O beletrista do Planalto
O novo romance de Sarney não é
pior que
a média da literatura brasileira
Carlos Graieb
Ana Araujo
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| Sarney: regionalismo e culto à
metáfora |
José Sarney, mais uma vez, está trocando
o jaquetão pelo fardão. Dizendo de outra maneira,
ele está prestes a despir seu uniforme de parlamentar
(aquele indefectível terno de abotoamento cruzado)
e assumir o figurino de escritor e membro da Academia Brasileira
de Letras. Cinco anos depois de lançar O Dono
do Mar, o ex-presidente, hoje senador pelo Amapá,
acaba de enviar para a gráfica o seu segundo romance.
O livro se chama Saraminda e deve chegar às
prateleiras na primeira semana de agosto, pela editora Siciliano.
Numa ocasião como esta, partir para a zombaria é
o primeiro impulso. Não é sempre que um político
se entrega assim, de mão beijada, sem imunidade parlamentar,
ao julgamento da população. Mas é preciso
resistir à tentação. A obra de Sarney
é importante. Ela é de enorme utilidade para
quem deseja refletir sobre a literatura brasileira. Vejamos.
A primeira observação a ser feita é
que Sarney sempre se dedicou com afinco à literatura.
Quando moço, ele só pensava em escrever. Foi
sua a iniciativa de criar um suplemento de livros para o
diário O Imparcial, de São Luís
do Maranhão. E foi também dele a idéia
de lançar uma revista chamada A Ilha, para
chacoalhar a cultura nordestina no final dos anos 40. Em
1952, Sarney publicou seu primeiro livro de poemas, A
Canção Inicial. A vocação
de escritor parecia estar consolidada. Mas então
veio a guinada: ele ingressou na política. Os livros,
ele confessa, ficaram em segundo plano. Mas nunca esquecidos.
"Eu ainda sonhava em conquistar um espaço na literatura
brasileira", diz Sarney. E assim, com o passar dos anos,
uma pequena obra foi ganhando forma: mais um livro de poemas,
Os Marimbondos de Fogo; dois livros de contos,
Norte das Águas e Brejal dos Guajas;
e dois romances, O Dono do Mar e Saraminda. Erra,
portanto, quem diz que José Sarney não é
um escritor de verdade. Muito pelo contrário. Ele
é um típico autor brasileiro. O que nos leva
a uma segunda observação.
Sarney é um regionalista. Literatura regionalista
é aquela que aposta na "cor local". Normalmente seus
personagens são rústicos e o cenário
é uma paragem longínqua. Saraminda,
por exemplo: toda a história se passa nas florestas
do Amapá e na cidadezinha de Caiena, capital da Guiana
Francesa, na virada entre os séculos XIX e XX. Quanto
aos personagens, são prostitutas e garimpeiros, que
acabam de descobrir ouro na região. O regionalismo
foi de extrema importância para a ficção
brasileira. Ele levou os escritores a explorar a realidade
nacional e, mais ainda, a denunciar o atraso e a miséria
do "Brasil profundo". Alguns dos principais escritores do
século surgiram dessa vertente, entre eles Graciliano
Ramos e Guimarães Rosa, que foram mais longe ainda
e se tornaram exímios inventores de linguagem. Mas
aqui surge um problema: o auge desse tipo de ficção
foi alcançado entre os anos 40 e 50. Desde então,
a fórmula foi se tornando cada vez mais surrada,
desgastada, corrompida. Em vez da indignação
que transpirava das primeiras obras de Graciliano Ramos,
os autores tardios se deixaram seduzir cada vez mais pelo
exotismo do agreste. Como disse certa vez o crítico
Antonio Candido, o regionalismo "reduziu os problemas humanos
a elementos pitorescos, fazendo da paixão e do sofrimento
do homem rural o equivalente do papaia e do abacaxi".
Homens e cachorros É isso o que oferece
Saraminda. Embora Sarney tenha realizado extensas
pesquisas antes de escrever seu livro, quase todas as questões
históricas e políticas implicadas no enredo
são deixadas de lado, ou abordadas apenas de raspão.
O que interessa são os aspectos "mágicos"
da narrativa e a paixão que a personagem-título,
uma prostituta negra com mamilos da cor do ouro, desperta
não só nos homens, mas até nos cachorros
que vivem à sua volta. Ora, personagens e enredos
semelhantes podem ser encontrados nas piores obras de Jorge
Amado, como Tereza Batista Cansada de Guerra. Ou
em livros de João Ubaldo Ribeiro, como O Feitiço
da Ilha do Pavão. Sarney, dizíamos, não
está sozinho o que ajuda também a entender
o porquê de ele sempre ter encontrado defensores.
O próprio Jorge Amado já derramou louvações
sobre a obra do ex-presidente. E os franceses se encantaram
com o Brasil "mágico", tipo exportação,
que emerge das páginas de O Dono do Mar. A
ponto de o antropólogo Claude Lévi-Strauss
ter chamado o romance de "monumental".
Isso nos leva a uma terceira constatação:
muito da hostilidade dirigida contra José Sarney
advém do fato de ele ser político. Sempre
que ele lança um livro, os críticos batem
nele sem piedade. Basta lembrar dos artigos ultra-ácidos
escritos pelo jornalista Millôr Fernandes em 1995,
ano da publicação de O Dono do Mar. "Sarney
escreve obras extraordinárias", disse Millôr.
"Quem as larga uma vez, não consegue mais pegar."
O curioso é que raramente a mesma ira é dirigida
contra outros autores regionalistas, como Francisco Dantas
ou Josué Montello, cujos livros são lançados
sem causar nenhum barulho. Se fosse apenas um romancista,
e não um ex-presidente, é possível
que Sarney recebesse a mesma espécie de tratamento
reservada a esses autores. Ele causaria apenas mais um bocejo,
num cenário cultural aborrecido. Seria um conservador,
fazendo obras conservadoras. Seria um beletrista. Um escritor
ameno, que tem paixão pelas metáforas, pela
linguagem de raiz popular e pelo erotismo light daquele
que não chega a ruborizar nem as damas da TFP. Se
não fosse um ex-presidente, ninguém se preocuparia
em amar ou odiar os textos de José Sarney. Ele freqüentaria
os chás da Academia Brasileira de Letras, trocaria
piadas eruditas com os amigos. E os dias iriam passando,
até o esquecimento.
Pepitas incrustadas
" Tire a roupa, você é mulher
de bordel, não tem que pensar, nem romance,
quero ver seus peitos falou cambaleando.
Saraminda retrucou, resoluta:
Seu Cleto, me trate com respeito. Não
sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto.
Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma
sem-vergonha.
Arrematei você por preço alto
e quero receber a mercadoria. Sou assim e não
sei esperar. Pago mulher para ela ser como eu quero.
Deixa de sestro. Já estou me chateando (...)
Não sei retrucou Saraminda isso
é questão sua. Veja lá, Seu Bonfim
abriu a blusa e mostrou os seios, apertando os
mamilos , isto não é mercadoria para
ser comprada assim. É coisa minha, rara da
natureza, que eu não jogo fora. Veja o valor
deles e me trate de outro jeito, sem bebida e sem
brutalidade.
Cleto abriu bem os olhos e viu nos seios escuros
as pepitas incrustadas, de um amarelo intenso, derramado,
a mesma cor das pequenas flores da ucuuba.
Que é mesmo que eu estou vendo?
balbuciou Cleto, quase caindo.
Pois veja, Cleto Bonfim."
Trecho de Saraminda
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