O homem do papa
As memórias do cardeal Agostino
Casaroli são
a prova de que marxismo não rima com cristianismo
Mario Sabino
Durante a Guerra Fria, a Igreja Católica comeu o
pão que o diabo amassou na metade da Europa dominada
pelos comunistas. Lastreados no ateísmo da ideologia
marxista, os regimes satélites da União Soviética
tentaram destruir uma instituição que representava
um foco de resistência dentro da Cortina de Ferro.
Além de restringir o direito à liberdade de
culto (violência que atingiu todas as religiões),
seus líderes prenderam e confinabam padres e bispos,
fecharam seminários, confiscaram mosteiros e aterrorizaram
integrantes de organizações laicas ligadas
à Igreja. De 1945 ao final dos anos 50, o Vaticano
assistiu impotente às perseguições
promovidas pelos comunistas na Polônia, Checoslováquia,
Hungria, Romênia, Alemanha Oriental, Iugoslávia
e Bulgária. Só no início da década
de 60, quando as relações entre Estados Unidos
e União Soviética começaram a degelar,
é que se abriram brechas para intervenções
da cúpula católica no Leste Europeu.
Nesse contexto cheio de sombras, o cardeal italiano Agostino
Casaroli ajudou a acender as primeiras faíscas de
esperança. Ele foi o Henry Kissinger de três
pontífices: João XXIII, Paulo VI e João
Paulo II. Na linha de frente de extenuantes negociações
com os comunistas, reconquistou metro a metro territórios
ao inimigo façanha que talvez divisões
militares não fossem capazes de realizar, se o papa
as tivesse. Antes de morrer, em 1998, aos 83 anos, Casaroli
deixou um manuscrito no qual relata sua riquíssima
experiência diplomática. Dele se originou Il
Martirio della Pazienza La Santa Sede e i Paesi Comunisti
(O Martírio da Paciência A Santa Sé
e os Países Comunistas), recém-publicado na
Itália pela editora Einaudi.
Comunista embriagado É um livro que
merece ser lido em especial pelo pessoal da batina que insiste
em militar nas hostes da esquerda. Ele coloca por terra
a idéia de que Casaroli era simpático ao comunismo,
como decerto também acreditam os padres de passeata
brasileiros. O cardeal tinha perfeitamente claro que cristianismo
e marxismo eram antípodas, impossíveis de
ser conciliados, já que no programa do segundo estava
prevista a destruição do primeiro. A sua atitude
para com os regimes filossoviéticos "abominável
desolação", escreveu não era
de transigência, mas de paciência. Como fica
evidente na obra, sua tática era recuar um passo
para caminhar dois, muitas vezes dando a impressão
de que fazia o jogo de Moscou. Exemplo disso é um
episódio ocorrido em 1973, quando o papa Paulo VI
(aconselhado por Casaroli, embora este não o diga
explicitamente) aposentou o então primaz da Hungria,
cardeal Joszef Mindszenty, símbolo da resistência
católica. O ato de força, que causou comoção
na época, afrouxou as tensas relações
entre o Vaticano e o governo húngaro, levando à
reconstrução de importantes dioceses naquele
país.
Não era raro que o cardeal cumprisse missões
secretas no Leste Europeu. Certa vez, na embaixada americana
em Budapeste, ele travou um diálogo com Mindszenty
dentro de um cubículo cujas paredes eram forradas
de material à prova de escuta eletrônica. Em
outra ocasião, encontrou-se com uma alta autoridade
eclesiástica da Checoslováquia num hotel fuleiro,
onde ambos conversaram por intermédio de bilhetes.
No livro, Casaroli também menciona casos como o do
monsenhor checo Stepan Trochta, que morreu de ataque cardíaco
depois de ser ameaçado durante seis horas por um
dirigente comunista embriagado. Il Martirio della Pazienza
trata de momentos dramáticos, mas o tom é
sempre sereno, bem ao estilo discreto de seu autor. "Há
quem goste de tocar trompas. Eu me limito a soar o violino",
disse Casaroli, quando era secretário de Estado de
João Paulo II. É de violinistas que o mundo
precisa.