Edição 1 658 - 19/7/2000

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Cidadão do mundo

O finlandês Mika Kaurismäki, radicado no Brasil,
acerta em comédia sobre Los Angeles

Isabela Boscov

 
Selmy Yassuda
Kaurismäki, no seu Mika's Bar, em Ipanema: "Fiz amigos e fui ficando"

O finlandês Mika Kaurismäki é um sujeito globalizado: morador do bairro carioca de Santa Tereza e dono de um bar em Ipanema, o Mika's Bar, ele fundou um festival de cinema perto do Pólo Norte, na Lapônia, em colaboração com seu irmão, o também cineasta Aki, e dirige filmes como o delicioso Absolutamente Los Angeles (L.A. Without a Map, Finlândia/França/Inglaterra, 1998), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro. A trama desta comédia romântica também não é rotineira. Ela trata de Richard, um jovem agente funerário que troca o interior da Inglaterra pela Califórnia, em busca de uma garota americana – aspirante a atriz, claro – que ele conheceu num cemitério. Como de praxe nos filmes sobre a mais bizarra cidade do planeta, segue-se um desfile de tipos estranhos. Por exemplo: um pastor que fez de limpar piscinas sua missão espiritual e acredita que "Deus não deu clima inclemente aos californianos porque eles seriam emocionalmente incapazes de lidar com algo assim". É nesse registro, sempre entre o ridículo e o afetuoso, que o filme de Kaurismäki se diferencia e marca pontos. No entanto, o tom satírico com que ele trata as figuras típicas de Los Angeles – agentes, diretores, produtores – não agradou a todo mundo. "Durante a exibição num festival, a platéia toda ria, enquanto os executivos de Hollywood permaneciam impassíveis", diz Kaurismäki, num português peculiaríssimo.


Absolutamente Los Angeles: entre o ridículo e o afetuoso

Não que ele se importe muito em agradar aos mandachuvas da indústria cinematográfica americana. Há dez anos morando no Brasil ("Vim rodar um filme, fiz amigos e fui ficando"), ele afirma ter recusado várias ofertas de trabalho dos grandes estúdios. Prefere fazer filmes como Absolutamente Los Angeles ou o documentário Tigrero, pelo qual é mais conhecido aqui, no qual promovia um reencontro entre o diretor americano Samuel Fuller e os índios carajás que ele havia filmado em 1954 na tentativa (frustrada) de convencer a Fox a apostar num filme de selva com John Wayne e Ava Gardner. No momento, Kaurismäki prepara um documentário intitulado Moro no Brasil, sobre a música do país. Em boa companhia ele está: os produtores são os mesmos do ótimo Buena Vista Social Club, dirigido pelo alemão Wim Wenders.