Edição 1 658 - 19/7/2000

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O continente condenado

Um em cada cinco adultos sul-africanos tem Aids,
mas o presidente do país nada faz porque não
acredita na contaminação pelo HIV

Cristiano Dias

AP
Contra a corrente: Mbeki diz que a causa da Aids é a miséria e não o vírus


A realidade é tão terrível que desafia a compreensão. Sete anos depois de enterrar o apartheid, a África do Sul está sendo tragada pela Aids. Um em cada cinco adultos sul-africanos está infectado pelo vírus HIV. São mais de 4 milhões de aidéticos. É mais do que em qualquer outro país. A cifra é assombrosa mesmo num continente de números assustadores. De cada três pessoas infectadas, duas vivem na África. Por lá, surgem oito novos doentes por minuto. De cada dez mortos, seis são africanos. Em duas décadas, a Aids já matou 19 milhões de pessoas, quase tanto quanto a gripe espanhola no início do século XX (20 milhões) e a peste negra na Idade Média (25 milhões). Era de esperar que o presidente de um país no epicentro de uma epidemia que ameaça dizimar seu povo tivesse muito a dizer numa reunião internacional sobre a doença. Ao discursar na abertura da 13ª Conferência sobre Aids, em Durban, no domingo 9, o presidente sul-africano Thabo Mbeki preferiu defender a tese de que a Aids é causada pela miséria, não pelo vírus HIV. É uma bobagem, sustentada pela opinião de poucos cientistas. Mas são tolices como essas, aliadas à falta de educação, à ausência de políticas de saúde e à baderna geral, que explicam como a doença que está relativamente sob controle nos outros continentes ameaça exterminar a África.

Mantidos os índices de mortalidade atuais pelos próximos dez anos, a Aids terá matado mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, mais do que a II Guerra, a maior catástrofe do século XX. A Aids já é a principal causa de mortes nas Forças Armadas do Congo-Brazzaville – seis em cada dez óbitos. Por causa da devastação causada pela doença, nos próximos cinco anos a expectativa de vida no continente deve retroceder aos níveis dos anos 60, caindo de 59 para 45 anos em média. O Zimbábue é o caso mais dramático. Entre 2005 e 2010, a esperança de vida deve retroceder a 37 anos. De modo diferente da maioria das doenças, que abate sobretudo crianças e velhos, a Aids tem a característica de causar o maior número de mortes entre a população jovem, na fase mais produtiva de sua vida. As conseqüências são duplamente calamitosas, pois as vítimas deixam órfãos de pouca idade (há 11 milhões de órfãos da Aids e 5 milhões de crianças contaminadas durante a gestação) e fazem escassear a mão-de-obra produtiva. As estimativas são de que a economia de vários países africanos diminua entre 15% e 20% nos próximos dez anos em virtude da doença.

A pergunta óbvia, diante de um quadro tão devastador, é o que fazer. As estatísticas mostram que 95% dos aidéticos estão nos países pobres. O dado pode provocar confusão e dar a impressão de que o sul-africano Mbeki tem razão quando diz que o HIV é uma fantasia de homossexuais ricos e brancos. A ciência já demonstrou que o vírus é a causa real da doença. Ocorre que a miséria é o terreno fértil no qual ela prolifera. A ONU estima que sejam necessários 2,3 bilhões de dólares por ano para tratar a doença na África. Atualmente os africanos investem apenas 300 milhões de dólares. Só os Estados Unidos gastam 4,8 bilhões de dólares por ano com seus 850.000 infectados. O dinheiro para a África talvez pudesse ser levantado com uma coleta internacional. Ainda assim, o resultado seria duvidoso. A história mostra que raramente os estrangeiros podem resolver os problemas de outros países. O grosso do serviço precisa ser feito em casa. E, com poucas exceções, os governantes africanos não estão fazendo coisa alguma para combater a Aids.

As campanhas de prevenção e uma série de novos remédios reduziram bastante a mortalidade causada pela epidemia nos países ricos. Nesses lugares, a doença continua, em parte, confinada aos grupos de risco. Não é assim na África, onde a contaminação ocorre sobretudo nas relações heterossexuais. Em novembro do ano passado, o número de africanas infectadas ultrapassou o de homens. A mesma tendência de crescimento da contaminação tem se visto em outros continentes, mas na África as tradições matriarcais de algumas tribos que permitem que a mulher tenha vários parceiros ajudam a disseminar a doença entre elas. Em 27 dos 53 países africanos pratica-se o ritual da mutilação genital feminina. As condições precárias de higiene em que são feitas essas operações, que atingem até 90% da população feminina em certas regiões, abrem caminho para a contaminação. Em Moçambique, na região de Zambézia, acredita-se que qualquer doença possa ser curada com relações sexuais. Assim o mal espírito passaria para o outro corpo, uma prática conhecida como "kaka". É outro prato cheio para a proliferação da Aids.

Há bons (e raros) exemplos de combate à doença. Em Uganda, o truculento presidente Yoweri Musseveni envolveu-se pessoalmente na cruzada antivírus. A distribuição em massa de preservativos e a campanha de esclarecimento à população reduziram em 45% a taxa de contaminação de mulheres grávidas em áreas urbanas e baixaram o porcentual da população infectada de 14% para 8%. No Senegal, a campanha institucional de prevenção manteve o índice de contaminação abaixo dos 2%, um dos menores da região. No comando do país mais desenvolvido ao sul do Saara, o presidente Thabo Mbeki tomou o rumo contrário: seu governo ignora a Aids. Isso decorre de posições políticas e ideológicas que remontam aos tempos do apartheid. Restrita a brancos homossexuais, no início da década de 80, a Aids passou a infectar também negros heterossexuais, nos anos 90. Com o fim do apartheid em 1993, que abriu as fronteiras para a entrada de imigrantes e refugiados políticos dos países vizinhos, como Moçambique e Zimbábue, focos tradicionais da doença, a contaminação se acelerou. Nessa época, a Aids era duplamente estigmatizada. Para os brancos, tratava-se de uma doença de negros promíscuos, e para os negros era uma doença de gays brancos.

Mbeki poderia pelo menos aconselhar os sul-africanos a usar preservativos e a evitar sexo inseguro. É isso, em essência, o que está dando certo em Uganda. Mas nada diz porque teme que a campanha de prevenção à Aids alimente o estereótipo racista de que os negros são irresponsáveis e não controlam o impulso sexual. A aposta de seu governo é de que o desenvolvimento econômico e a melhora da educação ensinarão o povo a tomar cuidado. O próprio Nelson Mandela, o primeiro presidente pós-apartheid, só fez menção pública à epidemia no país em 1998, em seu penúltimo ano à frente do governo. Logo que assumiu, ele fechou várias clínicas especializadas, basicamente porque médicos e enfermeiros eram brancos. A falta de informação e de uma estratégia nacional de combate à doença fez o número de infectados aumentar quinze vezes na década passada. A África do Sul tornou-se refém do HIV.

 

Brasil obtém bons resultados
distribuindo remédio de graça

Um estudo preparado pelo Banco Mundial no início da década de 90 estimou que o Brasil teria 1,2 milhão de infectados pela Aids em 2000. A nação possui hoje 540 000 aidéticos, menos da metade do previsto no levantamento catastrófico de dez anos atrás. A doença tem avançado no país, que abriga a maior concentração de aidéticos da América Latina, mas num ritmo mais lento do que fazia supor sua irrupção fulminante no início da década de 80. Parte do êxito obtido se deve à estratégia de distribuição de remédios. Ao lado de países como México e Argentina, o Brasil é dos poucos a entregar gratuitamente medicamentos aos aidéticos. Isso é possível porque ele fabrica oito das doze drogas anti-retrovirais utilizadas no tratamento. Se tivesse de importar, o custo seria 70% maior.

O país também tem conseguido bons resultados na prevenção da doença por meio da distribuição gratuita de preservativos, o método mais eficaz de evitar a contaminação em relações sexuais. Um levantamento da Unaids, a agência de combate à Aids das Nações Unidas, revela que o uso da camisinha aumentou cinco vezes no país nos anos 90. O governo brasileiro investiu no ano passado cerca de 350 milhões de dólares no combate à doença. O retorno é animador. Estima-se que entre 1997 e 1999 foram evitadas 146 000 internações em decorrência da Aids – uma economia de 289 milhões de dólares para os cofres públicos.

 

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