Cidadão do mundo
O finlandês Mika Kaurismäki,
radicado no Brasil,
acerta em comédia sobre Los Angeles
Isabela Boscov
Selmy Yassuda
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| Kaurismäki,
no seu Mika's
Bar, em Ipanema:
"Fiz amigos e
fui ficando" |
O finlandês Mika Kaurismäki é um sujeito
globalizado: morador do bairro carioca de Santa Tereza e
dono de um bar em Ipanema, o Mika's Bar, ele fundou um festival
de cinema perto do Pólo Norte, na Lapônia,
em colaboração com seu irmão, o também
cineasta Aki, e dirige filmes como o delicioso Absolutamente
Los Angeles (L.A. Without a Map, Finlândia/França/Inglaterra,
1998), que estréia nesta sexta-feira em São
Paulo e no Rio de Janeiro. A trama desta comédia
romântica também não é rotineira.
Ela trata de Richard, um jovem agente funerário que
troca o interior da Inglaterra pela Califórnia, em
busca de uma garota americana aspirante a atriz,
claro que ele conheceu num cemitério. Como
de praxe nos filmes sobre a mais bizarra cidade do planeta,
segue-se um desfile de tipos estranhos. Por exemplo: um
pastor que fez de limpar piscinas sua missão espiritual
e acredita que "Deus não deu clima inclemente aos
californianos porque eles seriam emocionalmente incapazes
de lidar com algo assim". É nesse registro, sempre
entre o ridículo e o afetuoso, que o filme de Kaurismäki
se diferencia e marca pontos. No entanto, o tom satírico
com que ele trata as figuras típicas de Los Angeles
agentes, diretores, produtores não
agradou a todo mundo. "Durante a exibição
num festival, a platéia toda ria, enquanto os executivos
de Hollywood permaneciam impassíveis", diz Kaurismäki,
num português peculiaríssimo.
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| Absolutamente Los
Angeles: entre o ridículo
e o afetuoso |
Não que ele se importe muito em agradar aos mandachuvas
da indústria cinematográfica americana. Há
dez anos morando no Brasil ("Vim rodar um filme, fiz amigos
e fui ficando"), ele afirma ter recusado várias ofertas
de trabalho dos grandes estúdios. Prefere fazer filmes
como Absolutamente Los Angeles ou o documentário
Tigrero, pelo qual é mais conhecido aqui,
no qual promovia um reencontro entre o diretor americano
Samuel Fuller e os índios carajás que ele
havia filmado em 1954 na tentativa (frustrada) de convencer
a Fox a apostar num filme de selva com John Wayne e Ava
Gardner. No momento, Kaurismäki prepara um documentário
intitulado Moro no Brasil, sobre a música
do país. Em boa companhia ele está: os produtores
são os mesmos do ótimo Buena Vista Social
Club, dirigido pelo alemão Wim Wenders.