Edição 1 658 - 19/7/2000

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Tiros na fronteira

Força Aérea colombiana destrói aviões
brasileiros que trocariam armas por drogas

Ricardo Villela

Ricardo Mazalan/AP
Tropa de guerrilheiros das Farc: armas fornecidas por traficantes do Brasil

Um incidente ocorrido dias atrás no meio da selva amazônica revela que o Brasil entrou definitivamente na rota pesada do tráfico de drogas. No sábado 8, o ministro da Defesa da Colômbia, Luis Fernando Ramírez, e o comandante da Força Aérea, general Héctor Velasco, reuniram a imprensa de seu país para comunicar que dois aviões tinham sido destruídos a tiros de canhão depois de pousar no Estado de Vaupés, próximo à fronteira com o Brasil. Ambos carregavam armas destinadas à guerrilha. Desde fevereiro, já são sete os aviões brasileiros destruídos em pistas de pouso clandestinas na Colômbia. Todos eram usados na troca de armas por drogas na fronteira entre os dois países. Cada fuzil AR 15 ou AK 47 vindo do Brasil vale 2 quilos de cocaína. "Os aviões chegam carregados de armas e saem repletos de drogas", disse o ministro da Defesa colombiano. "A comunidade internacional deve estabelecer controles mais rigorosos para evitar o tráfico até a Colômbia de armas e componentes químicos utilizados na confecção das drogas."

A crítica do ministro colombiano, feita em tom genérico, mira o governo brasileiro. Os dois aviões monomotores viajaram mais de 2 000 quilômetros, na sexta 7, entre o sul do Pará e a Colômbia. Autoridades brasileiras e colombianas acreditam que eles tenham decolado de alguma fazenda entre Marabá e Tucumã levando armas anteriormente trazidas do Suriname. Durante todo o vôo, em que atravessaram os Estados do Pará e do Amazonas, os aviões não foram percebidos por nenhum dos cinco radares brasileiros instalados na região. Só foram notados quando entraram na Colômbia, mas logo depois conseguiram escapar. No dia seguinte, caças da Força Aérea colombiana encontraram os aviões novamente, dessa vez pousados numa pista clandestina, e os destruíram a tiros de canhões aéreos.

Suicídio O ataque a aviões de narcotraficantes por caças colombianos tem ocorrido com freqüência no país vizinho. Como o grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) domina uma vasta extensão do território, só resta às tropas do governo o ataque aéreo. Entrar em áreas das Farc está fora de questão. Seria suicídio. Em geral, os caças esperam que os aviões pousem e os passageiros saiam para iniciar o ataque. O uso da fronteira brasileira por traficantes ligados à guerrilha é recente. Até alguns anos atrás, a rota preferida passava pelo Mar do Caribe e entrava na Colômbia pelo litoral. Com a ajuda dos Estados Unidos, foram implantados radares na costa colombiana e os traficantes passaram a transportar as armas pela fronteira com a Venezuela. Um acordo bilateral incrementou o monitoramento nessa área e os traficantes precisaram encontrar um novo caminho. Como Peru e Equador têm uma boa fiscalização a partir das bases americanas instaladas em seu território, só restou o Brasil. As autoridades brasileiras esperam que com a finalização do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), em 2002, o Brasil deixe de ser uma boa alternativa.