Edição 1 658 - 19/7/2000

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O caudilho do Tocantins

No mais novo Estado da federação, Siqueira Campos
distribui terras e constrói a imagem de super-herói

José Edward, de Palmas

 
Ana Araújo
O governador na vida real e na versão em quadrinhos: no Tocantins, as crianças aprendem cedo quem manda no Estado

No meio de uma das praças mais importantes de Palmas, uma placa de metal fixada na pedra informa: "No princípio do ano de 1989, neste local, à sombra generosa desta árvore, uma fava de bolota, o governador Siqueira Campos decidiu: 'Aqui construirei a cidade de Palmas, a nova capital do Tocantins'". Gravadas ali há três anos, essas palavras são um exemplo do poder que o governador exerce sobre o Estado mais jovem da federação. José Wilson Siqueira Campos dedicou cerca de vinte anos de sua vida pública à luta pela emancipação do Tocantins. Agora no terceiro mandato, já governou o Estado durante oito de seus doze anos de existência. Nas três administrações, distribuiu terras e agrados aos correligionários, fez a alegria das empreiteiras e nomeou quase todos os cargos públicos disponíveis. Nas escolas públicas do Tocantins, os alunos estudam a história da região por meio de uma cartilha em quadrinhos distribuída pelo governo do Estado. Siqueira Campos ocupa mais de um terço das páginas e aparece como um herói popular. "A criança e os jovens são prioridade, com educação para todos, salas equipadas, computadores e vídeos profissionais", afirma o governador em sua versão gibi.

Como primeiro governante do Estado, eleito em 1988, logo após a emancipação, Siqueira Campos teve a prerrogativa de indicar os três conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, órgão responsável por aprovar as contas do governo. Também nomeou todos os desembargadores do Tribunal de Justiça e quatro dos sete integrantes do Tribunal Regional Eleitoral. Com uma parte substancial do Judiciário sob seu controle, o apoio de dois terços dos deputados estaduais e de mais de 90% dos prefeitos, sua palavra é uma ordem. E ai de quem desobedecer. Nas eleições de 1994, quando concorria ao segundo mandato, Siqueira Campos mandou apreender e incinerar a edição de um livro que o criticava. O autor, Rinaldo Campos, ficou preso por cinco dias. Há dois meses, durante uma solenidade no município de Araguaína, o governador atirou um microfone sobre um manifestante que gritava palavras de ordem contra ele. Depois, ordenou à Polícia Militar que prendesse o rapaz, que só foi libertado sete horas mais tarde.

A distribuição de terras confere a Siqueira Campos poder enorme. Desde sua primeira administração, já entregou em Palmas e no interior do Estado pelo menos 20.000 hectares, área igual à do município do Recife. Os lotes foram vendidos a preços simbólicos ou entregues em regime de comodato. A explicação oficial é a necessidade de povoar o Estado e a nova capital. Ocorre que grande parte dos novos proprietários é do círculo de amigos do governador.

Ação popular – No entorno de Palmas, foram distribuídas 2.000 chácaras. Em 1990, um ex-secretário de Estado pagou o equivalente a 700 reais, em valores atualizados, por um sítio que hoje vale 30.000 reais. O próprio governador Siqueira Campos vendeu para a pessoa física Siqueira Campos uma área com mais de 80 hectares, onde plantou 20.000 coqueiros e construiu um lago cinematográfico. Em 1997 mandou desapropriar uma fazenda de 354 hectares, contígua a sua chácara, sob o pretexto de criar um cinturão verde ao redor de Palmas. A área também foi transformada em chácaras, que foram entregues a autoridades, como o procurador-geral do Estado e o diretor do Instituto de Terras do Tocantins. Atualmente, Siqueira Campos responde a uma ação popular pela distribuição de terras para amigos.


Fotos Eugenio Savio
A placa sob a árvore: o lugar mítico onde Siqueira viu o futuro


O poder do governador estende-se por seu círculo familiar. A primeira-dama do Estado, Marilúcia Leandro Uchôa, é promotora pública e trabalha como assessora especial do procurador-geral de Justiça, José Omar de Almeida Júnior. Entre as funções do procurador está justamente investigar irregularidades eventualmente cometidas pelo governo. Ou seja, Siqueira Campos conseguiu a proeza de colocar sua mulher no gabinete do homem que, em tese, deveria investigar os atos de sua própria administração. "Não tenho nenhum constrangimento em empregar a mulher do governador em meu gabinete ou em ter recebido licença do governo para ocupar uma chácara", diz o procurador, também brindado com terras distribuídas por Siqueira Campos.


Palácio do Araguaia em reforma: granito comprado do filho do governador


Por vontade de Siqueira Campos, o traçado urbano de Palmas foi inspirado em Brasília, com avenidas largas, quadras temáticas e vários blocos de prédios públicos. No ponto central, está o vistoso Palácio do Araguaia, sede do Poder Executivo. O edifício passa por uma reforma que inclui a construção de novos espaços para duas secretarias de Estado. Valor da obra: 16 milhões de reais. Siqueira Campos entregou o serviço sem licitação para a mesma empreiteira que construiu o palácio em 1989, a Warre Engenharia, de Goiânia. Para isso, convenceu o Tribunal de Contas do Estado (lembre-se: composto de conselheiros indicados por ele) de que não se tratava de uma reforma, mas da continuação da obra original. A Warre Engenharia compra o granito utilizado para substituir o carpete do palácio da Granitos Palmas, empresa de seu filho, José Wilson Siqueira Campos Júnior.

Nascido no sertão cearense, filho de um sapateiro, Siqueira Campos chegou a Colinas, no norte de Goiás, hoje Tocantins, em 1963. Antes tinha sido seringueiro no Amazonas e vendedor de inseticida em Campinas. Em dois anos elegeu-se vereador. Abraçou a bandeira da criação do novo Estado e conseguiu ser eleito deputado federal por cinco mandatos. Em 1985 respondeu ao veto do presidente José Sarney à emancipação do Tocantins com uma greve de fome de quatro dias.


Cinturão verde no entorno de Palmas: chácaras distribuídas para amigos

A insistência surtiu efeito, e hoje até os adversários reconhecem que Tocantins passou a figurar no mapa brasileiro por mérito dele. Atualmente, Palmas é a cidade que mais cresce no país. Há dez anos, apenas 200 quilômetros de estradas estaduais eram pavimentados. Agora, chegam a 4.000. Por essas e outras, Tocantins transformou-se num paraíso para as empreiteiras. Nas últimas eleições, as construtoras que têm obras no Estado foram responsáveis por 99,8% das doações financeiras para as campanhas de Siqueira Campos e seus correligionários do PFL.