Notícias da guerra

"A cada cinco dias morre um policial
militar no Rio de Janeiro"

Flávio Pinheiro

Pepe Casals

Há notícias frescas no front da violência. Já se conhece o grau de devastação do fenômeno na população civil. Agora, sabe-se que as baixas na polícia também são espantosamente altas. Por encomenda do Ministério da Justiça, Jacqueline Muniz, antropóloga, e Bárbara Soares, socióloga, fizeram para o Instituto Superior de Estudos da Religião, Iser, o primeiro grande levantamento sobre o número e as circunstâncias de mortes e ferimentos de policiais no Rio de Janeiro. A cada cinco dias morre um policial militar na cidade; a cada 42 horas um fica ferido. Não morrem nem são feridos necessariamente no calor dos combates com bandidos. Primeiro porque em média há 6% mais de casos de policiais vitimados em dias de folga do que em serviço. Depois porque confrontos armados respondem por 12,8% das circunstâncias em que se vitimam, contra 21,3% de acidentes no trânsito. De qualquer forma é muito alto o que as pesquisadoras chamam em sociologuês castiço de "vitimização". A taxa de morte de policiais no Rio é 27 vezes maior do que em Nova York. E está aumentando numa proporção preocupante — a observada entre 1995 e 1997 é oito vezes maior do que a do período de 1991 a 1994.

Há, de fato, mais policiais correndo riscos nas ruas, e um regime de promoção por bravura tem estimulado o PM carioca a apertar mais o gatilho. A polícia morre, mas também mata muito. Em 1995 morreram 54 PMs no Rio, e nos confrontos com civis a polícia eliminou 358 pessoas, quase tanto quanto toda a polícia americana matou em 1990 (385 pessoas). A lógica do tiroteio é filha da doutrina que faz da luta contra a violência uma "guerra", o que banaliza o número de baixas e impõe à cruzada um horizonte sem fim. Guerra só acaba com a rendição ou a eliminação do inimigo. A continuar assim, alguém em sã consciência acha que Ronaldinho, um garoto de 21 anos, ainda estará vivo no dia do armistício? A guerra dá pouco prestígio à polícia. Policiais mortos em geral não merecem manchetes, são enterrados em pé de página. Altamente contaminada pela criminalidade, inepta para controlá-la e conhecida pela brutalidade com que barbariza a pobreza, a polícia coleciona antipatias. É vista como protetora do Estado e não do cidadão. Mal agravado pela Constituição "cidadã" de 1988, que manteve intacto o cordão umbilical das polícias militares com as Forças Armadas. É uma situação que reforça a idéia de que polícia e direitos humanos não combinam. Mas polícia é produto da luta pelos direitos humanos. Antes dela, o Estado absoluto e discricionário esmagava a cidadania e ficava tudo por isso mesmo. A polícia nasceu para, com o uso legítimo da força, manter a ordem e ao mesmo tempo zelar pelos direitos das pessoas. Ela é a face mais visível do Estado. Com toda a violência, no Rio só 17% das ocorrências são criminais. Na maioria das vezes a polícia é chamada para apartar desavenças, enfrentar cachorros hidrófobos, encaminhar doentes para hospitais. Reduzi-la ao dilema de matar ou morrer é baratear seu papel.

Uma equipe de médicos e estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte está mudando o perfil do atendimento de saúde em Natal. Eles assumiram o atendimento nos postos de saúde do bairro de Felipe Camarão, o mais populoso da periferia da cidade, com mais de 45.000 habitantes. Exames como o pré-natal, consultas pediátricas e planejamento familiar passaram a ser feitos no bairro. Os resultados são supreendentes. Em 1994, época da implantação do projeto, o índice de mortalidade infantil chegava a oitenta para cada 1.000 bebês nascidos vivos. Hoje, esse índice caiu pela metade.

Foto: Eduardo Queiroga




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line