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"Se
começarmos a crescer mais fortemente, o processo de substituição de tecnologia destruirá alguns tipos de empregos, mas criará outros" |
| Fodo: Paulo Jares |
Para quem se anima com as promessas de derrubar as taxas recordes de desemprego, feitas pelos candidatos à Presidência nesta campanha eleitoral, o cientista político Sérgio Abranches dá um aviso. "O Brasil ainda terá de passar pelo desemprego tecnológico", diz. "Este ainda nem começou." Para ele, a modernização dos equipamentos e a mudança dos processos de produção na indústria estão engatinhando no país. Abranches, de 48 anos, como poucos entre seus pares, costuma dispensar igual atenção às sutis articulações políticas e aos frios dados econômicos. A partir dessas observações, ele duvida dos alarmantes dados sobre pobreza que são divulgados até por órgãos do próprio governo. "Praticamente, todas as estatísticas sobre pobreza e distribuição de renda no Brasil têm pouco valor", garante. Doutor em ciências políticas pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, Abranches trocou há quatro anos a vida acadêmica pela de consultor de empresas. Em sua casa no bairro da Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ele recebeu VEJA para esta entrevista.
Veja O desemprego está no centro dos debates da campanha eleitoral. O PT afirma que, no poder, criaria 15 milhões de empregos em quatro anos. O governo promete 7 milhões de novos postos de trabalho num segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Pode-se imaginar, então, que o pior já passou?
Abranches A trajetória do país nesse campo, nos próximos dez anos, não será totalmente positiva. Ao contrário, o Brasil terá de passar ainda pelo desemprego tecnológico. Este ainda nem começou.
Veja Como assim? E o enxugamento de pessoal nas empresas e a extinção de diversos postos de trabalho nas fábricas que têm ocorrido durante esta década?
Abranches O desemprego que tivemos nos últimos cinco anos deve-se basicamente à reestruturação que as empresas promoveram para diminuir os custos e aumentar a produtividade. Foi uma resposta à abertura da economia, que trouxe o aumento da concorrência com a chegada dos importados. Ou seja, a partir do início dos anos 90, pela primeira vez se reduziu o tamanho dos quadros de funcionários. Mais especificamente, cortaram-se vagas em nível de supervisão e de gerência, causando desemprego na classe média. Essa faixa foi até mais atingida que o chão da fábrica, onde já se tinha certa magreza. O que estou chamando de desemprego tecnológico é diferente. Ele decorre da adoção de novos equipamentos, que levam a maior automatização, e do redesenho do processo de produção. Uma fábrica como a da Volkswagen em Resende, no Rio, um dos projetos mais avançados do mundo, irá empregar menos trabalhadores do que uma fábrica da empresa em São Bernardo do Campo.
Veja Não são as acanhadas taxas de crescimento do país que estão inibindo a criação de novas vagas?
Abranches Sim, temos recentemente o desemprego associado à redução dos níveis de crescimento da economia. Com a crise da Ásia, o governo elevou os juros. O consumo e a produção caíram e registrou-se realmente uma elevação forte dos indicadores de desocupação. Esses problemas estão coincidindo com a renovação tecnológica do parque industrial brasileiro, que começou em 1996. Só a partir desse ano é que se começa a ter evidência de que as empresas estão realmente investindo para valer em troca de tecnologia. É fácil entender a razão. Antes, ninguém de bom senso faria um investimento pesado e de longa maturação como esse numa situação de inflação alta. Não se investe a sério em situação de instabilidade.
Veja Vamos, então, gerar desemprego para sempre?
Abranches Não. O que some é o posto de trabalho, que é substituído pela máquina. Esse não existirá mais. É o caso do torneiro mecânico. A Ford, por exemplo, moderniza sua unidade de produção e demite o torneiro mecânico. As concorrentes estão fazendo o mesmo. Na indústria têxtil, é isso que está acontecendo também. A Coteminas inaugurou uma fábrica em Minas Gerais em que os teares são automatizados. Eliminaram-se as mulheres que operavam tear. Então, não adianta esse trabalhador buscar outra fábrica para exercer seu ofício. Não vai achar. A não ser que ele vá se empregar numa empresa mais atrasada. Só que essa empresa tende a sumir do mapa. Esse processo de destruição dos postos de trabalho, por outro lado, acarreta ganhos de produtividade e renovação de renda. Quando se adota um novo padrão de manufatura, será preciso criar novos empregos em outras áreas, como no setor de vendas ou no de atendimento aos clientes que compraram o novo produto.
Veja A modernização das fábricas é um processo desejável e, de qualquer maneira, irreversível. Mas ela não leva a um processo de aniquilamento de empregos em quantidade maior do que sua capacidade de criá-los?
Abranches Nos Estados Unidos esse processo destruiu cerca de 50 milhões de empregos e criou um pouco mais de 70 milhões. Hoje, 55% da força de trabalho está empregada em funções que não existiam dez anos atrás. Isso é uma enorme revolução no emprego. Aqui acontecerá isso também. Não na mesma escala, é óbvio. Não somos tão desenvolvidos como os Estados Unidos. Mas, como eles, temos uma economia grande, diversificada. Uma economia com características mais americanas que européias, portanto com mais mobilidade social e com alto potencial de crescimento. Se começarmos a crescer a taxas de 5% ou 6% ao ano, teremos uma aceleração no processo de substituição de tecnologia que causará desemprego tecnológico, destruirá empregos, mas os criará em outras áreas. Agora, não se criam novos empregos no mesmo momento em que os empregos antigos são destruídos. Primeiro, um certo número de empregos desaparece e seus ocupantes ficam na rua. Só mais tarde novos empregos surgirão, não necessariamente para aqueles que haviam sido cortados na fase anterior. Por isso, os próximos dez anos não serão exatamente tranqüilos em relação ao desemprego.
Veja Não é exagero comparar o dinamismo da economia americana com o da brasileira?
Abranches Quando se olha a economia brasileira sob o ponto de vista dos investimentos que estão sendo feitos aqui, vêem-se claramente o potencial e o dinamismo. São investimentos na malha de transportes, em produtividade, no aumento da capacidade de produção. O volume dos investimentos estrangeiros diretos cresceu 700% em quatro anos. No Brasil, o nível de consumo dobrou de tamanho em poucos anos. Mesmo com este período mais recessivo que estamos atravessando, o consumo caiu um pouco, mas não tanto que voltasse aos níveis muito baixos de antigamente. O pessoal reclama que não está vendendo em relação ao pico, que se deu em 1996. Só que estamos agora em outro patamar. Durante dez anos antes da estabilização venderam-se 500000 automóveis por ano no país. Hoje, 1,2 milhão de carros são vendidos. Quer dizer, mudou o patamar de consumo.
Veja Ainda assim, o Brasil continua dono de uma das piores taxas de distribuição de renda do planeta.
Abranches Praticamente, todas as estatísticas que dizem respeito a distribuição de renda e pobreza no Brasil têm pouco valor. A base de dados é extremamente insuficiente. Há evidências que se contrapõem, e o pesquisador aqui não tem séries históricas consistentes de pesquisas que possam ser analisadas, criticadas e de onde se possam tirar conclusões. O processo de coleta de informações sobre renda é o mais precário de todos, em qualquer parte do mundo. Aqui, as dificuldades crescem por causa da inflação de décadas, da informalidade na economia e do excesso de formalismo contratual que faz com que se interprete renda como só aquela que é garantida por contrato. Ou seja, não se registra como renda no Brasil tudo aquilo que é renda informal. Esse processo serve para falsificar boa parte das informações sobre o assunto. Depois, pegam-se esses dados e tiram-se conclusões a respeito do nível de pobreza e distribuição de renda. São hipóteses pouco aceitáveis cientificamente. No caso da pesquisa de renda dos mais pobres e dos mais ricos tem-se muita desigualdade na qualidade das informações, por motivos óbvios. Uns pelo caráter informal da renda. E os outros por sonegação. Então, podem-se estar produzindo inúmeras distorções nessas contas.
Veja Por exemplo?
Abranches Há coisas que não se encaixam de maneira alguma nos números que retratam o Brasil. Pelas estatísticas demográficas, sabe-se que os níveis de mortalidade estão caindo. Há vários outros indicadores de que está aumentando o bem-estar do brasileiro. Pois bem: como isso pode ser compatível com a afirmação de que a pobreza aumentou nos últimos anos? Claramente não é compatível. Mas é o que diz continuamente a oposição e mesmo órgãos do governo. Veja um exemplo de distorção: a mídia vive publicando, a partir muitas vezes de informes do próprio governo, que a concentração de renda era menor nos tempos de inflação alta do que agora. Isso é para jogar fora todos os textos já escritos sobre inflação e concentração de renda. De duas, uma: ou não estão sabendo medir a inflação ou estão errando na avaliação estatística da distribuição de renda. Uma das duas coisas está mal mensurada. Imagino que não seja a inflação, porque sempre tivemos muito interesse em medi-la direito. Da mesma forma, quando se olha os indicadores sobre a quantidade de domicílios com geladeira, fogão e televisão, percebe-se que essa realidade não é incompatível com o nível de renda que se determina para a sociedade brasileira. Não estou dizendo que não existe pobreza ou desigualdade. A questão é que elas são menores do que se diz.
Veja O senhor quer dizer que o país está afogado em números e estatísticas fictícias?
Abranches A base de dados e as séries históricas são muito fracas e há muito pouca pesquisa. Há um uso superficial das informações, o que acaba fazendo com que a própria qualidade dos dados não seja posta em discussão. Outro aspecto é que o IBGE é uma instituição que não tem orçamento suficiente e não se atualizou o bastante para poder acompanhar a demanda de geração de informação do país. O Brasil mudou muito e as estatísticas não. O diagnóstico quantitativo das ciências sociais sobre o Brasil é muito precário. Os últimos trabalhos importantes nesse campo têm quase vinte anos. A partir daí, há muito ensaio, muita opinião e pouca pesquisa. Essa situação cria um ambiente propício à enganação através dos números. Inventa-se um porcentual qualquer e ele tem enorme chance de aparecer até em relatórios de organismos internacionais. Há uma gigantesca quantidade de bobagens que acaba ganhando chancela oficial.
Veja Há indicações de que teremos uma das campanhas eleitorais mais frias da História. Por que estão desaparecendo as discussões apaixonadas que caracterizavam as eleições do passado?
Abranches Basicamente, por duas razões. A primeira é que a divisão ideológica entre capitalismo e socialismo desapareceu com o fim do socialismo. Também não existe mais de forma contundente o debate do estatismo contra o liberalismo. A crise fiscal do Estado tornou impossível manter níveis adequados de investimentos nas estatais. É uma polêmica a menos para as eleições. O debate, agora, se volta para temas mais concretos e específicos, como saúde e educação. A população está mais pragmática.
Veja Quem é o eleitor brasileiro? O que ele quer e aspira?
Abranches O eleitor brasileiro é parecido com o eleitor das democracias avançadas do pós-guerra. Ele é basicamente um eleitor que vota pelo seu bem-estar material. Isso fica muito claro quando se pergunta a ele o que prefere: progressos com danos ao meio ambiente ou menos crescimento econômico com mais preservação. Provavelmente, a primeira opção seria a escolhida. Foi isso que ocorreu em todos os países que hoje são considerados desenvolvidos. No caso do Brasil, o eleitor vota basicamente a favor de sua renda. Ele tem forte na cabeça a questão da estabilidade, do emprego.
Veja Por que o Lula não tem sido capaz de empolgar o eleitor, e mesmo a militância petista parece apática?
Abranches Porque o Brasil mudou, e o Lula não. Um grande pedaço do Brasil de 1989, quando ele quase chegou lá, ainda olhava pelo espelho retrovisor. Nós ainda estávamos ajustando contas com nosso passado. Desde então, ele fez alterações apenas superficiais em sua visão de mundo. Mas, no fundo, continua pensando rigorosamente as mesmas coisas. Por isso, acabou se tornando uma figura que não tem nada de novo ou empolgante a propor. Não mostra caminhos para a população, mas só os defeitos do país. Muitos deles com exagero porque ele não enxerga as melhorias pelas quais diversos setores do Brasil passaram. Lula deveria ter-se preparado melhor para uma nova campanha eleitoral. Mas ele e o PT congelaram a visão deles no passado, e o Brasil rapidamente começou a olhar para a frente. O Lula se recusa a fazer isso.
Veja O que se pode esperar de um eventual segundo mandato do presidente Fernando Henrique? Muita gente acredita que ele tentaria reaproximar-se mais da esquerda ou, como querem alguns, de sua biografia. Há lógica nisso?
Abranches Certamente a idéia de chegar mais perto da esquerda e de sua biografia é falsa. Não existe possibilidade de um presidente como Fernando Henrique, de repente, se mover na direção de uma esquerda que ele sabe que não tem alternativas para um país como o Brasil. Acho que Fernando Henrique terminará o processo de reformas para eliminar as restrições ao crescimento econômico e implantar um modelo de crescimento sustentado que permita dobrar a renda per capita do brasileiro em alguns anos.
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