Edição 1 658 - 19/7/2000

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Celular com 50% de desconto

Mais empresas vão disputar o mercado de telefonia
móvel. Quem ganha com isso é o consumidor

Maurício Oliveira


Paschoal Rodrigues


Os consumidores que se acostumaram a brigar por um telefone vão assistir a uma nova guerra – a dos telefones brigando por consumidores. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou na semana passada um serviço que vai mudar o dia-a-dia do brasileiro: a operação de três novas faixas de freqüência de telefonia móvel. No mundo da engenharia das comunicações, elas são chamadas de bandas, identificadas por letras. Atualmente, funcionam no país duas freqüências de transmissão na telefonia, as bandas A e B. Entrarão em operação as bandas C, D e E. Isso significa que, dentro de exatamente um ano, novas empresas estarão na disputa pelos clientes. Na prática, essa simples medida vai trazer-lhe inúmeras vantagens. Em vez de escolher entre duas operadoras como ocorre hoje, ele passará a ter cinco opções quando for utilizar um celular. Especialistas da área apostam que a maior concorrência causará queda imediata nas tarifas. A redução pode alcançar 50% já no primeiro ano. Isso porque as empresas que estão instaladas no país prometem fazer de tudo para preservar a fatia que conquistaram no mercado: elas planejam promoções e prometem melhorar a qualidade de atendimento nos próximos meses.

Outra novidade será um barateamento ainda maior nos preços dos celulares. "As novas operadoras certamente vão entrar com tecnologia mais apurada, o que pressupõe serviços diversificados e atraentes", diz o presidente da Anatel, Renato Guerreiro. A principal vantagem das novas faixas, em comparação às bandas A e B, é a velocidade de transmissão de informações. Imagens e dados poderão ser transmitidos num volume dez vezes maior. Na prática, é o primeiro passo para que o Brasil tenha acesso a uma novidade surpreendente: o celular multimídia. Esse aparelho não se limitará a fazer ligações telefônicas. Com uma pequena tela embutida, ele pode transmitir voz, dados e o principal: imagens. Uma das grandes inovações do multimídia é dar acesso pleno à internet. Será possível, por exemplo, fazer uma pesquisa na rede ou transferir dinheiro da conta enquanto a fila do supermercado não anda. O desenvolvimento dessa tecnologia está tão avançado que as empresas do setor prevêem o lançamento comercial para 2005. No primeiro estágio, já no ano que vem, os brasileiros poderão enviar ou receber e-mails pelo celular ou descarregar arquivos de texto.

É uma evolução fantástica para um aparelho tão jovem. Em menos de duas décadas, os primeiros modelos analógicos, grandes e com baixa qualidade de som, terão se transformado em máquinas polivalentes que pouco farão lembrar um simples telefone. E o interessante é que, ao mesmo tempo em que a tecnologia melhorou, os celulares passaram a ficar cada vez mais acessíveis. Hoje, quem deseja adquirir uma linha no Brasil não enfrenta fila de espera. Em apenas um ano, o número de usuários no país saltou de 10 milhões para os atuais 18 milhões. E as estimativas do governo indicam que o ritmo de crescimento deve manter-se nos próximos anos. Em 2005, 58 milhões de brasileiros terão seu aparelho. É quase inacreditável que nesse mesmo país, há apenas duas décadas, ter um simples telefone convencional era um investimento caríssimo, pago em longas prestações e só entregue depois de dois ou três anos.

Para que todos esses avanços sejam possíveis no Brasil, a Anatel escolheu com cuidado o padrão a ser adotado no país pelas bandas C, D e E. Optou por um sistema desenvolvido na Europa, o GSM, já utilizado por 250 milhões de pessoas em dezenas de países. A adoção desse padrão será a segunda grande evolução dentro do mercado de telefonia brasileiro. A primeira deu-se há três anos, quando o sistema analógico da banda A recebeu a companhia do sistema digital da banda B. Agora, além da digitalização, vem a maior quantidade de dados. "É o que há de melhor em tecnologia de telefonia móvel", garante o superintendente de serviços privados da Anatel, Santos Gouvêa. O governo aposta tanto nas vantagens do novo sistema que estima a adesão de 1 milhão de pessoas só no primeiro ano. "A tendência é que as empresas e os usuários das bandas A e B migrem gradativamente para as novas faixas", prevê Renato Guerreiro.

Essa revolução começa a ser escrita no mês que vem, quando será aberta a licitação para as empresas interessadas em explorar a banda C no país. A exemplo do que ocorre com a telefonia fixa, os Estados foram agrupados em três grandes regiões. Cada uma terá sua prestadora na banda C. As vencedoras serão anunciadas em outubro do ano que vem e terão de oferecer as primeiras linhas em julho. O mesmo processo será iniciado nos primeiros meses de 2001 para as bandas D e E. As prestadoras que conquistarem uma concessão se comprometem a cobrir pelo menos 80% da área de todas as capitais e das cidades com mais de 500.000 habitantes num período de dois anos. Quem ganhar o leilão terá direito a explorar o serviço durante quinze anos, com mais quinze de renovação.

Para vencer uma das nove licitações de telefonia móvel que o governo lança a partir do mês que vem, não basta à empresa interessada fazer a melhor oferta em dinheiro pela concessão. Ela terá de apresentar um plano de tarifas. Os valores propostos só poderão ser reajustados depois de doze meses. Esse "congelamento" vai facilitar a vida do consumidor na hora de comparar os preços estabelecidos pelas operadoras. Quando fizer uma ligação, o usuário escolherá a operadora por meio de um código numérico a ser incluído no DDD, a exemplo do que já ocorre com as ligações interurbanas e internacionais em telefones convencionais. Prevê-se que a disputa pelas novas fatias do mercado envolverá as maiores multinacionais do setor, inclusive as que ainda não atuam por aqui. Além de modernizar as telecomunicações, o processo de instalação das três bandas deverá movimentar no país 19 bilhões de reais. Lucra o governo e ganha o consumidor.