Edição 1 658 - 19/7/2000

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O beletrista do Planalto

O novo romance de Sarney não é pior que
a média da literatura brasileira

Carlos Graieb

 
Ana Araujo
Sarney: regionalismo e culto à metáfora

José Sarney, mais uma vez, está trocando o jaquetão pelo fardão. Dizendo de outra maneira, ele está prestes a despir seu uniforme de parlamentar (aquele indefectível terno de abotoamento cruzado) e assumir o figurino de escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Cinco anos depois de lançar O Dono do Mar, o ex-presidente, hoje senador pelo Amapá, acaba de enviar para a gráfica o seu segundo romance. O livro se chama Saraminda e deve chegar às prateleiras na primeira semana de agosto, pela editora Siciliano. Numa ocasião como esta, partir para a zombaria é o primeiro impulso. Não é sempre que um político se entrega assim, de mão beijada, sem imunidade parlamentar, ao julgamento da população. Mas é preciso resistir à tentação. A obra de Sarney é importante. Ela é de enorme utilidade para quem deseja refletir sobre a literatura brasileira. Vejamos.

A primeira observação a ser feita é que Sarney sempre se dedicou com afinco à literatura. Quando moço, ele só pensava em escrever. Foi sua a iniciativa de criar um suplemento de livros para o diário O Imparcial, de São Luís do Maranhão. E foi também dele a idéia de lançar uma revista chamada A Ilha, para chacoalhar a cultura nordestina no final dos anos 40. Em 1952, Sarney publicou seu primeiro livro de poemas, A Canção Inicial. A vocação de escritor parecia estar consolidada. Mas então veio a guinada: ele ingressou na política. Os livros, ele confessa, ficaram em segundo plano. Mas nunca esquecidos. "Eu ainda sonhava em conquistar um espaço na literatura brasileira", diz Sarney. E assim, com o passar dos anos, uma pequena obra foi ganhando forma: mais um livro de poemas, Os Marimbondos de Fogo; dois livros de contos, Norte das Águas e Brejal dos Guajas; e dois romances, O Dono do Mar e Saraminda. Erra, portanto, quem diz que José Sarney não é um escritor de verdade. Muito pelo contrário. Ele é um típico autor brasileiro. O que nos leva a uma segunda observação.

Sarney é um regionalista. Literatura regionalista é aquela que aposta na "cor local". Normalmente seus personagens são rústicos e o cenário é uma paragem longínqua. Saraminda, por exemplo: toda a história se passa nas florestas do Amapá e na cidadezinha de Caiena, capital da Guiana Francesa, na virada entre os séculos XIX e XX. Quanto aos personagens, são prostitutas e garimpeiros, que acabam de descobrir ouro na região. O regionalismo foi de extrema importância para a ficção brasileira. Ele levou os escritores a explorar a realidade nacional e, mais ainda, a denunciar o atraso e a miséria do "Brasil profundo". Alguns dos principais escritores do século surgiram dessa vertente, entre eles Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, que foram mais longe ainda e se tornaram exímios inventores de linguagem. Mas aqui surge um problema: o auge desse tipo de ficção foi alcançado entre os anos 40 e 50. Desde então, a fórmula foi se tornando cada vez mais surrada, desgastada, corrompida. Em vez da indignação que transpirava das primeiras obras de Graciliano Ramos, os autores tardios se deixaram seduzir cada vez mais pelo exotismo do agreste. Como disse certa vez o crítico Antonio Candido, o regionalismo "reduziu os problemas humanos a elementos pitorescos, fazendo da paixão e do sofrimento do homem rural o equivalente do papaia e do abacaxi".

Homens e cachorros – É isso o que oferece Saraminda. Embora Sarney tenha realizado extensas pesquisas antes de escrever seu livro, quase todas as questões históricas e políticas implicadas no enredo são deixadas de lado, ou abordadas apenas de raspão. O que interessa são os aspectos "mágicos" da narrativa e a paixão que a personagem-título, uma prostituta negra com mamilos da cor do ouro, desperta não só nos homens, mas até nos cachorros que vivem à sua volta. Ora, personagens e enredos semelhantes podem ser encontrados nas piores obras de Jorge Amado, como Tereza Batista Cansada de Guerra. Ou em livros de João Ubaldo Ribeiro, como O Feitiço da Ilha do Pavão. Sarney, dizíamos, não está sozinho – o que ajuda também a entender o porquê de ele sempre ter encontrado defensores. O próprio Jorge Amado já derramou louvações sobre a obra do ex-presidente. E os franceses se encantaram com o Brasil "mágico", tipo exportação, que emerge das páginas de O Dono do Mar. A ponto de o antropólogo Claude Lévi-Strauss ter chamado o romance de "monumental".

Isso nos leva a uma terceira constatação: muito da hostilidade dirigida contra José Sarney advém do fato de ele ser político. Sempre que ele lança um livro, os críticos batem nele sem piedade. Basta lembrar dos artigos ultra-ácidos escritos pelo jornalista Millôr Fernandes em 1995, ano da publicação de O Dono do Mar. "Sarney escreve obras extraordinárias", disse Millôr. "Quem as larga uma vez, não consegue mais pegar." O curioso é que raramente a mesma ira é dirigida contra outros autores regionalistas, como Francisco Dantas ou Josué Montello, cujos livros são lançados sem causar nenhum barulho. Se fosse apenas um romancista, e não um ex-presidente, é possível que Sarney recebesse a mesma espécie de tratamento reservada a esses autores. Ele causaria apenas mais um bocejo, num cenário cultural aborrecido. Seria um conservador, fazendo obras conservadoras. Seria um beletrista. Um escritor ameno, que tem paixão pelas metáforas, pela linguagem de raiz popular e pelo erotismo light – daquele que não chega a ruborizar nem as damas da TFP. Se não fosse um ex-presidente, ninguém se preocuparia em amar ou odiar os textos de José Sarney. Ele freqüentaria os chás da Academia Brasileira de Letras, trocaria piadas eruditas com os amigos. E os dias iriam passando, até o esquecimento.

 

Pepitas incrustadas

" – Tire a roupa, você é mulher de bordel, não tem que pensar, nem romance, quero ver seus peitos – falou cambaleando.

Saraminda retrucou, resoluta:

– Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha.

– Arrematei você por preço alto e quero receber a mercadoria. Sou assim e não sei esperar. Pago mulher para ela ser como eu quero. Deixa de sestro. Já estou me chateando (...)

– Não sei – retrucou Saraminda – isso é questão sua. Veja lá, Seu Bonfim – abriu a blusa e mostrou os seios, apertando os mamilos –, isto não é mercadoria para ser comprada assim. É coisa minha, rara da natureza, que eu não jogo fora. Veja o valor deles e me trate de outro jeito, sem bebida e sem brutalidade.

Cleto abriu bem os olhos e viu nos seios escuros as pepitas incrustadas, de um amarelo intenso, derramado, a mesma cor das pequenas flores da ucuuba.

– Que é mesmo que eu estou vendo? – balbuciou Cleto, quase caindo.

– Pois veja, Cleto Bonfim."

Trecho de Saraminda

 
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