Edição 1 658 - 19/7/2000

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O grupo dos mais ricos do mundo reúne-se
no Japão, um país em que os indicadores
econômicos fogem às receitas conhecidas



AP
Cerimônia do chá oferecida aos ministros das Finanças do G-8 na semana passada: ninguém entende o que acontece no Japão


Nesta sexta-feira, representantes dos sete países mais industrializados do planeta e da Rússia reúnem-se para discutir problemas políticos, sociais e econômicos da atualidade. A reunião começou a ser preparada na semana passada. Ministros dos oito países concordaram em debater temas que têm causado dores de cabeça aos governantes, nos últimos tempos, e que vão desde a produção de armamentos até a guerra dos diamantes na África, dos conflitos nos Bálcãs à tecnologia de informação. Apenas um item foi vetado. Ninguém poderá tratar de questões relativas à economia japonesa durante o encontro. O Japão será o anfitrião do chamado Grupo dos 8, ou G-8, e não quer palpites em sua seara. Especialmente porque, na última terça-feira, uma das maiores redes varejistas do país pediu concordata – justamente quando os indicadores pareciam mostrar que a economia japonesa estava em plena recuperação.

Os convidados não ficaram satisfeitos com o veto. A impressão da turma do G-8 é de que o Japão precisa passar por uma grande reforma. E isso, obviamente, não é do interesse apenas dos japoneses. Há um consenso de que no mar de boas notícias que cerca a economia mundial agora o Japão é a única nuvem negra. "Estamos tentando desenhar um plano abrangente, que nos permita prevenir crises em vez de sermos forçados a reagir depois que eclodirem", disse Hubert Vedrine, ministro das Relações Exteriores francês, entre dois goles de chá verde, numa cerimônia que foi organizada após um jantar de trabalho, em Tóquio. Depois, acrescentou: "Acho muito original... mas isso não tem gosto de chá, realmente" – uma mostra de que é mesmo complicado adequar a realidade japonesa ao gosto ocidental.

A história recente do Japão é de desnortear qualquer um. Há dez anos, o país vive em estado permanente de crise econômica e política, com quebradeiras em bancos e indústrias, escândalos de corrupção e trocas de governo. Nos últimos oito anos houve sete primeiros-ministros no Japão. O PIB chegou a despencar quase 3% em 1998 e, no entanto, o país continua a ser o segundo mais rico do mundo. No primeiro trimestre deste ano, o crescimento econômico foi de 10% – isso com o consumo estável e com um pessimismo generalizado entre os empresários. O número de falências, em maio, foi 14% maior do que no mesmo mês do ano passado. Como entender esse sukiyaki? E mais. Como evitar que ele desande, que é o que pretendem os líderes do G-8 no final das contas?

Os números não mostram o que de fato está ocorrendo na terra do sol nascente. O país está passando por uma revolução silenciosa, como é do gosto oriental. Durante décadas, o povo japonês viveu sob um regime que tem instituições democráticas. Mas nunca as utilizou em sua plenitude. Votava-se no mesmo partido, apoiavam-se os mesmos políticos e admitia-se que o governo subsidiasse empresários e agricultores, na crença de que tal prática beneficiasse a todos. Agora as coisas estão mudando. É verdade que muitas companhias estão quebrando. A rede de lojas Sogo, que pediu concordata na semana passada, deve 18 bilhões de dólares a bancos e fornecedores. Emprega mais de 10 000 pessoas. Em outros tempos, teria sido socorrida pelo governo. Mas não foi. Os japoneses pressionaram os políticos para que o dinheiro dos impostos não fosse usado nessa operação de salvamento. Também andam reclamando dos pacotes que o governo tem lançado, nos últimos anos, a título de estímulo para o reaquecimento da economia. Já escorreu, por esse ralo, o correspondente a 1 trilhão de dólares, dinheiro empregado na construção de pontes, estradas e trens-bala que ninguém usa. As empreiteiras beneficiadas pelas obras têm sido acusadas de superfaturamento e pagamento de propina a políticos.

Para o japonês, os tempos que correm não têm sido fáceis. Qualquer um com menos de 50 anos, no Japão, cresceu num país em que os salários dobravam a cada década e o emprego era vitalício. Agora os salários estão congelados, o desemprego atinge 5% da população ativa, segundo dados oficiais, e 7%, de acordo com outras estimativas, e um em cinco jovens que procuram seu primeiro emprego não consegue encontrar uma vaga. O número de suicídios cresceu 53% desde 1991. Finalmente, parece que os japoneses estão percebendo que subsídios, protecionismo e preços altos não os favorecem. Há uma nova geração de empresas pequenas, de alta tecnologia, nascendo. E essas empresas, e seus empreendedores, estão provocando mudanças em toda a economia. "A novidade é que seus administradores consideram a produtividade e o lucro mais importantes que a lealdade", diz Diana Helweg, especialista em Japão da Southern Methodist University, dos Estados Unidos, em artigo publicado na revista Foreign Affairs.

Que não se metam os franceses, americanos ou russos a ditar receitas de reforma aos japoneses. Eles têm uma maneira muito particular de preparar seus chás e seus sushis. Estão encontrando um jeitinho de reformar a economia sem fazer barulho. Exemplo: os juros são praticamente nulos há mais de um ano. No receituário ocidental, essa seria a fórmula certa para fazer o consumo explodir. Foi um fracasso no Japão. Mas recentemente o governo descobriu que as mulheres do ano 2000 são mais altas, mais fortes e mais bonitas do que suas mães. Que já não têm as pernas tortas, por sentarem no chão, e que são vaidosas. Como casam mais tarde e moram com os pais, têm uma renda média de 1 400 dólares mensais para gastar com roupas, cosméticos e jantares. O que fez o governo? Aumentou o número de feriados, para estimular as moças a viajar e sair para noitadas. Pode parecer bobagem, mas é com pinceladas assim, delicadas, que a economia japonesa acabará sendo corrigida. A turma do G-8 deverá ter paciência.

 
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