Edição 1 658 - 19/7/2000

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Futuro frágil

Pesquisa internacional revela que médicos
e pacientes não sabem tratar a osteoporose

Karina Pastore

 
Marcelo Tinoco

Osteoporose é uma doença grave e sem cura. Mas há uma década a medicina já dispõe de armas eficientes no combate a esse mal que enfraquece os ossos e atinge sobretudo as mulheres na pós-menopausa. São os equipamentos moderníssimos que flagram a enfermidade ainda em estágio inicial e os remédios de última geração, capazes de prevenir e até conter o avanço da perda de massa óssea. Era de esperar que, com tal arsenal à disposição, a moléstia estivesse sob controle. Não está. Há 200 milhões de enfermos no mundo, 10 milhões deles no Brasil. Coordenado pela Fundação Internacional de Osteoporose e apresentado recentemente no congresso mundial sobre a doença, em Chicago, nos Estados Unidos, o maior e mais abrangente estudo já feito sobre o mal concluiu que, se não houver mudanças na estratégia de combate, o problema tende a adquirir proporções epidêmicas. Com o envelhecimento da população, um fenômeno típico dos países ricos que também ocorre no Brasil, maior será a incidência. Além disso, os pacientes não sabem como se cuidar e os médicos, muitas vezes, adotam condutas equivocadas.

Os especialistas entrevistaram 559 mulheres de 60 anos, em média, e 1.071 médicos de onze países, entre os quais o Brasil, para preparar o estudo "Quão Frágil É o Futuro da Mulher?". A pesquisa durou três meses e desvendou um cenário sombrio. Oito de cada dez doentes nunca imaginaram que um dia poderiam vir a sofrer de osteoporose. As características e os fatores de risco da doença estão bem estabelecidos. Esqueleto fraco é um mal tipicamente feminino – há quatro vezes mais pacientes mulheres do que homens. Depois da menopausa, quando os ovários deixam de produzir o hormônio estrógeno, as células responsáveis por adensar os ossos perdem um de seus mais importantes combustíveis. E passam a funcionar em ritmo mais lento. Na osteoporose, prevalece a ação das células de corrosão. Aos poucos os ossos enfraquecem, tornam-se porosos e podem partir-se em um espirro ou abraço. A imagem à esquerda retrata o estrago que a doença, deixada ao próprio curso, pode causar à coluna vertebral de uma mulher em vinte anos.

 
Infográfico Wander Mendes

Apesar dos 10 milhões de pessoas acometidas pela osteoporose no país, apenas 5% das brasileiras incluíram a doença numa lista das preocupações básicas de saúde. Nossas mulheres estão entre aquelas que revelam maior desconhecimento dos efeitos devastadores do mal a longo prazo. Ignoram que metade das doentes com mais de 50 anos sofrerá uma fratura no decorrer da vida. A quebradeira é um perigo. Requer hospitalização e, não raro, cirurgia. Muitas pacientes terminam presas a cadeira de rodas ou muletas. Em alguns países da Europa, a doença é a principal causa de internação entre senhoras com mais de 45 anos. O estudo traz revelações surpreendentes. Cerca de 90% dos médicos brasileiros afirmaram que a candidata ideal para terapias preventivas é aquela paciente que já sofreu uma fratura. É tarde demais. "Nesses casos, a doença já está estabelecida", diz a reumatologista Vera Szejnfeld, da Universidade Federal de São Paulo. O correto é a mulher submeter-se a exames logo no início da menopausa.

A terapia mais antiga contra a osteoporose é a reposição hormonal. É também a mais eficiente, mas entre seus riscos está o câncer de mama. Para evitar o perigo, nos anos 90 criou-se uma nova classe de drogas, os bisfosfonatos. Agindo apenas sobre as células ósseas, os remédios impedem a corrosão do osso. Há dois anos, o laboratório Eli Lilly lançou o Evista. A droga imita a ação do hormônio estrógeno sem atuar nos tecidos da mama e do útero, o que reduz a ameaça de tumores malignos. Há mais novidades. No final de agosto, chega o Actonel, do Aventis Pharma. Um bisfosfonato, o novo remédio promete causar menos efeitos colaterais que seus antecessores. Quão frágil é o futuro da mulher? No caso da osteoporose, com tantos recursos disponíveis, não tem por que ser quebradiço.

 
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