Edição 1 658 - 19/7/2000

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Caracalla é aqui

Eles estão em decadência. Mas ao
assistir aos três tenores em São Paulo
ainda vale a pena

Sérgio Martins

No próximo sábado, o estádio do Morumbi, em São Paulo, hospedará um concerto dos três tenores os espanhóis Placido Domingo e José Carreras e o italiano Luciano Pavarotti. Se todos os ingressos forem vendidos, o público será de 65.000 pessoas, o maior em um evento de música lírica no Brasil em todos os tempos. Pela apresentação, os cantores receberão cachês que, somados, batem em 1 milhão de dólares. As cifras são ainda mais respeitáveis se se levar em conta que ópera, por aqui, é tão popular quanto hóquei sobre o gelo.

O fenômeno "três tenores" é curioso. Até 1990, eles nunca haviam cantado juntos. Tratavam-se como rivais. Luciano Pavarotti nem sequer pronunciava o nome de seus concorrentes referia-se a eles como "aqueles dois espanhóis". Quem teve a idéia de reuni-los na véspera da final da Copa do Mundo da Itália, nas Termas de Caracalla, em Roma, foi Tibor Rudas, na época empresário de Pavarotti. O concerto em que cantaram árias de óperas famosas e algumas canções populares foi um sucesso. Resultou num disco que vendeu 6 milhões de cópias e deu novo fôlego à carreira do regente indiano Zubin Mehta, que andava de farol baixo após ter sido defenestrado da Filarmônica de Nova York. O CD iniciou também uma nova era. Hoje, 40% dos discos do segmento de música clássica vendidos no mundo são de cantores líricos que entoam trechos de obras líricas. Esse mercado, que engendrou astros como o italiano Andrea Bocelli e a galesa Charlotte Church, praticamente não existia dez anos atrás. Em Caracalla, Domingo, Carreras e Pavarotti declararam que só repetiriam o feito em ocasiões muito especiais. Não queriam que seus nomes ficassem associados, como se fossem uma espécie de Trio Ternura da ópera. A prioridade, na época, era a carreira individual.

Vaia em Milão Mantiveram a promessa só até a Copa seguinte, em 1994. Depois dela, começaram a se apresentar em conjunto com freqüência cada vez maior. É fácil entender a razão da mudança. Com idades entre 53 e 64 anos, eles estão em franco declínio nos palcos da ópera, onde foram substituídos por uma nova geração. Pavarotti começou a decair em 1992, quando foi vaiado pelo impiedoso público do Teatro Alla Scala de Milão durante uma apresentação do Otello de Verdi. De lá para cá, nunca mais foi o mesmo. "Aos 64 anos, ele está vivendo o crepúsculo de sua carreira", acredita o especialista britânico Nick Evans, editor da revista Classic CD. José Carreras, por sua vez, há dois anos não se apresenta na principal temporada operística do mundo, a do Metropolitan de Nova York. Já Domingo está um pouco melhor. Foi escalado para fazer um Sansão e Dalila no Metropolitan neste ano e vem desenvolvendo paralelamente uma carreira de regente. É também diretor artístico das óperas de Los Angeles e de Washington. Domingo, Carreras e Pavarotti já não estão no auge, mas isso não significa que o concerto de sábado seja um programa de índio. Os cantores são marcos da música do século XX. E, dadas a idade e a agenda dos três, dificilmente se juntarão novamente em terras brasileiras.