Bruxo das letras
Marketing esperto e boa literatura fazem
de
Harry Potter um fenômeno de vendas
Anna Paula Buchalla
 |
AFP

A autora Joanne Rowling (acima) e a fila para
comprar o quarto volume da série: à meia-noite
em ponto |
Foi como num passe de mágica. Harry Potter and
the Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice
de Fogo), o quarto volume da série criada pela
inglesa Joanne K. Rowling, mal chegou às livrarias
e já bateu um recorde. Nunca, em toda a história
da literatura, um livro se vendeu tão rápido.
No sábado 8, milhares de crianças e adolescentes
na Inglaterra e nos Estados Unidos fizeram fila durante
a madrugada para comprar as aventuras do menino bruxo. Quando
o livro finalmente foi colocado à venda, um minuto
após a meia-noite, eles correram para garantir suas
cópias. Muitos nem esperaram para abrir o exemplar
em casa. Sentaram-se no chão das lojas e, lá
mesmo, começaram a leitura. Em uma livraria do centro
de Londres, mais de 500 exemplares foram vendidos na primeira
hora. Naquele sábado, a livraria virtual Amazon Books
negociou mais de 350.000 cópias
nos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, ao impressionante
ritmo de 14.600 por hora.
Harry Potter é um fenômeno e tanto. Primeiro,
porque é personagem de um livro, e não de
um desenho animado ou de um jogo de computador. Os pequenos
estavam ávidos por um calhamaço de 752 páginas.
E o melhor: é boa literatura. As histórias
são bem escritas e emocionantes. Mexem com o imaginário
infantil varinhas de condão, capas de invisibilidade,
espelho que reflete a realização dos desejos
de quem nele se mira, centauros, dragões, duendes,
unicórnios e por aí vai. "A série de
Harry Potter é bem construída, tem ótimo
ritmo e é muito gostosa de ler, mesmo sendo previsível
aqui e ali", definiu a escritora de livros infantis Ana
Maria Machado, em uma de suas críticas.
Cálice de Fogo só confirma o sucesso
de Joanne como escritora. Traduzida para 35 idiomas, inclusive
o português, a saga do bruxo mirim já vendeu
mais de 30 milhões de livros em todo o mundo, rendendo
lucros de 480 milhões de dólares. Por trás
da febre Harry Potter está uma campanha de marketing
sem precedentes. O título era guardado a sete chaves,
e apenas um seleto grupo pôde ler Cálice
de Fogo antes do lançamento. Sabia-se apenas
que um dos personagens morreria no final da história,
o que só aumentou o suspense. Os vendedores comprometeram-se
a não abrir as caixas com os livros, marcadas pelos
dizeres: "Harry Potter IV não pode ser vendido antes
de 8 de julho de 2000". A campanha incluiu aviões
com banners sobrevoando cidades e outdoors espalhados em
grandes centros, como na Times Square, em Nova York. Tudo
foi idéia de Joanne. Aos 34 anos, a escritora é
a terceira mulher que mais fatura na Inglaterra, cerca de
40 milhões de dólares por ano. O primeiro
dos sete títulos da série, Harry Potter
e a Pedra Filosofal (Rocco; 263 páginas; 22 reais),
chegou ao Brasil em abril. De lá para cá,
já foram vendidas 60.000
cópias e um novo lote de 15.000
deve chegar nesta semana às livrarias. Também
não deixa de ser um fenômeno para os moldes
brasileiros. Aqui, um livro que vende 10.000
cópias é considerado um sucesso.