O caudilho do Tocantins
No mais novo Estado da federação,
Siqueira Campos
distribui terras e constrói a imagem de super-herói
José Edward, de Palmas
Ana Araújo
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| O governador na vida
real e na versão em quadrinhos: no Tocantins,
as crianças aprendem cedo quem manda no Estado
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No meio de uma das praças mais importantes de Palmas,
uma placa de metal fixada na pedra informa: "No princípio
do ano de 1989, neste local, à sombra generosa desta
árvore, uma fava de bolota, o governador Siqueira
Campos decidiu: 'Aqui construirei a cidade de Palmas, a
nova capital do Tocantins'". Gravadas ali há três
anos, essas palavras são um exemplo do poder que
o governador exerce sobre o Estado mais jovem da federação.
José Wilson Siqueira Campos dedicou cerca de vinte
anos de sua vida pública à luta pela emancipação
do Tocantins. Agora no terceiro mandato, já governou
o Estado durante oito de seus doze anos de existência.
Nas três administrações, distribuiu
terras e agrados aos correligionários, fez a alegria
das empreiteiras e nomeou quase todos os cargos públicos
disponíveis. Nas escolas públicas do Tocantins,
os alunos estudam a história da região por
meio de uma cartilha em quadrinhos distribuída pelo
governo do Estado. Siqueira Campos ocupa mais de um terço
das páginas e aparece como um herói popular.
"A criança e os jovens são prioridade, com
educação para todos, salas equipadas, computadores
e vídeos profissionais", afirma o governador em sua
versão gibi.
Como
primeiro governante do Estado, eleito em 1988, logo após
a emancipação, Siqueira Campos teve a prerrogativa
de indicar os três conselheiros do Tribunal de Contas
do Estado, órgão responsável por aprovar
as contas do governo. Também nomeou todos os desembargadores
do Tribunal de Justiça e quatro dos sete integrantes
do Tribunal Regional Eleitoral. Com uma parte substancial
do Judiciário sob seu controle, o apoio de dois terços
dos deputados estaduais e de mais de 90% dos prefeitos,
sua palavra é uma ordem. E ai de quem desobedecer.
Nas eleições de 1994, quando concorria ao
segundo mandato, Siqueira Campos mandou apreender e incinerar
a edição de um livro que o criticava. O autor,
Rinaldo Campos, ficou preso por cinco dias. Há dois
meses, durante uma solenidade no município de Araguaína,
o governador atirou um microfone sobre um manifestante que
gritava palavras de ordem contra ele. Depois, ordenou à
Polícia Militar que prendesse o rapaz, que só
foi libertado sete horas mais tarde.
A distribuição de terras confere a Siqueira
Campos poder enorme. Desde sua primeira administração,
já entregou em Palmas e no interior do Estado pelo
menos 20.000 hectares, área
igual à do município do Recife. Os lotes foram
vendidos a preços simbólicos ou entregues
em regime de comodato. A explicação oficial
é a necessidade de povoar o Estado e a nova capital.
Ocorre que grande parte dos novos proprietários é
do círculo de amigos do governador.
Ação popular No entorno de
Palmas, foram distribuídas 2.000
chácaras. Em 1990, um ex-secretário de Estado
pagou o equivalente a 700 reais, em valores atualizados,
por um sítio que hoje vale 30.000
reais. O próprio governador Siqueira Campos vendeu
para a pessoa física Siqueira Campos uma área
com mais de 80 hectares, onde plantou 20.000
coqueiros e construiu um lago cinematográfico. Em
1997 mandou desapropriar uma fazenda de 354 hectares, contígua
a sua chácara, sob o pretexto de criar um cinturão
verde ao redor de Palmas. A área também foi
transformada em chácaras, que foram entregues a autoridades,
como o procurador-geral do Estado e o diretor do Instituto
de Terras do Tocantins. Atualmente, Siqueira Campos responde
a uma ação popular pela distribuição
de terras para amigos.
Fotos Eugenio Savio
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| A placa sob a árvore: o lugar
mítico onde Siqueira viu o futuro |
O poder do governador estende-se por seu círculo
familiar. A primeira-dama do Estado, Marilúcia Leandro
Uchôa, é promotora pública e trabalha
como assessora especial do procurador-geral de Justiça,
José Omar de Almeida Júnior. Entre as funções
do procurador está justamente investigar irregularidades
eventualmente cometidas pelo governo. Ou seja, Siqueira
Campos conseguiu a proeza de colocar sua mulher no gabinete
do homem que, em tese, deveria investigar os atos de sua
própria administração. "Não
tenho nenhum constrangimento em empregar a mulher do governador
em meu gabinete ou em ter recebido licença do governo
para ocupar uma chácara", diz o procurador, também
brindado com terras distribuídas por Siqueira Campos.
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| Palácio do Araguaia em reforma:
granito comprado do filho do governador |
Por vontade de Siqueira Campos, o traçado urbano
de Palmas foi inspirado em Brasília, com avenidas
largas, quadras temáticas e vários blocos
de prédios públicos. No ponto central, está
o vistoso Palácio do Araguaia, sede do Poder Executivo.
O edifício passa por uma reforma que inclui a construção
de novos espaços para duas secretarias de Estado.
Valor da obra: 16 milhões de reais. Siqueira Campos
entregou o serviço sem licitação para
a mesma empreiteira que construiu o palácio em 1989,
a Warre Engenharia, de Goiânia. Para isso, convenceu
o Tribunal de Contas do Estado (lembre-se: composto de conselheiros
indicados por ele) de que não se tratava de uma reforma,
mas da continuação da obra original. A Warre
Engenharia compra o granito utilizado para substituir o
carpete do palácio da Granitos Palmas, empresa de
seu filho, José Wilson Siqueira Campos Júnior.
Nascido no sertão cearense, filho de um sapateiro,
Siqueira Campos chegou a Colinas, no norte de Goiás,
hoje Tocantins, em 1963. Antes tinha sido seringueiro no
Amazonas e vendedor de inseticida em Campinas. Em dois anos
elegeu-se vereador. Abraçou a bandeira da criação
do novo Estado e conseguiu ser eleito deputado federal por
cinco mandatos. Em 1985 respondeu ao veto do presidente
José Sarney à emancipação do
Tocantins com uma greve de fome de quatro dias.
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| Cinturão verde no entorno
de Palmas: chácaras distribuídas para
amigos |
A insistência surtiu efeito, e hoje até os
adversários reconhecem que Tocantins passou a figurar
no mapa brasileiro por mérito dele. Atualmente, Palmas
é a cidade que mais cresce no país. Há
dez anos, apenas 200 quilômetros de estradas estaduais
eram pavimentados. Agora, chegam a 4.000.
Por essas e outras, Tocantins transformou-se num paraíso
para as empreiteiras. Nas últimas eleições,
as construtoras que têm obras no Estado foram responsáveis
por 99,8% das doações financeiras para as
campanhas de Siqueira Campos e seus correligionários
do PFL.