Passado à venda
Governo italiano vai se desfazer do Foro
Itálico
e de outros imóveis de valor histórico
Victor Sokolowicz
Pedro Martinelli
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Está sendo colocado em prática pelo governo
italiano um monumental plano de privatização,
já batizado de "liquidação imobiliária
do milênio". Não há exagero algum nessa
sentença. Estão à venda 119 propriedades
do Estado. A relação contém um aeroporto
desativado, palácios, presídios, quartéis,
castelos medievais, uma ilha e a peça mais representativa
da arquitetura fascista, o Foro Itálico, de Roma.
Construído há setenta anos, durante a ditadura
de Benito Mussolini, o Foro é o mais importante complexo
esportivo do país. Sua área contém
o Estádio Olímpico, palco dos Jogos de Roma,
em 1960, as quadras nas quais é disputado o torneio
de tênis aberto de Roma, várias piscinas, uma
academia de esgrima e o famoso Estádio de Mármores.
"Com sua coleção de estátuas de atletas
nus, o local é um dos cartões-postais do período
fascista", diz Luciano Migliaccio, professor da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
Paulo. Com a venda de seu estoque de imóveis, o governo
italiano pretende arrecadar 130 bilhões de reais,
dinheiro que será utilizado para adequar as finanças
públicas ao figurino exigido pela União Européia.
Depois de ser atirado ao ostracismo, pela associação
com os horrores da ditadura de Mussolini, o estilo de cenário
de ópera, característico do fascismo, teve
seu valor histórico reconhecido recentemente. O Foro
Itálico está avaliado em 900 milhões
de reais, mas poderá ser vendido em partes. Dirigentes
do Roma e do Lazio, os dois maiores clubes de futebol da
capital italiana, desejam adquirir o Estádio Olímpico.
Outras propriedades da lista de privatização
têm importância histórica. A Fortaleza
Castruccio, em Sarzana, pertenceu ao mais importante dos
capitães mercenários italianos do século
XIV. Em Turim, será vendida a estrebaria real. Vários
castelos e mosteiros, transformados em presídios,
entraram na relação, inclusive o localizado
na Ilha de Ventotene, em Veneza. Nesse lugar ficaram encarcerados
os inimigos do regime fascista.
A Itália é a nação mais endividada
da União Européia, e o dinheiro da privatização
servirá para atingir as metas de orçamento
requisitadas aos países que aderiram à moeda
única, o euro. O anúncio do programa provocou
polêmica à esquerda e à direita. O deputado
Antonio Mazzocchi, do neofascista partido Aliança
Nacional, transformou-se no líder dos descontentes
ao propor uma lei para barrar o leilão do Foro Itálico.
"Se vendermos o Foro agora, quem impedirá o Estado
de negociar o Coliseu no futuro?", pergunta ele.
Victor Sokolowicz
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