Questão de raça
Estudo mostra que a condição
de vida dos
negros do Nordeste é igual à dos africanos
Marcelo Carneiro
Selmy Yassuda
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| Paixão: negros têm
salário, expectativa de vida e taxa de escolaridade
mais baixos |
O estudo da desigualdade social no Brasil já produziu
centenas de estatísticas. Estima-se, por exemplo,
que o país tenha hoje cerca de 21 milhões
de pessoas à beira da indigência e pouco mais
de 2 000 privilegiados no tijolo mais alto da pirâmide.
Não é novidade também que, entre os
pobres brasileiros, os negros formam um contingente bem
maior que o dos brancos. Mas o fundo do poço esconde
outras disparidades bem menos visíveis. Uma pesquisa
inédita do economista Marcelo Paixão, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que em algumas
regiões do Brasil ser negro significa viver muito
próximo da realidade dos habitantes dos países
africanos mais pobres, como Gabão e Argélia.
Cruzando dados do IBGE com o índice de desenvolvimento
humano, o IDH criado pela Organização das
Nações Unidas e aplicado mundialmente ,
Paixão mostra que em todo o Brasil os negros ocupam
os postos mais baixos da sociedade. Cabem a eles os salários
mais miseráveis, a expectativa de vida mais baixa
e a pior taxa de escolaridade. No Maranhão, por exemplo,
a renda média mensal dos negros é de 96 reais,
contra 230 reais dos brancos. Isso significa que um maranhense
negro vive praticamente nas mesmas condições
que os habitantes de Botsuana, na África, que ocupa
a 122ª posição no IDH. O Brasil alcançou
o 74º lugar no índice divulgado no final de
junho pela ONU. Um hipotético Brasil só de
brancos estaria na 48ª colocação.
A
análise de dados como estes permite supor que os
negros vivem um momento de estagnação social,
ao passo que o país apresenta índices razoáveis
de crescimento, inclusive entre as camadas mais pobres.
Acreditar nisso é um erro. A emergência de
uma classe média negra, fenômeno já
apontado por VEJA em reportagens anteriores, é um
processo contínuo. O problema é o que fazer
para ajudar a parcela que continua vivendo na pobreza. "Não
fiz esse estudo para justificar ações como
a política de cotas para negros em universidades
ou no mercado de trabalho, mas para mostrar que este é
um drama real e deve ser enfrentado", diz Marcelo Paixão.
Desigualdades raciais não são exclusividade
brasileira. Em 1993, o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) publicou um estudo
sobre as disparidades entre os IDHs das populações
branca, negra e hispânica dos Estados Unidos. Descobriu-se
que os brancos americanos ocupariam o primeiro lugar se
fossem postos na tabela que agrupa os IDHs de todos os países
do mundo. Os negros dos Estados Unidos, porém, estariam
em 31º e os hispânicos em 35º. Como as questões
étnicas sempre suscitam polêmicas, o Pnud deixou
de apresentar pesquisas desse tipo. É uma pena. Estudar
a pobreza com base na raça pode ser uma maneira de
iluminar razões muitas vezes ocultas da desigualdade
social.
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