Mania de protesto
Barulhentas mas ordeiras, as manifestações
já fazem parte do dia-a-dia dos parisienses
Paris é a cidade que mais turistas recebe no mundo.
É também um dos cenários mais conhecidos
que existem, um centro cultural sem rival e lugar de excelente
culinária. Pode-se acrescentar a esses atributos
o de capital das manifestações. Os parisienses
não perdem uma chance de sair às ruas e pôr
a boca no trombone. Todo dia tem manifestação,
ou manif, como eles dizem. Uma não, quatro
média a que se chegou no ano passado, quando ocorreram
1.745 protestos, número
20% superior ao do ano anterior. Qualquer coisa é
motivo para botar o bloco de descontentes na rua. Protesta-se
contra o preço (baixo) do tomate, a favor dos argelinos
que imigraram, contra os argelinos que imigraram, e todo
dia há alguém reivindicando aumento de salário.
Com lugar e hora certa para começar e terminar, bem-comportadas
e ordeiras, as manifestações já fazem
parte da rotina da população. As manifs
não conseguem mudar o mundo, mas em compensação
ninguém se machuca e todo mundo se diverte.
Só
quem reclama são os moradores das áreas mais
visadas da cidade: o trajeto entre a Praça da República
e a Praça da Bastilha e a região dos ministérios.
Os comerciantes também se queixam da queda do movimento.
Tirando tais inconvenientes, as manifestações
acontecem sem maiores incidentes. No máximo, uns
poucos feridos. Nos últimos quarenta anos, houve
a morte de apenas um manifestante: um rapaz que aparentemente
tinha problemas no coração e morreu ao ser
perseguido pela polícia. Não houve mortos
sequer no conturbado maio de 68, quando as ruas da capital
pegaram fogo nas mãos da estudantada. O governo não
caiu, como queriam os manifestantes. A única coisa
que mudou foi o piso do Quartier Latin, local dos entreveros.
Em vez de paralelepípedos, usados então como
munição e matéria-prima das barricadas,
as ruas do bairro agora são todas asfaltadas.
O mérito pela paz das manifestações
é principalmente da polícia parisiense, que
tem 840 homens treinados para a situação.
A preparação começa um mês antes
do protesto. É esse o prazo mínimo para que
os organizadores da passeata comuniquem às autoridades
a intenção de sair às ruas da cidade.
Feito o pedido e concedida a autorização,
a polícia calcula a dimensão do protesto.
Os policiais examinam o trajeto e fazem o levantamento dos
pontos críticos, como canteiros de obras, que podem
fornecer munição aos mais exaltados. No dia
da manifestação, os guardas chegam à
concentração com duas horas de antecedência
para instalar barreiras e cordões de isolamento.
O itinerário é rigorosamente cumprido. Em
geral, a força policial permanece discretamente em
ruas paralelas. Em caso de baderna, contudo, a polícia
francesa nada tem de gentil. Ataca em grupos compactos,
de modo a não dar chance de reação
aos manifestantes. É verdade que só usam bombas
de gás e cassetetes, pois, para evitar problemas,
não portam armas de fogo.
A ferramenta de maior impacto das forças da lei
é a câmara de vídeo. A vantagem é
dupla: diante dela, as pessoas tendem a se acalmar e, em
caso de confusão, a polícia dispõe
de provas para apresentar à Justiça e assegurar
a punição dos agressores. Os protestos de
maior risco são os dos estudantes secundaristas,
sempre dispostos a entrar em choque com a polícia
e a saquear lojas pelo caminho. Os agricultores costumam
infernizar a vida da capital, enchendo suas ruas de tratores,
vacas, capim, frutas e legumes. O confronto mais violento
dos últimos tempos ocorreu no ano passado, numa manifestação
de bombeiros. Com certa ironia, os policiais os dispersaram
com jatos de água de alta pressão. Houve feridos
de ambos os lados.