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Um banho de sangue
A Revolução Americana é
pretexto para
uma carnificina no novo filme de Mel Gibson
Isabela Boscov
Na cena mais chocante de O Patriota (The
Patriot, Estados Unidos, 2000), o personagem de Mel
Gibson põe um rifle nas mãos de cada um de
seus filhos pequenos, coloca-os em posição
de emboscada e ensina: "Atirem primeiro nos oficiais mais
graduados". Os garotos, de 10 e 11 anos, obedecem, mas tremem
de espanto e medo ao ver o pai esquartejar um soldado inimigo
com uma machadinha, golpeando-o repetidas vezes. É
verdade que o ataque tem razão de ser. Estamos no
final dos anos 1770, em plena guerra dos colonos americanos
para se libertar da Coroa britânica, e o filho mais
velho de Gibson, capturado por uma patrulha inglesa, está
a caminho da forca. Salvar um filho e mandar às favas
os opressores colonialistas eis aí duas causas
justas. O problema é que em O Patriota, que
estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, as
boas causas freqüentemente não passam de pretexto
para a carnificina. A embalagem tem a nobreza da história,
mas a principal missão do diretor alemão Roland
Emmerich (de Independence Day e Godzilla)
é, por assim dizer, deleitar a platéia com
os danos corporais extremos que os mosquetes, as espadas
e as baionetas do século XVIII eram capazes de infligir.
Como Emmerich é um cineasta tecnicamente competente,
é quase impossível o espectador não
reagir a essas cenas e depois se sentir mal por ter
caído na armadilha.
É uma maneira de atrair o público para um
tema que sempre fracassou nas bilheterias: a guerra da independência
americana. A isca mais sedutora nessa estratégia
é Mel Gibson. Ele interpreta o fazendeiro Benjamin
Martin, um viúvo às voltas com seus sete filhos
e suas plantações na Carolina do Sul. Martin
evita entrar na briga com os ingleses, mas não porque
seja um sujeito pacato: ele tem um passado violento, que
deseja manter enterrado. Quando a guerra vem visitá-lo
em casa, contudo, ele acaba cedendo. Logo poderá
ser visto no comando de uma milícia que causará
muitos dissabores aos ingleses. A trama lembra vários
outros filmes do ator, de Mad Max a Coração
Valente e O Preço de um Resgate. É
fácil explicar: Gibson é, de longe, o mais
passional dos heróis de ação do cinema.
Convence facilmente como homem de família, até
porque vive esse papel em casa, com seus próprios
sete filhos. Mas tem também aquele brilho atarantado
no olhar que sugere que mexer com ele pode ser uma péssima
idéia.
Fominhas e sanguinários Quem
não está gostando nem um pouco de O Patriota
são os ingleses. A imprensa britânica tem dedicado
uma enxurrada de artigos irados ao filme e ao seu astro.
A pendenga começou com outra fita, U-571,
em que se atribui aos americanos um episódio decisivo
da II Guerra: a captura de uma máquina alemã
de códigos, a Enigma, façanha que na verdade
foi realizada por soldados britânicos. Até
o primeiro-ministro Tony Blair reclamou. Agora eles protestam
contra a maneira como são retratados em O Patriota:
incompetentes, fominhas e sanguinários. O pivô
do desconforto é o vilão, um pérfido
coronel inglês que executa mulheres e crianças
por prazer e transforma num inferno a vida de Benjamin Martin
e de seu filho mais velho, Gabriel (vivido pelo australiano
Heath Ledger, um novato bonitão que vem causando
furor). Também não ajuda muito o fato de que,
há poucos anos, Gibson já havia feito dos
ingleses vilões detestáveis em Coração
Valente. O Patriota enaltece a coragem dos colonos
em sua luta pela liberdade, mas causa um tremendo incômodo
no atual contexto americano. No momento em que o governo
dos Estados Unidos tenta controlar a venda de armas no país,
o filme reforça a idéia de que, para defender
o que é seu, o cidadão tem o direito de atirar
em quem vê pela frente.
A terra dos machões
vulneráveis
Não há dúvida que os astros
vindos da Austrália viraram uma febre em Hollywood.
Motivo: o jeito todo especial para compor tipos genuinamente
másculos, mas com uma encantadora pontinha
de vulnerabilidade. Mel Gibson, por exemplo, bate
bastante em O Patriota, mas também sofre
muito e faz questão de demonstrá-lo.
Idem Russell Crowe em Gladiador. O personagem
de Heath Ledger encara os piores desafios, mas, quando
sorri, é capaz de derreter o mais endurecido
coração colonialista. Para ostentar
esse ar viril de forma convincente, só mesmo
tendo sido criado na última terra de Marlboro
do planeta, onde derrubar gado no pasto e cruzar o
deserto são atividades razoavelmente normais.
Mesmo que seja um típico urbanóide,
todo australiano que se preze está sempre em
contato com sua porção caubói.
A jornalista australiana Belinda Luscombe, da revista
Time, recentemente deu alguns exemplos desse
jeito de ser dos varões de seu país
e de seu vizinho, a Nova Zelândia. O maior feriado
local, diz ela, é o Anzac Day, que marca a
pior derrota militar da História nacional.
Em suma: australianos não choramingam (isso
é coisa de inglês) e se orgulham até
das sovas que levaram. Esse excesso de macheza impede,
por exemplo, que ao tomar um táxi eles se sentem
no banco de trás do veículo e se
alguém achar que enfrescaram? Belinda explica
que foi esse o raciocínio que levou Russell
Crowe a fazer cara feia na cerimônia do Oscar
deste ano. Não era mau humor. A idéia,
diz ela, era mostrar para o pessoal lá de casa
que o sucesso não lhe subiu à cabeça.
Se bancasse o deslumbrado, correria o risco de não
ser mais convidado para os churrascos dos amigos.
Quem já participou desse ritual, aliás,
sabe que a etiqueta exige que se compareça
com a barba malfeita (mulheres estão liberadas
dessa cláusula) e se beba muita cerveja (a
australiana é ótima).
Lógico que outros fatores contribuem para
a invasão austral. Esses emigrados começaram
a carreira longe da badalação de Hollywood.
Ou seja, tiveram a chance de aprender ao menos os
rudimentos da arte de interpretar antes de se tornar
conhecidos. São tão versáteis
quanto os atores ingleses, mas têm um jeitão
despojado que agrada ao gosto americano. E vêm
de um cenário cada vez mais efervescente. Até
1975, o cinema australiano era dos mais minguados.
A partir dessa data, virou item prioritário
no programa cultural do país e as produções
e os talentos se multiplicaram. Acima de tudo, no
entanto, os atores australianos têm aquele "it"
que Meg Ryan já aprendeu a apreciar de perto
a namoradinha da América está dando
um tempo no casamento com Dennis Quaid, a fim de conhecer
biblicamente Crowe. As atrizes australianas também
andam em alta, como demonstram Nicole Kidman, Cate
Blanchett (de Elizabeth) e Toni Collette (O
Sexto Sentido). Uma explicação?
Bem, depois de tourear rapazes assim, o ambiente de
Hollywood deve ser fichinha para elas.
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