Edição 1 658 - 19/7/2000

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Um banho de sangue

A Revolução Americana é pretexto para
uma carnificina no novo filme de Mel Gibson

Isabela Boscov

Na cena mais chocante de O Patriota (The Patriot, Estados Unidos, 2000), o personagem de Mel Gibson põe um rifle nas mãos de cada um de seus filhos pequenos, coloca-os em posição de emboscada e ensina: "Atirem primeiro nos oficiais mais graduados". Os garotos, de 10 e 11 anos, obedecem, mas tremem de espanto e medo ao ver o pai esquartejar um soldado inimigo com uma machadinha, golpeando-o repetidas vezes. É verdade que o ataque tem razão de ser. Estamos no final dos anos 1770, em plena guerra dos colonos americanos para se libertar da Coroa britânica, e o filho mais velho de Gibson, capturado por uma patrulha inglesa, está a caminho da forca. Salvar um filho e mandar às favas os opressores colonialistas – eis aí duas causas justas. O problema é que em O Patriota, que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, as boas causas freqüentemente não passam de pretexto para a carnificina. A embalagem tem a nobreza da história, mas a principal missão do diretor alemão Roland Emmerich (de Independence Day e Godzilla) é, por assim dizer, deleitar a platéia com os danos corporais extremos que os mosquetes, as espadas e as baionetas do século XVIII eram capazes de infligir. Como Emmerich é um cineasta tecnicamente competente, é quase impossível o espectador não reagir a essas cenas – e depois se sentir mal por ter caído na armadilha.

É uma maneira de atrair o público para um tema que sempre fracassou nas bilheterias: a guerra da independência americana. A isca mais sedutora nessa estratégia é Mel Gibson. Ele interpreta o fazendeiro Benjamin Martin, um viúvo às voltas com seus sete filhos e suas plantações na Carolina do Sul. Martin evita entrar na briga com os ingleses, mas não porque seja um sujeito pacato: ele tem um passado violento, que deseja manter enterrado. Quando a guerra vem visitá-lo em casa, contudo, ele acaba cedendo. Logo poderá ser visto no comando de uma milícia que causará muitos dissabores aos ingleses. A trama lembra vários outros filmes do ator, de Mad Max a Coração Valente e O Preço de um Resgate. É fácil explicar: Gibson é, de longe, o mais passional dos heróis de ação do cinema. Convence facilmente como homem de família, até porque vive esse papel em casa, com seus próprios sete filhos. Mas tem também aquele brilho atarantado no olhar que sugere que mexer com ele pode ser uma péssima idéia.

Fominhas e sanguinários Quem não está gostando nem um pouco de O Patriota são os ingleses. A imprensa britânica tem dedicado uma enxurrada de artigos irados ao filme e ao seu astro. A pendenga começou com outra fita, U-571, em que se atribui aos americanos um episódio decisivo da II Guerra: a captura de uma máquina alemã de códigos, a Enigma, façanha que na verdade foi realizada por soldados britânicos. Até o primeiro-ministro Tony Blair reclamou. Agora eles protestam contra a maneira como são retratados em O Patriota: incompetentes, fominhas e sanguinários. O pivô do desconforto é o vilão, um pérfido coronel inglês que executa mulheres e crianças por prazer e transforma num inferno a vida de Benjamin Martin e de seu filho mais velho, Gabriel (vivido pelo australiano Heath Ledger, um novato bonitão que vem causando furor). Também não ajuda muito o fato de que, há poucos anos, Gibson já havia feito dos ingleses vilões detestáveis em Coração Valente. O Patriota enaltece a coragem dos colonos em sua luta pela liberdade, mas causa um tremendo incômodo no atual contexto americano. No momento em que o governo dos Estados Unidos tenta controlar a venda de armas no país, o filme reforça a idéia de que, para defender o que é seu, o cidadão tem o direito de atirar em quem vê pela frente.

 

A terra dos machões vulneráveis

Não há dúvida que os astros vindos da Austrália viraram uma febre em Hollywood. Motivo: o jeito todo especial para compor tipos genuinamente másculos, mas com uma encantadora pontinha de vulnerabilidade. Mel Gibson, por exemplo, bate bastante em O Patriota, mas também sofre muito – e faz questão de demonstrá-lo. Idem Russell Crowe em Gladiador. O personagem de Heath Ledger encara os piores desafios, mas, quando sorri, é capaz de derreter o mais endurecido coração colonialista. Para ostentar esse ar viril de forma convincente, só mesmo tendo sido criado na última terra de Marlboro do planeta, onde derrubar gado no pasto e cruzar o deserto são atividades razoavelmente normais. Mesmo que seja um típico urbanóide, todo australiano que se preze está sempre em contato com sua porção caubói.

A jornalista australiana Belinda Luscombe, da revista Time, recentemente deu alguns exemplos desse jeito de ser dos varões de seu país e de seu vizinho, a Nova Zelândia. O maior feriado local, diz ela, é o Anzac Day, que marca a pior derrota militar da História nacional. Em suma: australianos não choramingam (isso é coisa de inglês) e se orgulham até das sovas que levaram. Esse excesso de macheza impede, por exemplo, que ao tomar um táxi eles se sentem no banco de trás do veículo – e se alguém achar que enfrescaram? Belinda explica que foi esse o raciocínio que levou Russell Crowe a fazer cara feia na cerimônia do Oscar deste ano. Não era mau humor. A idéia, diz ela, era mostrar para o pessoal lá de casa que o sucesso não lhe subiu à cabeça. Se bancasse o deslumbrado, correria o risco de não ser mais convidado para os churrascos dos amigos. Quem já participou desse ritual, aliás, sabe que a etiqueta exige que se compareça com a barba malfeita (mulheres estão liberadas dessa cláusula) e se beba muita cerveja (a australiana é ótima).

Lógico que outros fatores contribuem para a invasão austral. Esses emigrados começaram a carreira longe da badalação de Hollywood. Ou seja, tiveram a chance de aprender ao menos os rudimentos da arte de interpretar antes de se tornar conhecidos. São tão versáteis quanto os atores ingleses, mas têm um jeitão despojado que agrada ao gosto americano. E vêm de um cenário cada vez mais efervescente. Até 1975, o cinema australiano era dos mais minguados. A partir dessa data, virou item prioritário no programa cultural do país e as produções e os talentos se multiplicaram. Acima de tudo, no entanto, os atores australianos têm aquele "it" que Meg Ryan já aprendeu a apreciar de perto – a namoradinha da América está dando um tempo no casamento com Dennis Quaid, a fim de conhecer biblicamente Crowe. As atrizes australianas também andam em alta, como demonstram Nicole Kidman, Cate Blanchett (de Elizabeth) e Toni Collette (O Sexto Sentido). Uma explicação? Bem, depois de tourear rapazes assim, o ambiente de Hollywood deve ser fichinha para elas.

 
Saiba mais
Da internet
  Site oficial do filme O Patriota