Edição 1 658 - 19/7/2000

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Bruxo das letras

Marketing esperto e boa literatura fazem de
Harry Potter
um fenômeno de vendas

Anna Paula Buchalla

 
AFP

A autora Joanne Rowling (acima) e a fila para comprar o quarto volume da série: à meia-noite em ponto

Foi como num passe de mágica. Harry Potter and the Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice de Fogo), o quarto volume da série criada pela inglesa Joanne K. Rowling, mal chegou às livrarias e já bateu um recorde. Nunca, em toda a história da literatura, um livro se vendeu tão rápido. No sábado 8, milhares de crianças e adolescentes na Inglaterra e nos Estados Unidos fizeram fila durante a madrugada para comprar as aventuras do menino bruxo. Quando o livro finalmente foi colocado à venda, um minuto após a meia-noite, eles correram para garantir suas cópias. Muitos nem esperaram para abrir o exemplar em casa. Sentaram-se no chão das lojas e, lá mesmo, começaram a leitura. Em uma livraria do centro de Londres, mais de 500 exemplares foram vendidos na primeira hora. Naquele sábado, a livraria virtual Amazon Books negociou mais de 350.000 cópias nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, ao impressionante ritmo de 14.600 por hora.

Harry Potter é um fenômeno e tanto. Primeiro, porque é personagem de um livro, e não de um desenho animado ou de um jogo de computador. Os pequenos estavam ávidos por um calhamaço de 752 páginas. E o melhor: é boa literatura. As histórias são bem escritas e emocionantes. Mexem com o imaginário infantil – varinhas de condão, capas de invisibilidade, espelho que reflete a realização dos desejos de quem nele se mira, centauros, dragões, duendes, unicórnios e por aí vai. "A série de Harry Potter é bem construída, tem ótimo ritmo e é muito gostosa de ler, mesmo sendo previsível aqui e ali", definiu a escritora de livros infantis Ana Maria Machado, em uma de suas críticas.

Cálice de Fogo só confirma o sucesso de Joanne como escritora. Traduzida para 35 idiomas, inclusive o português, a saga do bruxo mirim já vendeu mais de 30 milhões de livros em todo o mundo, rendendo lucros de 480 milhões de dólares. Por trás da febre Harry Potter está uma campanha de marketing sem precedentes. O título era guardado a sete chaves, e apenas um seleto grupo pôde ler Cálice de Fogo antes do lançamento. Sabia-se apenas que um dos personagens morreria no final da história, o que só aumentou o suspense. Os vendedores comprometeram-se a não abrir as caixas com os livros, marcadas pelos dizeres: "Harry Potter IV não pode ser vendido antes de 8 de julho de 2000". A campanha incluiu aviões com banners sobrevoando cidades e outdoors espalhados em grandes centros, como na Times Square, em Nova York. Tudo foi idéia de Joanne. Aos 34 anos, a escritora é a terceira mulher que mais fatura na Inglaterra, cerca de 40 milhões de dólares por ano. O primeiro dos sete títulos da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal (Rocco; 263 páginas; 22 reais), chegou ao Brasil em abril. De lá para cá, já foram vendidas 60.000 cópias e um novo lote de 15.000 deve chegar nesta semana às livrarias. Também não deixa de ser um fenômeno para os moldes brasileiros. Aqui, um livro que vende 10.000 cópias é considerado um sucesso.

 

Cenas de uma febre

Fotos AP
Enquanto os pais esperam na fila, o menino dorme no chão da loja, na Califórnia

 

Fantasiados de Harry Potter, os dois meninos americanos foram os primeiros a chegar a um concurso promovido por uma livraria A campanha de marketing agressiva incluiu um telão na Times Square, em Nova York, exibido logo após a meia- noite do sábado 8