Edição 1 658 - 19/7/2000

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Mania de protesto

Barulhentas mas ordeiras, as manifestações
já fazem parte do dia-a-dia dos parisienses

Paris é a cidade que mais turistas recebe no mundo. É também um dos cenários mais conhecidos que existem, um centro cultural sem rival e lugar de excelente culinária. Pode-se acrescentar a esses atributos o de capital das manifestações. Os parisienses não perdem uma chance de sair às ruas e pôr a boca no trombone. Todo dia tem manifestação, ou manif, como eles dizem. Uma não, quatro – média a que se chegou no ano passado, quando ocorreram 1.745 protestos, número 20% superior ao do ano anterior. Qualquer coisa é motivo para botar o bloco de descontentes na rua. Protesta-se contra o preço (baixo) do tomate, a favor dos argelinos que imigraram, contra os argelinos que imigraram, e todo dia há alguém reivindicando aumento de salário. Com lugar e hora certa para começar e terminar, bem-comportadas e ordeiras, as manifestações já fazem parte da rotina da população. As manifs não conseguem mudar o mundo, mas em compensação ninguém se machuca e todo mundo se diverte.

Só quem reclama são os moradores das áreas mais visadas da cidade: o trajeto entre a Praça da República e a Praça da Bastilha e a região dos ministérios. Os comerciantes também se queixam da queda do movimento. Tirando tais inconvenientes, as manifestações acontecem sem maiores incidentes. No máximo, uns poucos feridos. Nos últimos quarenta anos, houve a morte de apenas um manifestante: um rapaz que aparentemente tinha problemas no coração e morreu ao ser perseguido pela polícia. Não houve mortos sequer no conturbado maio de 68, quando as ruas da capital pegaram fogo nas mãos da estudantada. O governo não caiu, como queriam os manifestantes. A única coisa que mudou foi o piso do Quartier Latin, local dos entreveros. Em vez de paralelepípedos, usados então como munição e matéria-prima das barricadas, as ruas do bairro agora são todas asfaltadas.

O mérito pela paz das manifestações é principalmente da polícia parisiense, que tem 840 homens treinados para a situação. A preparação começa um mês antes do protesto. É esse o prazo mínimo para que os organizadores da passeata comuniquem às autoridades a intenção de sair às ruas da cidade. Feito o pedido e concedida a autorização, a polícia calcula a dimensão do protesto. Os policiais examinam o trajeto e fazem o levantamento dos pontos críticos, como canteiros de obras, que podem fornecer munição aos mais exaltados. No dia da manifestação, os guardas chegam à concentração com duas horas de antecedência para instalar barreiras e cordões de isolamento. O itinerário é rigorosamente cumprido. Em geral, a força policial permanece discretamente em ruas paralelas. Em caso de baderna, contudo, a polícia francesa nada tem de gentil. Ataca em grupos compactos, de modo a não dar chance de reação aos manifestantes. É verdade que só usam bombas de gás e cassetetes, pois, para evitar problemas, não portam armas de fogo.

A ferramenta de maior impacto das forças da lei é a câmara de vídeo. A vantagem é dupla: diante dela, as pessoas tendem a se acalmar e, em caso de confusão, a polícia dispõe de provas para apresentar à Justiça e assegurar a punição dos agressores. Os protestos de maior risco são os dos estudantes secundaristas, sempre dispostos a entrar em choque com a polícia e a saquear lojas pelo caminho. Os agricultores costumam infernizar a vida da capital, enchendo suas ruas de tratores, vacas, capim, frutas e legumes. O confronto mais violento dos últimos tempos ocorreu no ano passado, numa manifestação de bombeiros. Com certa ironia, os policiais os dispersaram com jatos de água de alta pressão. Houve feridos de ambos os lados.