Edição 1 658 19/7/2000

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Preso lá fora

Já são 1 200 os brasileiros encarcerados no exterior


Eles partem em busca de oportunidades. Alguns acabam descobrindo uma nova vida, atrás das grades. O número de brasileiros presos fora do país cresceu 50% em quatro anos, de acordo com levantamento do Ministério de Relações Exteriores. Em 1996, eles somavam 800, hoje são 1 200. O perfil do presidiário brasileiro no exterior também está mudando. Até pouco tempo atrás, a maioria dos detidos era composta de autores de pequenos delitos, residentes em países limítrofes, como o Paraguai. Hoje, a maior parte são os chamados mulas, pagos para transpor fronteiras com drogas. Por causa deles há tantos presos em países onde a presença nacional é pequena, como Itália, França e Espanha. A maior ocorrência de prisões acontece, como é natural, em lugares com concentrações importantes de trabalhadores ou imigrantes brasileiros, como Paraguai, Bolívia, Estados Unidos e Japão.

O número de presos no exterior é relativamente pequeno em relação ao contingente estimado em 1,5 milhão de brasileiros vivendo fora do país. Não há informações sobre a formação de organizações criminosas entre nossos trabalhadores no exterior. Nos Estados Unidos, país habituado às quadrilhas étnicas – dos tradicionais capos italianos e narcotraficantes colombianos às máfias orientais e russa –, chama a atenção das autoridades a falta de criminosos profissionais na comunidade brasileira. Os crimes costumam ser individuais. São casos como o do goiano Wedson Morais, 36 anos, atualmente sendo julgado na Califórnia pelo assassinato dos avós de sua ex-mulher, que pode ser condenado à morte. O serviço diplomático brasileiro, que tem por obrigação acompanhar nossos cidadãos em dificuldades com a lei no exterior, gastou cerca de 250 000 dólares na assistência a detentos no ano passado. Em certos casos, chegou a contratar advogados para defendê-los. Em outros, ofereceu o que os diplomatas chamam de ajuda humanitária: em países onde as condições carcerárias exigem, fornece comida, cobertores, roupas e remédios.

"O consulado presta assessoria jurídica e auxilia o acusado, mas não pode interferir no processo judicial. Temos de respeitar as leis locais", diz Paulo Fontoura, chefe da Divisão de Assistência Consular do Itamaraty.

O Brasil mantém advogados em locais estratégicos, como Assunção e Ciudad del Este, no Paraguai, Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, e Washington, nos Estados Unidos. No momento, a diplomacia brasileira está às voltas com dois casos especialmente dramáticos, os dos jovens Djavan Arams Silva, de 23 anos, e João Herbert, de 22. Adotados ainda crianças por famílias dos Estados Unidos, eles não têm cidadania americana e foram condenados por pequenos delitos. O problema é que a lei do país determina a expulsão dos estrangeiros condenados. Nenhum deles fala português ou tem vínculo com o Brasil. Por considerar a deportação uma injustiça e uma crueldade, o governo brasileiro se recusa a conceder os passaportes para que eles façam a viagem de volta. A embaixada brasileira pediu a revogação da deportação de João Herbert e o caso está sendo analisado. Já Djavan, nem a família adotiva o quer. Sua mãe americana teme seu comportamento agressivo. Enquanto a situação não se resolve, eles continuam presos por lá, engrossando as estatísticas por aqui.