O grupo dos mais ricos do mundo reúne-se
no Japão, um país em que os indicadores
econômicos fogem às receitas conhecidas
AP
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| Cerimônia do chá oferecida
aos ministros das Finanças do G-8 na semana passada:
ninguém entende o que acontece no Japão |
Nesta sexta-feira, representantes dos sete países
mais industrializados do planeta e da Rússia reúnem-se
para discutir problemas políticos, sociais e econômicos
da atualidade. A reunião começou a ser preparada
na semana passada. Ministros dos oito países concordaram
em debater temas que têm causado dores de cabeça
aos governantes, nos últimos tempos, e que vão
desde a produção de armamentos até
a guerra dos diamantes na África, dos conflitos nos
Bálcãs à tecnologia de informação.
Apenas um item foi vetado. Ninguém poderá
tratar de questões relativas à economia japonesa
durante o encontro. O Japão será o anfitrião
do chamado Grupo dos 8, ou G-8, e não quer palpites
em sua seara. Especialmente porque, na última terça-feira,
uma das maiores redes varejistas do país pediu concordata
justamente quando os indicadores pareciam mostrar que
a economia japonesa estava em plena recuperação.
Os convidados não ficaram satisfeitos com o veto.
A impressão da turma do G-8 é de que o Japão
precisa passar por uma grande reforma. E isso, obviamente,
não é do interesse apenas dos japoneses. Há
um consenso de que no mar de boas notícias que cerca
a economia mundial agora o Japão é a única
nuvem negra. "Estamos tentando desenhar um plano abrangente,
que nos permita prevenir crises em vez de sermos forçados
a reagir depois que eclodirem", disse Hubert Vedrine, ministro
das Relações Exteriores francês, entre
dois goles de chá verde, numa cerimônia que
foi organizada após um jantar de trabalho, em Tóquio.
Depois, acrescentou: "Acho muito original... mas isso não
tem gosto de chá, realmente" uma mostra de que
é mesmo complicado adequar a realidade japonesa ao
gosto ocidental.
A história recente do Japão é de
desnortear qualquer um. Há dez anos, o país
vive em estado permanente de crise econômica e política,
com quebradeiras em bancos e indústrias, escândalos
de corrupção e trocas de governo. Nos últimos
oito anos houve sete primeiros-ministros no Japão.
O PIB chegou a despencar quase 3% em 1998 e, no entanto,
o país continua a ser o segundo mais rico do mundo.
No primeiro trimestre deste ano, o crescimento econômico
foi de 10% isso com o consumo estável e com um
pessimismo generalizado entre os empresários. O número
de falências, em maio, foi 14% maior do que no mesmo
mês do ano passado. Como entender esse sukiyaki? E
mais. Como evitar que ele desande, que é o que pretendem
os líderes do G-8 no final das contas?
Os números não mostram o que de fato está
ocorrendo na terra do sol nascente. O país está
passando por uma revolução silenciosa, como
é do gosto oriental. Durante décadas, o povo
japonês viveu sob um regime que tem instituições
democráticas. Mas nunca as utilizou em sua plenitude.
Votava-se no mesmo partido, apoiavam-se os mesmos políticos
e admitia-se que o governo subsidiasse empresários
e agricultores, na crença de que tal prática
beneficiasse a todos. Agora as coisas estão mudando.
É verdade que muitas companhias estão quebrando.
A rede de lojas Sogo, que pediu concordata na semana passada,
deve 18 bilhões de dólares a bancos e fornecedores.
Emprega mais de 10 000 pessoas. Em outros tempos, teria
sido socorrida pelo governo. Mas não foi. Os japoneses
pressionaram os políticos para que o dinheiro dos
impostos não fosse usado nessa operação
de salvamento. Também andam reclamando dos pacotes
que o governo tem lançado, nos últimos anos,
a título de estímulo para o reaquecimento
da economia. Já escorreu, por esse ralo, o correspondente
a 1 trilhão de dólares, dinheiro empregado
na construção de pontes, estradas e trens-bala
que ninguém usa. As empreiteiras beneficiadas pelas
obras têm sido acusadas de superfaturamento e pagamento
de propina a políticos.
Para o japonês, os tempos que correm não
têm sido fáceis. Qualquer um com menos de 50
anos, no Japão, cresceu num país em que os
salários dobravam a cada década e o emprego
era vitalício. Agora os salários estão
congelados, o desemprego atinge 5% da população
ativa, segundo dados oficiais, e 7%, de acordo com outras
estimativas, e um em cinco jovens que procuram seu primeiro
emprego não consegue encontrar uma vaga. O número
de suicídios cresceu 53% desde 1991. Finalmente,
parece que os japoneses estão percebendo que subsídios,
protecionismo e preços altos não os favorecem.
Há uma nova geração de empresas pequenas,
de alta tecnologia, nascendo. E essas empresas, e seus empreendedores,
estão provocando mudanças em toda a economia.
"A novidade é que seus administradores consideram
a produtividade e o lucro mais importantes que a lealdade",
diz Diana Helweg, especialista em Japão da Southern
Methodist University, dos Estados Unidos, em artigo publicado
na revista Foreign Affairs.
Que não se metam os franceses, americanos ou russos
a ditar receitas de reforma aos japoneses. Eles têm
uma maneira muito particular de preparar seus chás
e seus sushis. Estão encontrando um jeitinho de reformar
a economia sem fazer barulho. Exemplo: os juros são
praticamente nulos há mais de um ano. No receituário
ocidental, essa seria a fórmula certa para fazer
o consumo explodir. Foi um fracasso no Japão. Mas
recentemente o governo descobriu que as mulheres do ano
2000 são mais altas, mais fortes e mais bonitas do
que suas mães. Que já não têm
as pernas tortas, por sentarem no chão, e que são
vaidosas. Como casam mais tarde e moram com os pais, têm
uma renda média de 1 400 dólares mensais para
gastar com roupas, cosméticos e jantares. O que fez
o governo? Aumentou o número de feriados, para estimular
as moças a viajar e sair para noitadas. Pode parecer
bobagem, mas é com pinceladas assim, delicadas, que
a economia japonesa acabará sendo corrigida. A turma
do G-8 deverá ter paciência.
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