. A cúpula do PT adora reclamar da falta de dinheiro, mas, com sessenta pessoas, sua equipe de televisão é a maior já contratada pelo partido. O que atrapalha é a falta de organização. A cinco dias da estréia do horário gratuito, o partido tinha apenas um programa de televisão gravado. Entre os comerciais de trinta segundos, que serão transmitidos durante a programação normal de TV, nenhum estava aprovado para ir ao ar. Os imprevistos pioraram a situação. Na quinta-feira passada, Lula deveria passar a tarde inteira gravando programas de TV. Irritado com as denúncias publicadas contra ele e seu amigo Roberto Teixeira (veja reportagem), ele passou a tarde em reuniões e só entrou no estúdio à noite. |
Com reportagem de Leonel Rocha, de Brasília
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S.A. |