Edição 1 658 - 19/7/2000

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Doce, bonito e diferente lar

Os surpreendentes móveis e objetos
para incrementar a casa

Aida Veiga


André Fortes
House Garden: objetos de sonho e salto no faturamento


É só dar uma olhada em volta: a sua casa, quase com certeza, passou por mudanças visíveis nos últimos anos. Ou abrir a porta e olhar mais adiante. Provavelmente verá na vizinhança uma loja de objetos de decoração. Há dez anos, pontos comerciais desse tipo somavam 20.000 em todo o país. Hoje, chegam a 40.000. Shopping centers de decoração deixaram de ser exclusividade do eixo Rio-São Paulo e se espalharam por Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza, Niterói. Em junho, em São Paulo apenas, inauguraram-se cinco mostras do setor, a maior delas a Casa Cor, exibição que atualmente se realiza em outras onze capitais ao longo do ano, com público estimado em 300.000 pessoas. O mercado de decoração movimentou no ano passado 4,8 bilhões de reais, mais que o dobro do volume de 1998, segundo levantamento feito pela Associação Brasileira de Arquitetos de Interiores e Decoradores (ABD). "O que era visto como um luxo para poucos ganhou conceito de qualidade de vida" , diz Carolina Szabó, presidente da ABD. "O brasileiro está descobrindo o prazer de investir para tornar sua casa mais bonita e aconchegante."

O prazer muitas vezes esbarra nas limitações orçamentárias, mas é evidente que o padrão de consumo nessa área deu um salto. A geração de consumidores mais informados e interessados em novidades começou a ser nutrida com a abertura às importações – lembram-se dela? –, que encheu as prateleiras e o chão das lojas de novidades, caras e baratas, nos últimos dez anos. Na equação entrou também o brasileiríssimo binômio violência-trânsito, que fechou as pessoas no recesso do lar e reabilitou o costume de receber amigos. Por fim, houve uma mudança de comportamento: a casa que se montava uma vez na vida, e no máximo ia recebendo acréscimos, deu lugar a um ambiente mutante, sujeito a modas e tendências. Desde uma simples almofada até objetos de sonho assinados por designers famosos, como os exibidos em lojas do padrão da House Garden (aumento de 40% em seu faturamento nos últimos três anos), todo mundo quer mudar alguma coisa em casa. De 100 famílias entrevistadas numa pesquisa da ABD, 62 confirmaram que investem muito mais em decoração que seus pais.

Uma das conseqüências desse surto decorativo é a introdução de peças e até ambientes inteiros que não existiam antes (veja quadro). Quem experimentou uma cama americana, daquelas de colchão duplo, consegue dormir em outra? O banheiro do casal, por sua vez, tem de ser duplo: duas pias, dois sanitários, dois chuveiros. "É exigência universal: 99% dos meus clientes pedem banheiros separados", assegura o arquiteto paulista João Armentano. A exceção é a banheira de hidromassagem, indispensável, mas ainda uma só. Já o bar, presente em toda sala de respeito até alguns anos atrás, sumiu. Outro sinal da nova era é o fato de cada cômodo da casa ter uma televisão, e todas elas se fundirem no inevitável home theater. Na cozinha, antigamente composta de pia, fogão e geladeira, agora têm lugar cativo o microondas, o freezer e a lavadora. E a tal "ilha", mistura de mesa fixa com pia bem no meio do ambiente, que não tem grande utilidade, mas dá um charme danado. "Todo mundo quer cozinhar e adora gastar em eletrodomésticos", atesta a decoradora Brunete Fraccaroli, de São Paulo. Todos também têm computador, e um dos desafios do decorador é acomodar a tralha da forma mais discreta possível. "Procuro esconder ao máximo. E adoraria se todos tivessem um Macintosh, que é muito mais bonito", suspira o carioca Chicô Gouveia.

O boom da decoração se reflete no número de profissionais do ramo. Dez anos atrás, havia no Brasil 4.000 decoradores – boa parte senhoras da sociedade que entravam no negócio quase amadoristicamente. Hoje são 10.000 profissionais registrados e a partir do ano que vem só poderá decorar quem tiver no mínimo diploma de curso técnico, com carga de 800 horas. A própria indústria se transformou, depois de um período de sufoco, em que correu para alcançar preço e qualidade das importações. A Tok & Stok, maior cadeia de decoração do país, com dezessete lojas, pôs-se a campo para reverter a fama de vender produtos bonitinhos, sim, mas frágeis. "Reconheço que, em determinado momento, perdemos o controle de nossa qualidade", diz o presidente da rede, Regis Dubrule. Depois de se reestruturar e investir em designers, a empresa voltou a crescer. Seis de suas lojas foram inauguradas nos últimos dois anos, mais quatro estão previstas para até o fim de 2001 e o faturamento deve atingir 200 milhões de reais neste ano. A Imaginarium, que produz e comercializa objetos de decoração por meio de franquias, até o fim deste semestre terá sob sua marca 52 lojas, das quais um terço abriu as portas nos últimos dois anos. Nascida em Teresópolis, cidade serrana do Estado do Rio de Janeiro, a Imaginarium fabrica 70% de seus produtos, que poderiam ser enquadrados na categoria quinquilharias charmosas. Faturou no ano passado 16 milhões de reais, o dobro em relação a 1997.

 

Como viver sem eles?

A lista de itens obrigatórios numa casa moderna cresceu e se modificou nos últimos anos. Ao mesmo tempo, os espaços diminuíram, e encaixar tudo virou um quebra-cabeça. Bom para os decoradores, cada vez mais solicitados. "O que era frescura virou necessidade, e aproveitar espaços é essencial", prega o carioca Chicô Gouveia.

Fotos Divulgação
Fotos Divulgação

Banheira com massagem: única área comum do banheiro

Cama americana: depois da primeira vez, todo mundo quer

 

Home theater: a televisão sai do armário

O canto do computador: desafio na hora de decorar