A arte de exibir
Museus investem em tecnologia
e criatividade
para atrair e encantar mais visitantes
Rodrigo Cavalcante
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| Corredores e vista aérea
do Experience Music Project: viagem pelo mundo
do rock |
O objetivo é fazer o visitante sentir-se como um
astro de rock diante de uma multidão de fãs.
O Experience Music Project, o delirante museu dedicado à
música pop recém-inaugurado em Seattle, nos
Estados Unidos, faz isso com a ajuda de uma fartura de recursos
da realidade visual, como fumaça, holofotes coloridos
e gravações do alarido da multidão.
Não que pretenda criar uma fantasia de parque temático.
A idéia é envolver o visitante no universo
mágico e frenético do show business. Projetado
pelo arquiteto Frank Gehry, o mesmo que desenhou o arrojadíssimo
prédio do Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha,
o Experience Music Project é o mais novo exemplar
de uma onda de renovação que está transformando
poeirentas coleções históricas e científicas
em atrações high tech. No Museu de História
Natural de Londres é possível sentir nos próprios
pés como a terra chacoalhou no Japão durante
o terremoto de 1995. Ou ver o estado em que ficou um automóvel
depois de ser coberto pelas cinzas do vulcão Pinatubo,
na devastadora erupção nas Filipinas em 1991.
Tudo feito para que o visitante, mais do que admirar as
coleções, participe intensamente da exposição.
Há uma febre de construção de museus
modernos e criativos. E, como conseqüência, uma
explosão de escritórios especializados em
projetos desse tipo. Durante os primeiros anos da década
de 90, criavam-se museus ao ritmo de um por mês no
Japão. Em pouco tempo a tendência engolfou
o Canadá, a Escandinávia e até a Argentina.
Nosso vizinho dispõe agora de um museu na Patagônia
que exibe de forma inovadora fósseis únicos
de colossais dinossauros. Apenas em Nova York, oito novas
instituições foram abertas no ano passado.
Há duas semanas, em Londres, uma moderníssima
ala do Museu da Ciência foi inaugurada depois de obras
que consumiram 75 milhões de dólares. O museu,
que já tinha uma invejável coleção
de recursos eletrônicos, ganhou um cinema de alta
definição e seis novas galerias.
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| Entrada das
Galerias da
Terra, em Londres:
globo giratório
na escada rolante
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O Experience Music Project de Seattle é um caso
especial devido à ousadia com que lida com um tema
que nunca antes tinha sido venerado em templo tão
formidável. O museu abriga uma invejável coleção
de símbolos da cultura pop americana. São
80 000 itens, entre objetos de astros como Elvis Presley,
Janis Joplin e Jimi Hendrix, discos, cartazes, filmes e
vídeos guardados em um delirante edifício
em forma de guitarra amassada, todo feito de aço
inoxidável e alumínio. Passear por seus corredores
coloridos, escadarias labirínticas e laboratórios
de som e vídeo é como embarcar numa viagem
alucinógena. Os administradores do novo museu estimam
o número anual de visitantes em 800 000. Esse templo
custou 240 milhões de dólares ao milionário
Paul Allen, um dos fundadores da Microsoft. O Experience
Music Project é a radicalização de
experiências bem-sucedidas empreendidas por vetustas
instituições, como o Museu Americano de História
Natural, em Nova York, e o Museu de História Natural
de Londres.
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| Máquina de imagem digital
do Museu da Ciência, em Londres: jogo interativo
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Para dar ares mais modernos ao seu prédio, o museu
nova-iorquino gastou quase a mesma quantia que Allen investiu
em seu delírio roqueiro. Apenas no planetário
que ficava num prédio anexo ao do museu foram gastos
210 milhões de dólares. O resultado, projetado
pelo arquiteto James Polshek e aberto ao público
há cinco meses, é uma fantástica combinação
de ciência espacial, arrojo arquitetônico e
o mais puro cinema, com atores do porte de Tom Hanks e Jodie
Foster narrando projeções digitais que simulam
viagens pelo espaço sideral e a explosão que
gerou o universo. Do outro lado do prédio, outros
17,8 milhões de dólares foram gastos há
dois anos com uma prodigiosa reforma das alas de exposição
permanente do museu, criando o Salão da Biodiversidade.
O designer Ralph Appelbaum reconstruiu artificialmente um
naco de 230 metros quadrados de floresta tropical africana,
com 500 000 folhas feitas a mão, e ainda inventou
uma parede de acrílico com 30 metros de extensão
na qual 1 500 espécies de animais parecem flutuar
em caixas transparentes. Com as novas atrações,
o museu nova-iorquino pretende aumentar para 4,5 milhões
os atuais 3 milhões de visitantes que recebe a cada
ano. "O que queremos é expor as coisas de uma maneira
linear, provocando sensações sem abrir mão
da possibilidade de o visitante explorar em detalhes o que
mais lhe interessa", diz Appelbaum. Dono de um badaladíssimo
escritório de arquitetura de museus, ele já
projetou mais de 100 espaços culturais. Entre eles
estão obras memoráveis, como o Museu do Holocausto
em Washington e o Newseum, dedicado ao jornalismo, nos arredores
da capital americana.
Carl Purcell
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| No Newseum, em Washington:
o jornalismo num museu arrojado |
Os ingleses começaram a espanar o mofo de seu velho
Museu de História Natural no fim da década
de 80, com reformas no prédio inaugurado em 1881.
O trabalho foi concluído há dois anos e tem
seu ponto alto nas espetaculares Galerias da Terra. A entrada
é um vasto salão com 15 metros de altura.
Uma longa escada rolante passa por dentro de um globo terrestre
giratório feito de cobre, zinco e ferro. As paredes
de ardósia são recobertas de desenhos das
principais constelações. Recursos de alta
tecnologia à disposição dos visitantes
ajudam a entender a geologia de nosso planeta e fenômenos
naturais como terremotos e erupções vulcânicas.
Um cenário fantástico construído para
acabar de vez com a velha idéia de que visitar museu
é tão chato como fazer lição
de casa.
Relíquias sob teto
de vidro
Às vésperas de completar seus 250 anos,
o celebrado Museu Britânico, em Londres, está
prestes a ter concluída sua mais radical reforma.
Quem o conheceu vetusto e austero terá um choque.
A antiga biblioteca está sendo transformada
numa grande área de circulação
coberta por uma clarabóia de vidro e aço,
a chamada Great Court. A obra, conduzida sob a batuta
do arquiteto Normam Foster, o mesmo que criou a cúpula
de vidro do Reichstag, o Parlamento alemão
em Berlim, vai custar cerca de 150 milhões
de dólares. O que o Museu quer mostrar com
seu pátio envidraçado é que não
se considera um espaço inerte no qual se exibem
relíquias mas uma instituição
viva, atuante e à vontade no século
XXI. Paralelamente à cobertura transparente,
serão construídas novas passarelas e
vias de acesso às diversas alas. A mudança
é tão grande que está sendo comparada
à pirâmide de vidro que o arquiteto chinês
I. M. Pei plantou na entrada do Museu do Louvre, em
1989. A reforma do Museu Britânico que recebe
5 milhões de visitantes por ano é
um dos projetos milionários que estão
dando cara nova ao circuito cultural da capital inglesa.
No momento, um pacote de 58 milhões de dólares
está reformando a Casa de Charles Darwin, o
Museu Nacional Marítimo e o Museu Imperial
da Guerra. A obra mais fulgurante, a Tate Modern,
o maior museu de arte moderna do mundo, custou 200
milhões de dólares e foi inaugurada
a tempo de se integrar ao conjunto de obras comemorativas
da passagem do milênio.
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