Edição 1 658 - 19/7/2000

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A arte de exibir

Museus investem em tecnologia e criatividade
para atrair e encantar mais visitantes

Rodrigo Cavalcante

 
Corredores e vista aérea do Experience Music Project: viagem pelo mundo do rock

O objetivo é fazer o visitante sentir-se como um astro de rock diante de uma multidão de fãs. O Experience Music Project, o delirante museu dedicado à música pop recém-inaugurado em Seattle, nos Estados Unidos, faz isso com a ajuda de uma fartura de recursos da realidade visual, como fumaça, holofotes coloridos e gravações do alarido da multidão. Não que pretenda criar uma fantasia de parque temático. A idéia é envolver o visitante no universo mágico e frenético do show business. Projetado pelo arquiteto Frank Gehry, o mesmo que desenhou o arrojadíssimo prédio do Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, o Experience Music Project é o mais novo exemplar de uma onda de renovação que está transformando poeirentas coleções históricas e científicas em atrações high tech. No Museu de História Natural de Londres é possível sentir nos próprios pés como a terra chacoalhou no Japão durante o terremoto de 1995. Ou ver o estado em que ficou um automóvel depois de ser coberto pelas cinzas do vulcão Pinatubo, na devastadora erupção nas Filipinas em 1991. Tudo feito para que o visitante, mais do que admirar as coleções, participe intensamente da exposição.


Há uma febre de construção de museus modernos e criativos. E, como conseqüência, uma explosão de escritórios especializados em projetos desse tipo. Durante os primeiros anos da década de 90, criavam-se museus ao ritmo de um por mês no Japão. Em pouco tempo a tendência engolfou o Canadá, a Escandinávia e até a Argentina. Nosso vizinho dispõe agora de um museu na Patagônia que exibe de forma inovadora fósseis únicos de colossais dinossauros. Apenas em Nova York, oito novas instituições foram abertas no ano passado. Há duas semanas, em Londres, uma moderníssima ala do Museu da Ciência foi inaugurada depois de obras que consumiram 75 milhões de dólares. O museu, que já tinha uma invejável coleção de recursos eletrônicos, ganhou um cinema de alta definição e seis novas galerias.


Entrada das Galerias da Terra, em Londres: globo giratório na escada rolante

O Experience Music Project de Seattle é um caso especial devido à ousadia com que lida com um tema que nunca antes tinha sido venerado em templo tão formidável. O museu abriga uma invejável coleção de símbolos da cultura pop americana. São 80 000 itens, entre objetos de astros como Elvis Presley, Janis Joplin e Jimi Hendrix, discos, cartazes, filmes e vídeos guardados em um delirante edifício em forma de guitarra amassada, todo feito de aço inoxidável e alumínio. Passear por seus corredores coloridos, escadarias labirínticas e laboratórios de som e vídeo é como embarcar numa viagem alucinógena. Os administradores do novo museu estimam o número anual de visitantes em 800 000. Esse templo custou 240 milhões de dólares ao milionário Paul Allen, um dos fundadores da Microsoft. O Experience Music Project é a radicalização de experiências bem-sucedidas empreendidas por vetustas instituições, como o Museu Americano de História Natural, em Nova York, e o Museu de História Natural de Londres.


Máquina de imagem digital do Museu da Ciência, em Londres: jogo interativo

Para dar ares mais modernos ao seu prédio, o museu nova-iorquino gastou quase a mesma quantia que Allen investiu em seu delírio roqueiro. Apenas no planetário que ficava num prédio anexo ao do museu foram gastos 210 milhões de dólares. O resultado, projetado pelo arquiteto James Polshek e aberto ao público há cinco meses, é uma fantástica combinação de ciência espacial, arrojo arquitetônico e o mais puro cinema, com atores do porte de Tom Hanks e Jodie Foster narrando projeções digitais que simulam viagens pelo espaço sideral e a explosão que gerou o universo. Do outro lado do prédio, outros 17,8 milhões de dólares foram gastos há dois anos com uma prodigiosa reforma das alas de exposição permanente do museu, criando o Salão da Biodiversidade. O designer Ralph Appelbaum reconstruiu artificialmente um naco de 230 metros quadrados de floresta tropical africana, com 500 000 folhas feitas a mão, e ainda inventou uma parede de acrílico com 30 metros de extensão na qual 1 500 espécies de animais parecem flutuar em caixas transparentes. Com as novas atrações, o museu nova-iorquino pretende aumentar para 4,5 milhões os atuais 3 milhões de visitantes que recebe a cada ano. "O que queremos é expor as coisas de uma maneira linear, provocando sensações sem abrir mão da possibilidade de o visitante explorar em detalhes o que mais lhe interessa", diz Appelbaum. Dono de um badaladíssimo escritório de arquitetura de museus, ele já projetou mais de 100 espaços culturais. Entre eles estão obras memoráveis, como o Museu do Holocausto em Washington e o Newseum, dedicado ao jornalismo, nos arredores da capital americana.


Carl Purcell
No Newseum, em Washington: o jornalismo num museu arrojado


Os ingleses começaram a espanar o mofo de seu velho Museu de História Natural no fim da década de 80, com reformas no prédio inaugurado em 1881. O trabalho foi concluído há dois anos e tem seu ponto alto nas espetaculares Galerias da Terra. A entrada é um vasto salão com 15 metros de altura. Uma longa escada rolante passa por dentro de um globo terrestre giratório feito de cobre, zinco e ferro. As paredes de ardósia são recobertas de desenhos das principais constelações. Recursos de alta tecnologia à disposição dos visitantes ajudam a entender a geologia de nosso planeta e fenômenos naturais como terremotos e erupções vulcânicas. Um cenário fantástico construído para acabar de vez com a velha idéia de que visitar museu é tão chato como fazer lição de casa.

 

Relíquias sob teto de vidro

Às vésperas de completar seus 250 anos, o celebrado Museu Britânico, em Londres, está prestes a ter concluída sua mais radical reforma. Quem o conheceu vetusto e austero terá um choque. A antiga biblioteca está sendo transformada numa grande área de circulação coberta por uma clarabóia de vidro e aço, a chamada Great Court. A obra, conduzida sob a batuta do arquiteto Normam Foster, o mesmo que criou a cúpula de vidro do Reichstag, o Parlamento alemão em Berlim, vai custar cerca de 150 milhões de dólares. O que o Museu quer mostrar com seu pátio envidraçado é que não se considera um espaço inerte no qual se exibem relíquias – mas uma instituição viva, atuante e à vontade no século XXI. Paralelamente à cobertura transparente, serão construídas novas passarelas e vias de acesso às diversas alas. A mudança é tão grande que está sendo comparada à pirâmide de vidro que o arquiteto chinês I. M. Pei plantou na entrada do Museu do Louvre, em 1989. A reforma do Museu Britânico – que recebe 5 milhões de visitantes por ano – é um dos projetos milionários que estão dando cara nova ao circuito cultural da capital inglesa. No momento, um pacote de 58 milhões de dólares está reformando a Casa de Charles Darwin, o Museu Nacional Marítimo e o Museu Imperial da Guerra. A obra mais fulgurante, a Tate Modern, o maior museu de arte moderna do mundo, custou 200 milhões de dólares e foi inaugurada a tempo de se integrar ao conjunto de obras comemorativas da passagem do milênio.