Caracalla é aqui
Eles estão em decadência. Mas
ao
assistir aos três tenores em São Paulo
ainda vale a pena
Sérgio Martins
No próximo sábado, o estádio do Morumbi, em São Paulo,
hospedará um concerto dos três tenores –
os espanhóis Placido Domingo e José Carreras e o italiano
Luciano Pavarotti. Se todos os ingressos forem vendidos,
o público será de 65.000 pessoas, o maior em um evento de
música lírica no Brasil em todos os tempos. Pela apresentação,
os cantores receberão cachês que, somados, batem em 1 milhão
de dólares. As cifras são ainda mais respeitáveis se se
levar em conta que ópera, por aqui, é tão popular quanto
hóquei sobre o gelo.
O fenômeno "três tenores" é curioso. Até 1990, eles nunca
haviam cantado juntos. Tratavam-se como rivais. Luciano
Pavarotti nem sequer pronunciava o nome de seus concorrentes
– referia-se a eles como "aqueles
dois espanhóis". Quem teve a idéia de reuni-los na véspera
da final da Copa do Mundo da Itália, nas Termas de Caracalla,
em Roma, foi Tibor Rudas, na época empresário de Pavarotti.
O concerto em que cantaram árias de óperas famosas e algumas
canções populares foi um sucesso. Resultou num disco que
vendeu 6 milhões de cópias e deu novo fôlego à carreira
do regente indiano Zubin Mehta, que andava de farol baixo
após ter sido defenestrado da Filarmônica de Nova York.
O CD iniciou também uma nova era. Hoje, 40% dos discos do
segmento de música clássica vendidos no mundo são de cantores
líricos que entoam trechos de obras líricas. Esse mercado,
que engendrou astros como o italiano Andrea Bocelli e a
galesa Charlotte Church, praticamente não existia dez anos
atrás. Em Caracalla, Domingo, Carreras e Pavarotti declararam
que só repetiriam o feito em ocasiões muito especiais. Não
queriam que seus nomes ficassem associados, como se fossem
uma espécie de Trio Ternura da ópera. A prioridade, na época,
era a carreira individual.
Vaia em Milão – Mantiveram
a promessa só até a Copa seguinte, em 1994. Depois dela,
começaram a se apresentar em conjunto com freqüência cada
vez maior. É fácil entender a razão da mudança. Com idades
entre 53 e 64 anos, eles estão em franco declínio nos palcos
da ópera, onde foram substituídos por uma nova geração.
Pavarotti começou a decair em 1992, quando foi vaiado pelo
impiedoso público do Teatro Alla Scala de Milão durante
uma apresentação do Otello de Verdi. De lá para cá, nunca
mais foi o mesmo. "Aos 64 anos, ele está vivendo o crepúsculo
de sua carreira", acredita o especialista britânico Nick
Evans, editor da revista Classic CD. José Carreras, por
sua vez, há dois anos não se apresenta na principal temporada
operística do mundo, a do Metropolitan de Nova York. Já
Domingo está um pouco melhor. Foi escalado para fazer um
Sansão e Dalila no Metropolitan neste ano e vem desenvolvendo
paralelamente uma carreira de regente. É também diretor
artístico das óperas de Los Angeles e de Washington. Domingo,
Carreras e Pavarotti já não estão no auge, mas isso não
significa que o concerto de sábado seja um programa de índio.
Os cantores são marcos da música do século XX. E, dadas
a idade e a agenda dos três, dificilmente se juntarão novamente
em terras brasileiras.