Edição 1 658 - 19/7/2000

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Passado à venda

Governo italiano vai se desfazer do Foro Itálico
e de outros imóveis de valor histórico

Victor Sokolowicz


Pedro Martinelli


Está sendo colocado em prática pelo governo italiano um monumental plano de privatização, já batizado de "liquidação imobiliária do milênio". Não há exagero algum nessa sentença. Estão à venda 119 propriedades do Estado. A relação contém um aeroporto desativado, palácios, presídios, quartéis, castelos medievais, uma ilha e a peça mais representativa da arquitetura fascista, o Foro Itálico, de Roma. Construído há setenta anos, durante a ditadura de Benito Mussolini, o Foro é o mais importante complexo esportivo do país. Sua área contém o Estádio Olímpico, palco dos Jogos de Roma, em 1960, as quadras nas quais é disputado o torneio de tênis aberto de Roma, várias piscinas, uma academia de esgrima e o famoso Estádio de Mármores. "Com sua coleção de estátuas de atletas nus, o local é um dos cartões-postais do período fascista", diz Luciano Migliaccio, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Com a venda de seu estoque de imóveis, o governo italiano pretende arrecadar 130 bilhões de reais, dinheiro que será utilizado para adequar as finanças públicas ao figurino exigido pela União Européia.

Depois de ser atirado ao ostracismo, pela associação com os horrores da ditadura de Mussolini, o estilo de cenário de ópera, característico do fascismo, teve seu valor histórico reconhecido recentemente. O Foro Itálico está avaliado em 900 milhões de reais, mas poderá ser vendido em partes. Dirigentes do Roma e do Lazio, os dois maiores clubes de futebol da capital italiana, desejam adquirir o Estádio Olímpico. Outras propriedades da lista de privatização têm importância histórica. A Fortaleza Castruccio, em Sarzana, pertenceu ao mais importante dos capitães mercenários italianos do século XIV. Em Turim, será vendida a estrebaria real. Vários castelos e mosteiros, transformados em presídios, entraram na relação, inclusive o localizado na Ilha de Ventotene, em Veneza. Nesse lugar ficaram encarcerados os inimigos do regime fascista.

A Itália é a nação mais endividada da União Européia, e o dinheiro da privatização servirá para atingir as metas de orçamento requisitadas aos países que aderiram à moeda única, o euro. O anúncio do programa provocou polêmica à esquerda e à direita. O deputado Antonio Mazzocchi, do neofascista partido Aliança Nacional, transformou-se no líder dos descontentes ao propor uma lei para barrar o leilão do Foro Itálico. "Se vendermos o Foro agora, quem impedirá o Estado de negociar o Coliseu no futuro?", pergunta ele.

 
Victor Sokolowicz