Viciados em sexo
pedem ajuda
Pesquisas realizadas
no Brasil e nos Estados Unidos
mostram que a combinação entre sexo e internet
está
criando um novo e preocupante tipo de
comportamento compulsivo
Roberta Paduan
e Elen Peterson
Antonio Milena
 |
| O eletricista Alexandre
e sua mulher,
Silvana: e-mails de mulheres
e imagens eróticas armazenados
no micro do marido provocaram
uma crise de ciúme e quase
acabaram com o casamento |
A obsessão digital é o grande vício
da era moderna. O fácil alcance a uma infinidade
de informações e serviços por meio
da internet cria um tipo de dependência que leva muitas
pessoas a perder a medida das horas que passam diante do
micro. E o que tanto elas procuram? A maioria gasta seu
tempo atrás daquilo: sexo. Um terço das consultas
à rede é realizada em busca de fotos, vídeos
ou bate-papos de conteúdo erótico. Sexo virtual
tornou-se um dos assuntos mais lucrativos do comércio
eletrônico e uma das diversões prediletas dos
usuários. O acesso rápido, o conforto e a
privacidade característicos da rede produzem o ambiente
ideal para os internautas liberarem suas fantasias. Sexo
e internet parecem ter sido feitos um para o outro. O potencial
explosivo dessa combinação viciante vem sendo
estudado com muito interesse por psicólogos e psiquiatras.
Os resultados dos primeiros trabalhos científicos
chegaram recentemente ao conhecimento público e apontam
para um dado preocupante. Há muita gente exagerando
na dose, perdendo a conexão com a realidade e buscando
ajuda especializada para escapar dessa nova modalidade de
vício. O mal atinge indiscriminadamente todas as
faixas etárias de pais de família a
adolescentes. Para classificá-los, foi cunhada até
uma nova expressão: viciados em cybersexo. Estão
nesse grupo as pessoas cuja vida começa a ser seriamente
afetada pelo hábito de acessar páginas pornográficas
ou de perder horas dentro das salas de bate-papo, nas quais
se satisfazem com categorias diversas de sexo virtual. "Cybersexo
é uma nova droga, é o crack da compulsividade
sexual", disse a VEJA o psicólogo Al Cooper, da Universidade
Stanford, nos Estados Unidos, um dos maiores especialistas
no tema.
Antonio Milena
 |
| Nelson Vitiello,
da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana:
pesquisa constatou que 16% dos internautas passam catorze
horas semanais em sites pornográficos |
A dependência de cybersexo deixa marcas profundas
na vida dos viciados. O trabalho mais completo sobre o tema
chama-se "Usuários e Abusadores do Cybersexo" e foi
realizado em conjunto por equipes do Centro de Casamento
e Sexualidade de Santa Clara e das universidades Duquesne
e Stanford, nos Estados Unidos. Eles pesquisaram os hábitos
na rede de 9.265 internautas. Pouco mais de 8% deles afirmaram
que gastam mais de onze horas por semana navegando em sites
pornográficos. Para os especialistas, são
pessoas que estão numa fronteira perigosa. De simples
curiosidade e diversão, o cybersexo pode tornar-se
um hábito perigoso. Uma parcela menor de internautas,
estimada em 1%, já ultrapassou essa barreira e entrou
para o grupo de dependentes. Fazendo-se uma projeção
sobre a população dos Estados Unidos, teríamos
cerca de 200.000 casos de viciados somente naquele país.
São pessoas que chegam a passar 25 horas por semana
em frente da tela do micro em busca de sexo. Trocam mensagens
picantes, com descrições detalhadas do ato
sexual, enquanto se masturbam. Por causa do hábito,
abandonam a mulher, deixam de conviver com os filhos e colocam
em risco o emprego. Em um levantamento semelhante, a Sociedade
Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana detectou no
país o mesmo problema. Por aqui, 16% dos usuários
pesquisados passam catorze horas por semana acessando pornografia.
"O sujeito que só consegue ter prazer diante do computador
precisa urgentemente de tratamento", afirma o ginecologista
Nelson Vitiello, um dos coordenadores da pesquisa.
E. Pinheiro/1° Plano
 |
| O empresário
Alexandre, que chegou
a virar noites fazendo sexo
virtual diante da tela do
computador: "Estava exagerando
e, por isso, resolvi
dar uma freada" |
A doença da compulsão sexual não é
um fenômeno novo. Estima-se que 3% da população
mundial sofre desse distúrbio de comportamento. Nos
casos mais graves, os dependentes chegam a masturbar-se
doze vezes por dia ou mantêm uma média de seis
relações sexuais no mesmo período.
Um filme espanhol, Entre as Pernas, recém-lançado
no circuito brasileiro e que está fazendo sucesso
no exterior, retrata um grupo de viciados em sexo. Numa
das cenas, a protagonista, interpretada pela atriz Victoria
Abril, define toda a extensão desse drama. "Tenho
repugnância de todos os homens com quem transo, mas
não consigo parar de fazer isso", diz a personagem.
O fator novo é a quantidade de gente que começa
a desenvolver esses sintomas de compulsividade por causa
da internet. Em geral, são pessoas psicologicamente
sadias, sem nenhum problema de relacionamento. De repente,
elas começam a suspeitar de que há algo errado
quando passam a gastar mais horas acessando endereços
eróticos que trabalhando, estudando ou convivendo
com outras pessoas.
Com três filhos
e dois casamentos desfeitos, a secretária executiva
carioca Teresa Cristina Barcellos, 50 anos, fez da internet
um instrumento para espantar a solidão. "No início,
quando comecei a freqüentar as salas de bate-papo,
era muito divertido, mas depois achei que estava ficando
maluca", conta ela, que chegou a se apaixonar por um jovem
de 25 anos. Os dois faziam sexo virtual, mas nunca se encontraram
ao vivo. No auge de sua loucura cibernética, Teresa
chegava a passar até oito horas por dia diante da
tela do computador. Sua conta telefônica bateu na
casa dos 400 reais. Seu cotidiano começou a ser seriamente
afetado. "Varava noites no micro, várias vezes vi
o jornal entrando por baixo da porta e pensava que, naquela
hora, deveria estar acordando para ir à praia ou
passear", lembra.
A grande quantidade
de horas navegadas atrás de material pornográfico
não é o único indicativo de que o usuário
pode estar cruzando o limite entre a diversão e o
vício. Outros parâmetros importantes são
quanto esse hábito vem afetando a vida do indivíduo
e o desenvolvimento de tolerância. Isso acontece quando
a pessoa precisa acessar material erótico cada vez
mais ousado para manter o mesmo grau de excitação.
O caso do astrólogo baiano Alexey Dodsworth, 28 anos,
ilustra bem esse dilema. Ele nunca havia tido nenhum comportamento
compulsivo até conhecer as salas de sexo virtual.
"Me senti como se estivesse num supermercado, podendo pegar
o que eu quisesse", lembra. Durante dez meses, ele passou
em média seis horas por dia em frente da tela do
micro. A situação chegou a um ponto em que
o astrólogo se desinteressou por mulheres reais e
só fazia sexo pela internet. "Só parei com
esse hábito quando me impus três meses de abstinência",
conta ele.
O número de
homens que fazem cybersexo compulsivamente é maior
que o de mulheres na proporção de oito
para dois. "As mulheres sentem-se estimuladas ao trocar
mensagens e criar fantasias, enquanto os homens ficam satisfeitos
com o estímulo visual e mais imediato", afirma o
psiquiatra Carlos Eduardo Carrion, que realizou uma pesquisa
recente sobre o comportamento dos internautas. Descobriu
que 20% deles entram no serviço exclusivamente em
busca de um parceiro ou parceira para uma transa virtual.
O empresário mineiro Alexandre Amaral Scotti, 38
anos, não passa um dia sem acessar na rede seus sites
eróticos prediletos. Todas as manhãs, depois
de ler e-mails e responder a eles, assiste a um ou dois
vídeos pornográficos no computador. Em seguida,
conecta-se a uma sala de bate-papo exclusiva para cybersexo.
Fica plugado seis horas por dia. Há um ano, o empresário
era ainda mais compulsivo. Às vezes, virava noites
fazendo sexo virtual. "Vi que estava exagerando na dose
e resolvi dar uma freada", conta Alexandre.
Outro traço
típico dos viciados em cybersexo é a timidez.
"A rede tem funcionado como uma muleta para os retraídos
e para as pessoas que sofrem de fobia social", afirma o
psicólogo Sérgio André Segundo, da
Clínica do Amor e Timidez, em São Paulo. No
local, quatro especialistas atendem em média sessenta
clientes por semana. É gente que começa a
suar frio quando pensa na possibilidade de abordar uma garota
num bar ou que, nos casos extremos, nem sequer sai de casa
por causa do medo de estabelecer contatos sociais. Nos últimos
tempos, o uso da internet tem sido um tema recorrente nas
terapias, principalmente com os adolescentes. Eles acessam
as salas de chats para não precisar procurar um parceiro
ou parceira real, o que implica sempre o risco de uma rejeição
ao vivo. Muitos relatam uma sensação de vazio
depois de uma relação virtual, mas acabam
repetindo compulsivamente a experiência.
Antonio Milena
 |
| A
escritora Márcia, que se conecta à web
todas as noites em busca de aventuras excitantes: "Sou
dependente de sexo e da internet" |
"A internet é um caminho poderoso de aproximação
entre as pessoas, mas pode ter conseqüências
desastrosas quando não é bem utilizada", afirma
Ailton Amélio da Silva, psicólogo da Universidade
de São Paulo. Foi o que aconteceu com o casal formado
pelo eletricista Alexandre Martins Rocha, 29 anos, e pela
psicóloga Silvana Gonçalves Forgerini, 27.
Eles estão juntos há três anos e têm
dois filhos gêmeos de 5 meses. Recentemente, quase
se separaram por causa da internet. Alexandre gastava horas
nas salas de bate-papo e garantia à mulher que era
uma diversão inofensiva. Silvana ficou com uma impressão
diferente quando entrou na caixa postal do marido e encontrou
dezenas de e-mail de mulheres. Teve um ataque de ciúme
quando viu que várias dessas amigas virtuais enviavam
mensagens adocicadas e fotos pornográficas para o
endereço de Alexandre. Num acesso de fúria,
arrebentou todos os cabos do microcomputador e ameaçou
fazer as malas e sair de casa. Acabou voltando atrás
e entrou em um acordo com o marido, que diminuiu radicalmente
as horas de navegação pela rede.
Uma pesquisa divulgada
recentemente na Itália mostra como os relacionamentos
virtuais podem provocar estrago na vida real. Realizado
com 352 mulheres de internautas, o estudo revelou que mais
da metade delas se sentem incomodadas quando o parceiro
está diante da tela do computador. No mês passado,
um caso demonstrou como a rede pode criar constrangimentos
que seriam inimagináveis até pouco tempo atrás.
O episódio envolveu um casal de chineses que se conheceram
pela internet. Ele se dizia desimpedido. Ela escreveu que
necessitava urgentemente de um namorado. Depois de um tempo
se correspondendo, os dois marcaram um encontro ao vivo.
Foi um fiasco. Os dois pombinhos virtuais descobriram que
eram marido e mulher na vida real. A briga foi tão
feia que a polícia teve de intervir.
Os endereços
eróticos fazem tanto sucesso entre os usuários
que faturam cerca de 1 bilhão de dólares nos
Estados Unidos. Já existem por lá, inclusive,
serviços especializados em garantir a segurança
dos que se dedicam ao cybersexo. Na página Wildxangel,
por exemplo, além de conselhos para identificar mentiras
nas trocas de mensagem nas salas de bate-papo, há
notícias atualizadas de casos de pessoas que tiveram
problemas graves por não tomar cuidado com esse tipo
de relação. Num caso ocorrido recentemente
no Estado do Texas, um estudante foi atraído para
um encontro, depois de conhecer uma garota pela internet
que se identificava como "Kelly" e dizia ser uma jovem e
bonita mulher, porém problemática e em busca
de alguém que pudesse salvá-la de relacionamentos
turbulentos. "Kelly", na verdade, era um psicopata chamado
Kenny Wayne Lockwood. O corpo do estudante foi achado pela
polícia em estado de decomposição num
rancho do Texas, com uma bala na nuca. Lockwood está
preso.
Fernando Vivas
 |
| O astrólogo
Alexey: sexo pela rede tirou
o interesse por encontros ao vivo com as mulheres |
No Brasil, a oferta de páginas de cybersexo também
é impressionante. Existem no país mais de
100 serviços de bate-papo para entabular conversas
eróticas. Sua freqüência média
é de 3 500 visitantes no horário de pico,
que ocorre geralmente no começo da madrugada, às
sextas e aos sábados. No site de busca Alta Vista,
versão em português, é possível
encontrar mais de 90.000 links relacionados com o assunto.
A grande oferta de endereços eróticos e o
fácil acesso a essas páginas fazem com que
os internautas se sintam tentados a não limitar suas
consultas a esse material durante os momentos de lazer.
Segundo a pesquisa "Usuários e Abusadores do Cybersexo",
70% do tráfego de material pornográfico na
rede acontece durante o horário comercial. No mesmo
levantamento, 20% dos homens e 12% das mulheres admitem
usar o micro do local de trabalho para navegar em sites
eróticos. É gente que se desliga da realidade
e fica numa sala de bate-papo, trocando mensagens picantes,
enquanto o colega ao lado está trabalhando num relatório.
Essa situação vem provocando problemas graves.
No ano passado, quarenta funcionários da Xerox Corporation,
dos Estados Unidos, foram demitidos no mesmo dia por acessar
páginas pornográficas e esportivas durante
o horário de expediente. Calcula-se que as empresas
americanas percam 1 bilhão de dólares por
ano com o uso indevido da internet pelos funcionários.
O sexo on-line já
é uma preocupação presente nos centros
de tratamento para compulsivos. No Projeto Sexualidade do
Hospital das Clínicas de São Paulo, todos
os pacientes afirmam utilizar o computador para encontrar
novos parceiros ou praticar sexo virtual. Metade deles supera
a dependência em seis meses de tratamento, à
base de terapia e pequenas doses de antidepressivos. A droga
tem o papel de ajudar a diminuir a libido. O restante dos
viciados leva um tempo maior para se recuperar. Algumas
entidades de ajuda aos maníacos por cybersexo copiam
a fórmula consagrada pelos grupos dos Alcoólicos
Anônimos. A associação dos Dependentes
de Amor e Sexo Anônimos (Dasa) é um desses
exemplos. Ela possui escritórios em sete cidades
brasileiras e difunde a idéia de que a grande meta
do viciado em sexo é evitar uma recaída nas
próximas 24 horas.
Selmy Yassuda
 |
| A secretária
Teresa, que chegou a
gastar 400 reais de conta telefônica
conhecendo parceiros
amorosos na internet: "No
início, era muito divertido, mas
depois comecei a achar que estava
ficando maluca" |
O funcionário público Raul, 41 anos, é
um dos que participam das reuniões. Mesmo casado
e pai de dois filhos, ele manteve durante muito tempo uma
vida dupla, que incluía visitas a saunas e banheiros
públicos. Descobriu as salas de sexo virtual há
dois anos e permanecia praticamente o dia inteiro conectado.
"Eu deixava de almoçar para ficar no micro, e minha
conta telefônica chegou a me custar o salário
de um mês", lembra. A situação começou
a se mostrar muito preocupante. Primeiro, Raul tentou fazer
terapia. Não adiantou. A salvação veio
quando ele viu na TV um anúncio do Dasa e começou
a freqüentar as reuniões. Hoje, graças
a esse tratamento, Raul não acessa mais nenhum chat
erótico há meses. Em casos extremos como esse,
a única saída é desconectar-se. Na
página mantida pela organização americana
"Viciados em Sexo On-Line" existe um fórum de discussões
em que um dos ex-dependentes dá um conselho radical.
"A única saída? Ponha um bom filtro de pornografia
em seu micro e jogue fora a senha. Mudei minha vida dessa
maneira."
|
A organização
americana Viciados em Sexo On-Line presta ajuda a
quem não consegue desconectar-se da pornografia.
Alguns dos associados participam de um fórum
em que trocam informações e contam suas
experiências dramáticas.
A seguir, alguns dos depoimentos
mais comoventes:
"Não
consigo ficar um dia sem visitar os sites pornôs,
entrar em salas de sexo virtual ou chamar alguém
num desses serviços de telefone erótico.
Sou escritor, perco muitas horas navegando e a qualidade
do meu trabalho vem despencando nos últimos
anos."
Horatio,
30 anos, solteiro
"Sempre tive
vitórias e recaídas na minha luta feroz
para me livrar da pornografia. É um velho ciclo
do qual nunca consegui me libertar. Até eu
descobrir como era fácil acessar sexo pela
internet. Aí, rolei montanha
abaixo."
Rhino,
casado,
pai de cinco filhos
"Não
gosto de me classificar de 'viciado em sexo'. Mas
sei que, se resolver deletar todos os links de sites
pornôs arquivados no meu micro, no momento seguinte
estarei já pesquisando outros endereços
eróticos."
Liquid
Healing,
escritor
|
Com
reportagem de Marcelo Carneiro,
do Rio de Janeiro ,
e José Edward, de Belo Horizonte
Saiba
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